Crítica | Doutor Estranho: Shamballa

estrelas 5,0

doutor_estranho_shamballa_capa_plano_criticoPublicada originalmente na sensacional e saudosa coleção Marvel Graphic Novels que começou em 1982 com A Morte do Capitão Marvel e terminou no 39º número, em 1988, com Os Inumanos e que foi quase toda ela publicada no Brasil, Doutor Estranho: Shamballa é uma belíssima história que encapsula a essência do personagem ao mesmo tempo que propõe discussões morais interessantíssimas. Mas aqueles que esperam ação sairão frustrados da experiência, já que o trabalho de J. M. DeMatteis e Dan Green é contemplativo e filosófico em sua essência, com pouca ou nenhuma preocupação em popular as páginas com magos lançando feitiços um contra o outro.

A proposta é simples e a pergunta vale para todos: se você tivesse a possibilidade de levar a Humanidade para uma Era de Ouro tendo que primeiro livrar-se de 2/3 da população da Terra, que escolha faria? Fome, miséria, tragédias, guerras, violência e outros males que constantemente vemos dariam lugar a uma utopia, um paraíso de prosperidade para todos. Sim, o preço a ser pago é gigantesco, mas, pensando a longo prazo, não seria algo que talvez faça sentido para justamente salvar a Humanidade, que parece estar indo de mal a pior? Essas são as perguntas que caem no colo do Doutor Estranho quando ele visita as ruínas do templo de seu mestre, o Ancião, há anos falecido. Recebendo um presente de Hamir, o Eremita, que entrega a Estranho a pedido do Ancião, o herói embarca em uma jornada íntima depois que recebe a proposta da Era de Ouro dos Lordes de Shamballa.

A graphic novel não tem diálogos. Ou, pelo menos, não tem diálogos como nos acostumamos em quadrinhos. Nada de balões de fala. Em seu lugar, apenas narrativa, como se estivéssemos ora no papel de um narrador externo, ora na mente de Estranho, permitindo-nos primeiro um quadro riquíssimo de informações sem que elas pareçam intrusivas e, em segundo lugar, um magnífico espaço em que a arte de Dan Green pode brilhar sem ser tolhida por letras e palavras ocupando o espaço de sua narrativa visual.

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A escolha é arriscada, pois o texto poderia ficar maçante. Mas DeMatteis (A Última Caçada de Kraven e Moonshadow) sabe de suas limitações espaciais e narrativas e trabalha com elas em um texto econômico e poético que foge do didatismo e da repetição. Ler Shamballa é perceber o cuidado em usar elementos místicos do nosso mundo real (a própria Shamballa, mas também as Linhas Ley e diversos deuses de culturas diferentes) e costurá-los à narrativa fictícia sem que percebemos onde uma coisa acaba e outra começa. E seu trabalho é ritmado, quase como se estivéssemos lendo um intrincado poema que transporta Estranho do Himalaia para o México, para a Índia, para a Inglaterra e de volta ao Himalaia em um roteiro circular e lógico que diz a que veio sem nos dar respostas fáceis.

A ação abre espaço para perguntas e indagações. A pancadaria cede para embates verbais e revelações. As frases de efeito e o vocabulário rebuscado, tão característicos do Doutor Estranho transformam-se em quase cânticos milenares entoando um encantamento novo a cada página. Ler Shamballa é entrar no mundo místico do protagonista como nenhuma outra série em quadrinhos do Mago Supremo jamais permitiu. É um momento para parar e contemplar. Para sentar na posição de flor de lótus e realmente embarcar em uma jornada de auto-descoberta.

Mas o texto de DeMatteis não seria suficiente para essa imersão se não viesse acompanhado da magnífica arte de Dan Green, toda pintada em estilo quase impressionista pelo artista e tomada de splash pages de tirar o fôlego. Nesse quesito, novamente, o foco não é na ação, mas sim na observação. Shamballa é uma graphic novel que é tanto para ser lida como para ser apenas admirada. Cada página poderia muito facilmente ser enquadrada e pendurada na parede como uma obra em si mesma. Usando paleta de cores azulada, com poucas cores fortes, mas um traço fluido e etéreo, Green cria o perfeito veículo para o texto transcendental de DeMatteis, em um conjunto único e de se tirar o chapéu.

Doutor Estranho: Shaballa não é uma típica obra em quadrinhos. É bem mais do que isso. É arte na mais pura acepção da palavra. Uma obra atemporal e imperdível.

Doutor Estranho: Shamballa (Doctor Strange: Into Shamballa, EUA – 1986)
Roteiro: J. M. DeMatteis
Arte: Dan Green
Letras: Ken Bruzenak
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: janeiro de 1986
Editoras no Brasil: Editora Abril e Panini Comics
Datas de publicação no Brasil: novembro de 1989 (Editora Abril – Coleção Marvel Graphic Novel #17), novembro de 2016 (Panini Comics)
Páginas: 62

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.