Crítica | Doutor Estranho: O Juramento

estrelas 3

Existem alguns heróis que possuem um incontável número de grandes histórias. Batman, Homem Aranha, X-Men são alguns desses personagens que foram muito bem trabalhados durante seus longos anos de vida. Infelizmente, Stephen Strange não faz parte desse seleto grupo de protagonistas. A falta de boas histórias do Mago Supremo é algo a se pensar. Será que as editoras tem medo de investir em personagens de escalão B ou C? É triste ver que a Marvel possuía um excelente personagem para desenvolver, porém optou por continuar a desenvolver seus ovos de ouro.

É obvio que em seus primeiros anos de vida, o personagem foi muito bem trabalhado, nas mãos da dupla Lee e Ditko, o mago supremo fez feitiços nunca antes vistos. Também não era de se esperar o contrário, Stan e Steve ditaram um estilo tanto visual como narrativo que seria seguido até os dias de hoje. Em 2007, a Marvel decidiu atualizar a história de origem do personagem, e para realizar esse difícil feitiço, a editora escolheu Brian K. Vaughan, para o roteiro e Marcos Martín para a arte.

Diferente das histórias de origem que estamos acostumados a ver, O Juramento conta de forma não linear a origem do Mago supremo. Não apenas os fatos são colocados de forma bagunçada durante toda a trama, mas também os conflitos que Steven teve em balancear a ciência e a medicina, com a magia e o sobrenatural.

Na trama, o fiel servo Wong está com um câncer terminal, o amigo decide esconder a doença de Strange, já que o mago possui muitas coisas para se preocupar. Quando o Doutor fica a par da situação, não demora um segundo para ir em busca de uma cura para o amigo. Em sua caçada, ele encontra um elixir que seria capaz de curar não só o câncer de Wong, mas também o câncer de todo o mundo.

A trama tem a participação importante de Enfermeira Noturna, personagem que está sempre transitando nos quadrinhos de heróis da Casa das Ideias. O papel dela humaniza o protagonista, na verdade não só deixa Estranho mais humano, como todo o roteiro de Brian tenta transmitir uma parte mais “normal” do doutor. Vemos o mago ser baleado, e ter uma luta de igual para igual com um homem, que aparentemente não possui nenhum poder.

Mais tarde na trama, somos atropelados por mais um dilema do plot. O elixir não é apenas a cura para o câncer, ele é a solução para toda a doença do mundo. O que Stephen deve fazer? O mago tem que deixar a humanidade seguir seu curso natural, e no futuro encontrar as respostas para esses doenças? Todos esses questionamentos são o grande trunfo do roteiro de Vaughan, o autor mergulha nesses dilemas e faz com que o leitor sinta-se tão confuso quanto o protagonista está.

Se o roteiro brilha no conflito, ele se apaga um pouco nos outros aspectos. Vemos uma narrativa que fica na média, e diálogos que não são nada memoráveis. O conjunto de cinco edições do quadrinho só vai mergulhar em suas qualidades nas duas últimas partes, fazendo com que as três primeiras sejam medíocres. Até os flashbacks, apesar de serem bem colocados, não adicionam um grande peso em toda a narrativa.

A arte de Marcos seria classificada como excelente em qualquer outra história de herói, porém quando se está lidando com Doutor Estranho, exige-se uma arte um pouco mais ousada. O estilo visual do mago criado por Ditko é até hoje o manual de como se desenhar Steven, todos os traços surrealistas dão uma noção do irreal muito mais interessante do que o estilo “pé no chão” utilizado por Marcos. A arte está longe de ser ruim, mas também está distante de ser uma arte característica de Strange. Marcos tem êxito em lidar com o posicionamento dos personagens em cena, e até no estilo das criaturas, mas falha em retratar o abstrato do universo de Estranho.

Willie Schubert é o responsável pelas cores do quadrinho, o colorista cai no mesmo erro do desenho. Vemos cores muito reais e bem trabalhadas na parte real e humana do quadrinho. Todavia, quando o sobrenatural é colocado em cena, as cores ficam muito opacas e sem vida, isso vai contra tudo o que já foi construído para o Doutor, é sabido que o irreal é muito mais vivo e forte do que o real, mas as cores de Willie falham em transmitir isso.

O Juramento é um quadrinho interessante, com dilemas profundos mas mal explorados. Talvez, pela escassez de bons arcos do personagem, essa HQ tenha ganhado tanto louvor, porém, é só olharmos um pouco além do rótulo de boa história, que veremos um quadrinho muito raso, lidando com um personagem muito profundo.

Doutor Estranho: O Juramento (Doctor Strange: The Oath) — EUA, 2006/2007
Roteiro: Brian K. Vaughan
Arte: Marcos Martin
Cores: Willie Schubert
Letras: Javier Rodrigez
Editora original: Marvel Comics
Datas originais de publicação: 2006/2007
Editora no Brasil: Coleção Salvat/ 2014.
Páginas: 136 páginas.

PEDRO CUNHA . . . Com corpo e alma de Hobbit, sou um eterno Padawan e aprendiz. Amigo dos ursos, dos elfos e das águias. Nativo de Krypton e apreciador da sétima, nona e de TODAS as artes. Quando tentado sempre rebato; "sou um Jedi, como meu pai antes de mim".