Crítica | Doutor Estranho: Uma Terra Sem Nome, Um Tempo Sem Fim (Strange Tales #130 a 146)

estrelas 3,5

strange_tales_130_capa_plano_criticoDepois que apareceu pela primeira vez em Strange Tales #110, de julho de 1963, o Doutor Estranho reapareceu no número seguinte e, depois, a partir da edição #114, ininterruptamente até quando a revista teve seu título alterado no #159 para Doutor Estranho, mantendo a numeração por mais 15 edições. Todas as suas aparições em Strange Tales, porém, interessantemente, foram na segunda – e menor – história da publicação, que primeiro tinha como atração principal o Tocha Humana e, depois, Nick Fury.

Depois de um começo claudicante em termos narrativos, as historietas do Mago Supremo da Marvel lentamente passaram a ganhar mais corpo, ainda que os roteiros de Stan Lee, que nunca foi lá um grande escritor, não tenham tenham alcançado um nível fora do comum. A repetição de tramas e de desfechos chega a ser cansativa. O que, porém, sempre se destacou foi a arte de Steve Ditko, essa sim, às claras vistas ganhando maior liberdade e confiança, até alcançar o famoso e longo arco de 17 números iniciado na edição #130 (que tem como história principal o encontro do Tocha Humana e do Coisa com os Beatles – sim, o grupo britânico!) e encerrando-se na #146 lidando com a tentativa de vingança de Dormammu, que aparecera pela primeira vez na edição #127, usando como peão o Barão Mordo, eterno arqui-vilão do herói.

Mega arcos desse tamanho ainda era raros nos anos 60, que contavam principalmente com histórias auto-contidas ou em pequenos arcos de dois ou três números. Portanto, manter uma história viva por 17 meses seguidos foi uma tarefa hercúlea e arriscada empreendida por Lee e Ditko, com os números finais (#142 a #146 escritos por Roy Thomas), o que por si só torna o arco interessante para os leitores interessados no início das grandes sagas ou arcos narrativos.

Como mencionado, a grande força motriz da história é o desejo de vingança do demônio extra-dimensional Dormammu, depois que foi derrotado pelo Doutor Estranho. Manobrando a raiva que o Barão Mordo sente por Estranho, Dormammu, de sua dimensão, aumenta os poderes de Mordo que, então, empreende uma monumental caçada mundial ao Doutor Estranho e ao Ancião. Pegos de surpresa, o Ancião é atingido e deixado em coma, fazendo com que Estranho fuja com seu corpo desfalecido e o esconda em uma caverna aos cuidados de um dos devotos servos do mestre (que depois ganharia o nome Hamir, o Ermitão). Livre do ônus de cuidar do Ancião, Estranho então foge incognito por Hong Kong e depois Nova York, sempre com Mordo e seus minions (dentre eles Kaecillius, que permanece sem ser nomeado até o final) ao seu encalço.

Em termos narrativos, a fuga incessante de Estranho de um extremamente poderoso Mordo é cansativa demais. Mesmo com apenas oito ou nove páginas por edição, Stan Lee não tem para onde fugir e acaba dando voltas e mais voltas, repetindo expedientes e artifícios incessantemente, sempre com Estranho escapando no último minuto. Há momentos inspirados, como quando o mago usa seu manto da levitação para capturar vilões e capturar armaduras medievais como forma de engodo ou os primeiros embates mágicos entre ele e um Kaecillius controlado por Mordo. Mas a estrutura formulaica que Lee imprime a narrativa torna a leitura lenta e difícil.

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O que realmente desponta é a arte de Steve Ditko, então no começo de sua prolífica carreira. O trabalho do desenhista é meticuloso e detalhista, trabalhando com o mesmo vigor as cenas de ação e as sequências com diálogos interiores expositivos (marca irritante do trabalho de Lee). Seu Doutor Estranho, já na forma final e bem diferente da que vemos em Strange Tales #110 é portentoso e imponente, ainda que longe de ter a confiança que ganharia na década seguinte e, mais tarde, como parte dos Illuminati.

Quando Stan Lee se arrisca e eleva o nível da narrativa para abordar também eventos na dimensão de Dormammu, com (ainda sem nome) Clea ajudando Estranho e, depois, uma magnífica viagem interdimensional que leva o herói a encontrar-se com a entidade Eternidade, uma das mais estranhas e poderosas do Universo Marvel, é que a leitura realmente ganha ritmo e relevo, com Ditko explorando sua habilidade de criar desenhos até hoje imbatíveis das várias dimensões visitadas, da Eternidade e dezenas de outros personagens que encapsulam com perfeição o movimento de contracultura hippie e beatnik dos anos 60 (o único desenhista da Marvel a “empatar” com Ditko nesse quesito foi Jim Steranko). As famosas imagens lisérgicas de Doutor Estranho estão todas nesse grande arco que marcaria para sempre o “estilo” das histórias futuras do Mago Supremo da editora.

A grande verdade, porém, é que Lee não sabe quando parar e, depois de colocar Mordo contra Estranho várias vezes, ele finalmente, na edição #141, cria uma arena em outra dimensão para colocar Dormammu contra Estranho em uma luta sem mágica, apenas com “tenazes do poder” sugeridas pelo próprio demônio em um daqueles momentos vaidosos típicos dos vilões de filmes do 007. Mesmo saindo vitorioso (alguma dúvida?), a história não acaba e os números seguintes colocam Estranho lidando com outros seres mágicos sem nome (é interessante como vários personagens ganharam nomes somente depois, como Adria, que aparece pela primeira vez na edição #141) e fazendo uma busca incessante por Clea, que Dormammu mandara para uma dimensão perdida.

strange_tales_146_plano_criticoCom isso, o dénouement do arco é longo e arrastado demais, repisando os mesmos exatos artifícios que Lee usara. É que, a partir desse ponto, o roteirista muda e Roy Thomas e Dennis O’Neil entram na publicação, mas seus trabalhos não são muito diferentes dos de Lee, ainda que de certa forma mais ágeis e econômicos nas explicações. No entanto, novamente, Ditko tem espaço para soltar sua imaginação, com a criação de dimensões e habitantes dessas dimensões que prendem a atenção do leitor. A “viagem lisérgica” também continua, com o clímax ocorrendo com o novo encontro de Estranho com a Eternidade, na clássica edição que fecha o arco.

Uma Terra Sem Nome, Um Tempo Sem Fim é um interessante, ousado, mas falho arco do Doutor Estranho. No entanto, ao mesmo tempo ele é definidor do tipo de histórias que passariam a fazer parte da mitologia do herói, sendo, portanto, leitura obrigatória para quem se interessar pelo personagem.

Doutor Estranho: Uma Terra Sem Nome, Um Tempo Sem Fim (Strange Tales #130 – 146, EUA – 1965/6)
Roteiro: Stan Lee (#130 a #141), Roy Thomas (#142 a #144), Denis O’Neil (#145 e #146)
Arte: Steve Ditko
Letras: Artie Simek, Sam Rosen
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: março de 1965 a julho de 1966 (histórias secundárias em Strange Tales)
Editora no Brasil: Editora Salvat
Data de publicação no Brasil: fevereiro de 2016 (encadernado)
Páginas: 140 (aprox. 8 páginas por edição)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.