Crítica | Doutor Estranho (Com Spoilers)

estrelas 4,5

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Trazer o Mago Supremo da Marvel para as telonas certamente não era uma tarefa fácil. Todo o Universo Cinematográfico da Casa das Ideias fora pautado na ciência, até com Thor buscando oferecer respostas mais pé-no-chão para essa parte da mitologia, colocando os asgardianos como extra-terrestres e não deuses. Dito isso, chegara a hora do estúdio abraçar o lado místico desse universo, adaptando para o audiovisual um dos personagens mais icônicos da Marvel, ainda que amplamente subutilizado desde sua criação. Agora é o momento de abandonarmos o realismo e partirmos para o surrealismo das viagens cósmicas de Stephen Strange.

Evidente que a jogada ousada de fazer um filme do Doutor Estranho não seria um tiro no escuro por completo. Aqueles que não gostaram do longa-metragem logo caíram em cima da fórmula básica seguida pelo estúdio, alegando sua exaustão. De fato, se você procura ver algo totalmente diferente, está procurando no lugar errado. Os filmes da Marvel não são obras autorais, estão sob firme comando dos produtores – não são uma trilogia do Batman de Nolan – a intenção aqui é vender e fazer tudo contar com uma linguagem semelhante, ao ponto que acreditemos que estamos diante de um mesmo mundo, recheado por diferentes super-heróis, uma sensação não muito diferente de ler os diversos quadrinhos da editora que seguiam e ainda seguem o fabulesco “Método Marvel”. Ter se cansado da fórmula é algo normal, mas esperar algo inteiramente distinto é ingenuidade. Mesmo seguindo essa receita, contudo, Doutor Estranho consegue garantir sua própria identidade.

A projeção tem início com o roubo do Livro de Cagliostro por Kaecilius (Mads Mikkelsen). O que vemos a seguir é seu grupo de seguidores sendo perseguido pela Anciã (Tilda Swinton), que falha em capturar o antigo Mestre de Kamar-Taj. Toda a sequência tem a função essencial de nos trazer um gosto do que veremos ao longo da obra, desde a distorção espacial, que emula um caleidoscópio, até as conjurações realizadas pelos dois lados do conflito. É muito interessante a escolha da produção em não esconder nada e desde o começo já nos colocar dentro do visual que seria desenvolvido ao longo da projeção. Em uma tela normal, os cortes e a maneira dinâmica como a câmera se locomove acaba criando uma pequena confusão no espectador – em alguns momentos precisamos prestar atenção redobrada para entender o que acontece. Em projeções maiores, porém, como é o caso do IMAX, isso é minimizado – ainda está presente, mas em menor grau.

Tal cena ainda tem a importante função de nos situar temporalmente na narrativa, criando a noção de passagem de tempo e evidenciando que Kaecilius passou um tempo considerável com as páginas em suas mãos, permitindo que a trama não soe excessivamente corrida e ajudando a construir uma história que progride de maneira mais crível. Essa sensação de passagem de tempo também funciona mais para a frente, quando o diretor lida com a evolução do protagonista.

Enfim, Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) dá as caras. A direção opta por deixar clara a importância de suas mãos, com enquadramentos focados especificamente nelas, desde o protagonista lavando suas mãos no hospital até vestindo as luvas logo antes da cirurgia. O roteiro continua com esse objetivo ao levar ao cirurgião um caso muito complicado que o obriga a operar sem o auxílio de dispositivos visuais mais rebuscados, demonstrando toda a precisão e, é claro, talento do médico. Strange é construído como uma figura cheia de si, nos remetendo automaticamente a Tony Stark. Cumberbatch, todavia, consegue garantir a identidade ao personagem que, mesmo convencido, ele nos entrega esse retrato de forma natural e, apesar de suas atitudes, já começamos a gostar dele. O humor e sarcasmo do ator evidentemente transborda para Strange, especialmente levando em conta que ele próprio pediu para inserir algumas doses de comédia em determinados pontos da projeção.

Outro ponto que cria o imediato vínculo de Stephen com Tony é a forma como são apresentados. Vemos Stark pela primeira vez, lá em Homem de Ferro, ao som de AC/DC. Stephen, por sua vez, é mostrado, em plena cirurgia, em uma brincadeira para tentar adivinhar o nome, a banda e o ano de uma música e, por meio dessas melodias, criamos um vínculo entre os dois. Ainda que ambos passem por grandes metamorfoses ao longo das obras, é importante um grau de similaridade entre ambos, especialmente se chegarmos a ver nem que seja um semblante dos Illuminati (um grupo formado pelas mentes mais brilhantes da Marvel) nos anos posteriores desse universo cinematográfico, além, é claro, de uma identificação maior entre os dois que os permitirá, mais facilmente, trabalharem juntos contra ameaças como Thanos.

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GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.