Crítica | Doutor Estranho (Sem Spoilers)

estrelas 4,5

Obs: Crítica originalmente publicada dia 26 de outubro de 2016. Leia nosso Entenda Melhor sem spoilers bem aqui.

Obs 2: Leia nossa crítica com spoilers do filme, bem aqui.

Quando Doutor Estranho ainda estava em sua etapa de produção me lembro de ter lido uma notícia que dizia que o filme contaria com uma atmosfera que muito lembraria a série Cosmos. Kevin Feige chegou inclusive a chamar o filme de “uma viagem em ácido de dobrar a mente”. A expectativa logo subiu, criando uma curiosidade imediata. Quando os trailers foram liberados, o que vimos é algo que muito nos lembrava A Origem, de Christopher Nolan – era um mistério o que poderíamos esperar da obra, no que prometia ser o longa-metragem mais diferente da Marvel Studios. Devo dizer que a promessa foi cumprida.

O filme nos apresenta a Stephen Strange (Benedict Cumberbatch), um talentoso neurocirurgião que, acima de tudo, preza sua reputação. Sua competência é acompanhada de uma forte arrogância e um comportamento irônico que nos lembra imediatamente Tony Stark, ainda que Strange conte com uma personalidade própria, não se tratando de mera cópia. Após sofrer um acidente de carro, porém, que danifica gravemente os nervos de suas mãos, ele busca desesperadamente uma forma de se curar e não obtém êxito na medicina tradicional. Como uma forma alternativa, ele viaja para Catmandu, onde ouvira falar de um lugar capaz de reverter os danos em seu corpo. Mas o que ele encontra lá é algo que o levaria ao caminho do misticismo. Sua única alternativa está diretamente ligada à magia.

O roteiro do trio formado por Jon Spaihts, Scott Derrickson e C. Robert Cargill realiza um ótimo trabalho nos familiarizando com Strange. Com cenas pontuais e de bastante significado dentro da narrativa, aprendemos o quanto ele valoriza seu emprego não como uma forma de necessariamente curar os outros, mas de elevar seu status. Acima de tudo, ele preza pela sua imagem, chegando ao ponto de negar alguns pacientes, pois sabe que eles são incuráveis. Cumberbatch não decepciona. Muito pelo contrário, o ator demonstra-se totalmente à vontade no papel e efetivamente enxergamos a pessoa por trás da figura do mago. Sua obsessão em se curar chega a ser palpável, o que facilmente nos convence que sua jornada para o Nepal seria algo que ele efetivamente faria.

Com isso, é gratificante enxergar a gradual evolução do personagem ao longo dos 115 minutos de projeção. Aos poucos vemos como ele aprende no templo da Anciã (Tilda Swinton), que o motiva a seguir esse caminho místico. Não se trata de uma mudança da água para o vinho, como pode ser observado em centenas de filmes por aí. A forma como o texto se preocupa com essa gradação nos lembra fortemente de Homem de Ferro, que também trabalha seu protagonista de forma orgânica. Vale notar que na maior parte da obra não sabemos se Strange está, de fato, realizando tudo aquilo por motivações próprias (para consertar sua mão) ou se quer efetivamente tornar-se um mago. O filme acerta em deixar essa questão em segundo plano e foca na determinação do personagem, com Benedict entregando-se ao papel, que torna todo esse sobrenatural possível.

O que mais nos chama a atenção é a forma como o tom construído se diferencia do restante do Universo Cinematográfico Marvel. Há uma ancestralidade no ar, que remete ao hermetismo de toda a temática da obra, algo garantido pelas melodias de Michael Giacchino, que cria uma sonoridade barroca através do uso constante do cravo. Dessa forma, as locações ganham idade, reforçando o trabalho do design de produção. Quando Stephen se entrega aos livros, sentimos como se ele estivesse diante de algo milenar. O som das cordas ainda se encaixa perfeitamente com a mente analítica do personagem, sua inteligência e seu raciocínio médico.

Toda essa construção de ambiente permite que nós efetivamente acreditemos nas magias que vemos em cena – desde os artefatos, como o Manto da Levitação, até aquelas conjuradas pelos diversos personagens. Evidente que o trabalho de efeitos especiais deve ser mais que elogiado aqui, trazendo-nos representações que ganham uma solidez impressionante. É como se os atores efetivamente conjurassem algo ou segurassem elementos físicos. No caso de armas, eles os fazem e os efeitos se encarregam de transformar esses objetos em magia, mas mesmo os escudos ou portais ganham uma vívida textura, que perfeitamente se encaixa no visual de toda a obra. Naturalmente, a coreografia aqui criada desempenha, também, um papel vital dentro da narrativa e a atuação de todo o elenco principal nos coloca diante de verdadeiros magos materializando seus feitiços do ar – isso acaba se perdendo um pouco, ocasionalmente, através de cortes excessivos nas cenas de ação, o que felizmente é algo pontual que não muito atrapalha nossa percepção da obra como um todo. O 3D cumpre seu papel mais visivelmente nos momentos que vemos os personagens em projeções astrais, criando uma maior profundidade no campo visual.

O vilão, Kaecilius (Mads Mikkelsen), cumpre seu papel. Sentimos desde o princípio que ele é apenas um emissário de algo maior e a tensão criada vem justamente desse outro elemento, mas não ofusca esse antagonista totalmente. Mikkelsen nos entrega uma figura bastante humana e somos convencidos do que ele realmente acredita. Há um peso em sua voz, uma oratória inegável que fortalece seus argumentos, criando um paralelo imediato entre ele e o Strange do início do filme – sabemos que os dois formam os diferentes lados de uma mesma moeda e a possibilidade do protagonista seguir pelo mesmo caminho é uma realidade que contribui para nossa tensão, fortalecendo o clímax do longa, que é resolvido de forma criativa, fugindo dos padrões a que estamos acostumados e aproveitando o bom humor presente nos filmes da Marvel.

Esse tom descontraído, contudo, não toma conta da narrativa única e exclusivamente. Há um equilíbrio bem estabelecido entre o drama, a ação e a comédia, de forma que um complementa o outro. As piadinhas de Strange condizem com sua personalidade sarcástica, mas são pontuais, tornando-se, portanto, mais orgânicas dentro do roteiro e não impactando a atmosfera de tensão criada no longa-metragem. A mistura dessa realidade mágica com a nossa também desempenha o papel de quebrar nossa expectativa constantemente e criam situações engraçadas ao invés de piadas forçadas no espectador. Da mesma forma, esse misticismo nos pega desprevenidos nos momentos mais sérios, com imersivos efeitos que nos lembram caleidoscópios e remetem a mandalas, formando uma mistura homogênea com o que é trabalhado na obra.

Além disso, há uma similaridade bem grande com Guardiões da Galáxia, especialmente no que concerne a existência de um universo maior. Temos a nítida percepção de que novas portas foram abertas nessa extensa mitologia. A viagem em ácido que Feige nos alertara está realmente presente e essa apresentação de Stephen a inúmeras novas possibilidades funciona como uma jornada para nós próprios, uma introdução a diferentes aspectos dos quadrinhos a serem inseridos aqui no Universo Cinematográfico. O que nos surpreende é como tudo efetivamente funciona, com um design visual que se encaixa dentro do que fora estabelecido anteriormente em outras obras, fortalecendo a concepção de algo conjunto. Felizmente, o filme sabe trabalhar com isso sem soar enclausurado, permitindo que se sustente por conta própria.

No fim, sentimos como se Doutor Estranho fosse, de fato, parte de algo muito maior, mas ainda assim ele consegue andar com suas próprias pernas, prendendo toda nossa atenção em uma jornada que muito se diferencia do que fora apresentado anteriormente nos filmes da produtora. Com uma linguagem própria, com escolhas visuais ousadas e “viajantes” aliadas a ótimos efeitos especiais e, é claro, atuações de destaque, temos aqui um dos melhores filmes produzidos pelo estúdio, que certamente justifica todo o hype e curiosidade gerada nos espectadores. As portas da magia foram abertas em grande estilo nesse Universo Cinematográfico.

Doutor Estranho (Doctor Strange) – EUA, 2016
Direção:
 Scott Derrickson
Roteiro: Jon Spaihts, Scott Derrickson, C. Robert Cargill
Elenco: Benedict Cumberbatch, Chiwetel Ejiofor, Rachel McAdams, Benedict Wong, Mads Mikkelsen, Tilda Swinton, Michael Stuhlbarg, Benjamin Bratt
Duração: 115 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.