Crítica | Doutor Estranho (1978)

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estrelas 2

A primeira versão live-action do Doutor Estranho veio quando o personagem estava em seu auge na editora. Mas, como várias outras propriedades da Marvel – o Incrível Hulk e o Homem-Aranha são os mais bem-sucedidos deles – a ideia era produzir uma série de televisão. Philip DeGuere, prolífico roteirista de televisão, escreveu e dirigiu o filme, alterando profusamente as origens místicas do Mago Supremo.

No telefilme que nunca se transformou em série, vemos o Inominável (uma criatura que parece ter sido retirada dos efeitos rejeitados de Spectreman) convocar Morgana Le Fay (Jessica Walter) a derrotar “o velho” (the old one, não the ancient one como nos quadrinhos, cuja versão em português é Ancião) em três dias sem maiores explicações do porquê da pressa ou quem é o tal velho. Mas não demora e descobrimos que ele é Thomas Lindmer (John Mills), o Mago Supremo do momento, que vive em um misterioso sobrado junto com Wong (Clyde Kusatsu), seu fiel empregado. Sabedor que Le Fay está para chegar, ameaçando a ordem natural das coisas, Lindmer pede a Wong, que também é um mago, que procure o Dr. Stephen Strange (Peter Hooten), sem também explicar muito bem o porquê.

Esses corridos momentos iniciais dão lugar, então, a um lentíssimo desenvolvimento que lida com a chegada de Le Fay, com sequências e mais sequências mostrando o dia-a-dia do simpático Dr. Strange no hospital onde trabalha e com a manipulação da aleatória Clea Lake para matar Lindmer, deixando-a traumatizada com o evento e levando-a ao hospital de Strange. Imaginem vocês um capítulo de uma série televisão com sua duração duplicada, talvez até triplicada e é consideravelmente o que se tem aqui. São 45 minutos – metade do filme – para Strange ter o primeiro contato com magia, aprendendo que é um predestinado para ser um mago, e mais 40 minutos para que ele realmente se torne o Doutor Estranho, com uma vestimenta que tenta respeitar a original, mas que cede à moda setentista muito claramente e que ganha uma segunda versão mais risível ainda bem ao final.

A ação é minimizada e equivalente ao orçamento de televisão da época que a Universal disponibilizou. Há um claro esforço nos figurinos – especialmente os de Le Fay – e no set design do Sanctum Santorum de Lindmer, mas não muito mais do que isso. Os efeitos especiais são marcadamente inferiores ao que já era possível fazer na época e as atuações são engessadas por um roteiro carregado de clichês do gênero. Ainda que Jessica Walter destaque-se, esse destaque não é particularmente por sua capacidade dramática e sim em razão do velho adágio que diz que, em terra de cego, quem tem olho é rei, no caso, rainha. Hooten, aliás, é o mais perfeito estereótipo do “homem dos anos 70”, dos figurinos ao cabelo e de lá ao indefectível enorme bigode.

E o roteiro não se contenta em encerrar a narrativa em seu clímax, forçando um dénouement de “transformação” que é igualmente lento, cansativo e cheio de falsos encerramentos. Muito claramente não havia material suficiente para um longa de 93 minutos, apenas uma ideia que talvez nem fosse suficiente para um episódio de duração normal de série de TV.

Mas será que se a duração fosse de um episódio de TV regulamentar a trama poderia funcionar? Arrisco dizer que sim, mesmo considerando todos os problemas que mencionei acima. Há uma estrutura de série clássica em Doutor Estranho que chega a divertir aqueles que puderem transportar-se para a época. Não chega a ser trash, mas sim algo não muito longe do melhor do que os anos 70 ofereciam. Se podemos razoavelmente aceitar o Hulk pintado de verde de Lou Ferrigno, então não seria irrazoável supor-se que um Doutor Estranho com 10 segundos de efeitos visuais poderia ter seguido adiante.

Seja como for, a experiência de se assistir a Doutor Estranho nos dias de hoje em que séries e filmes de super-heróis fazem parte de nosso dia-a-dia ao ponto de fatigar até mesmo os mais viciados fãs é até interessante para nos relembrar que o sub-gênero já passou por outro boom cinematográfico e televisivo, ainda que, claro, bem menos relevante que o atual.

Doutor Estranho (Dr. Strange, EUA – 1978)
Direção: Philip DeGuere
Roteiro: Philip DeGuere
Elenco: Peter Hooten, Clyde Kusatsu, Jessica Walter, Anne-Marie Martin, Philip Sterling, John Mills, June Barrett, Sarah Rush, Diana Webster, Bob Delegall, Larry Anderson
Duração: 93 min.

RITTER FAN. . . .Sou um carioca rabugento que não faz questão nem de sol (muito quente) nem de praia (tem areia e água salgada). Prefiro o escurinho do cinema onde, sozinho ou acompanhado da família ou de amigos, me divirto - ou não, depende - por horas a fio.