Crítica | Doutor Estranho (Sem Spoilers)

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Doutor Estranho é um dos heróis mais fascinantes da história da Marvel. De arrogante doutor cético – no pior sentido do termo – a mago supremo da Terra, sua jornada mística é um convite para o típico exagero que só os quadrinhos e o cinema corajoso permitem fazer. Uma gama que vai da psicodelia esotérica de Ditko às etéreas artes de Dan Green é rara de ser vista no mesmo personagem.

Narrativamente, porém, um ícone tão místico é uma brecha para a filosofia mais chinfrim e New Age pular da mente de seus roteiristas. Se visualmente Stephen Stange fascina por si só, é preciso muito esforço e cuidado para enchê-lo do drama que seu rosto sério e suas têmporas grisalhas prometem.

Nos cinemas, em 2016, havia ainda mais um problema. A introdução do herói no UCM era a introdução do lado místico do estúdio, tal como Guardiões trouxera o lado cósmico. A Marvel optou por uma clara diluição das possibilidades infinitas que Doutor Estranho poderia trazer em uma película redonda e prudente, quase covarde e que, certamente, tem lá seus momentos insuportáveis.

Mas a Marvel é a Marvel e Doutor Estranho é Doutor Estranho. Mesmo em um filme aguado, sua poderosa história de origem, se bem contada, enlaça o espectador com facilidade. O diretor Scott Derrickson joga seguro e conta com um casting espetacular – talvez, o melhor de todo o UCM. Benedict Cumberbatch traz a arrogância, a imponência e a sabedoria que Strange sempre exalou nas distintas fases de sua vida, sem nunca perder o charme. Além deste claro acerto, a presença de Tilda Swinton como a Anciã se mostra uma escolha de excelência, capaz de deixar os outros núcleos do filme (ainda) mais desinteressantes do que já são.

São nestes núcleos que o típico filme de origem de super-herói bate na mesa com força. Mads Mikkelsen diminuído à vilão malvado e obcecado é uma tristeza. Rachel McAdams, fazendo o papel da típica namorada do herói, ignorante de toda a vida secreta do amado, mas que vê sua beleza interior, é a Jane Foster da vez – mesmo não sendo a atriz que Portman é, ela consegue ser aquela razão simples que todo fã carregará consigo ao lembrar da falta de vontade de rever o filme, tantos anos depois.

Malvadeza minha seria dizer que Doutor Estranho não ousa. Seu último arco é um dos mais bem resolvidos dentro da mesmice do UCM. Sua apresentação do universo místico, apesar de apressada, cumpre com a missão recebida. Há até brechas para mini reflexões filosóficas entre Strange e a Anciã, sem dúvidas, mas a obra, no geral, se desvela insuficiente ao avançar de sua duração.

É insuficiente nas próprias reflexões que se propõe a fazer. Salvo Strange e, quem sabe em um futuro próximo, o Surfista Prateado, onde a Marvel dará espaço para menos explosão e um pouquinho – só um pouquinho mesmo – de mais diálogo, surrealismo e tragédia? Fiquemos com Legion, é o jeito.

Mas o filme é insuficiente, acima de tudo, visualmente. O jogo espelhado utilizado como carro-chefe das sinistras multi-realidades é de um marasmo monstruoso – um artifício já esgotado em cinco minutos de A Origem, aqui repetido com um cinismo igualmente monstruoso. As magias que restam na memória são apenas os laranjas escudinhos que o Doutor utiliza contra capangas do vilão. Ou seja, desperdício atrás de desperdício. Até a trilha, diria o mais chato, parece ser reciclada por Michael Giacchino dos tempos de Star Trek, com arabescos que apenas flertam com o místico – da mesma forma que o filme.

Mais do que uma reciclagem pobre que se propõe original, o filme desperdiça seus principais acertos – o aprendizado do protagonista em respirar a aura ancestral apresentada – em correrias sem sentido, piadas desnecessárias e uma ansiedade em voltar à cinza realidade terrena. É uma pena ver a belíssima lição de humildade, tema do filme, receber uma forma irregular, covarde e apressada, exceção feita à resolução que permanece sendo uma das minhas favoritas em todo o UCM.

Doutor Estranho não é um filme de gênero nenhum. É apenas um potencial enorme deslizando entre a manteiga da pipoca que o filme se propõe a ser. Não há pecado nisso até porque, mesmo sendo um filme genérico com um forte elenco, pode servir como base para sequências ousadas em horror, tragédia e surrealismo. Sou otimista. Mesmo analisando-o como um filme perto do pífio, fui vê-lo duas vezes na telona e me diverti. Mal posso esperar para Cumberbatch retornar e, torcemos, para um Mefisto bagunçar o ícone que é o Doutor.

Doutor Estranho (Doctor Strange) – EUA, 2016
Direção:
 Scott Derrickson
Roteiro: Jon Spaihts, Scott Derrickson, C. Robert Cargill
Elenco: Benedict Cumberbatch, Chiwetel Ejiofor, Rachel McAdams, Benedict Wong, Mads Mikkelsen, Tilda Swinton, Michael Stuhlbarg, Benjamin Bratt
Duração: 115 min.

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.