Crítica | Downhill

estrelas 3

Downhill foi um dos últimos dois filmes que Alfred Hitchcock dirigiu para a Gainsborough Pictures. Ele marca a volta de Ivor Novello para um trabalho em parceria com o diretor, depois do sucesso obtido com O Inquilino (1926).

O roteiro do filme é baseado em uma peça do próprio Novello e de Constance Collier, e conta a história de um jovem estudante que é falsamente acusado por uma garota (falaremos da acusação um pouco mais adiante) e expulso do Colégio onde estuda. A partir desse momento dá-se início ao declínio financeiro e psicológico do personagem, uma jornada bastante pessimista na qual se centra todo o desenvolvimento da obra.

O início da película nos traz uma bela sequência de planos de filmagem, apresentando Roddy (Ivor Novello) de maneira dramaticamente interessante. Essa valorização do personagem logo nos primeiros minutos é importante para criar o contraste com o tipo de pessoa e a situação na qual ele vai se ver em algum tempo.

Todavia, a boa apresentação inicial se torna confusa à medida que vemos a chegada de novos personagens em cena. Como há um número bem pequeno de intertítulos, fica difícil para o espectador estabelecer relações imediatas entre cada um dos atores e seus papeis, gerando algumas confusões fisionômicas (não tão grandes quanto as que tivemos em The Pleasure Garden, mas mesmo assim…) e ainda complicações no que diz respeito aos motivos do roteiro. Embora não seja uma história complexa, o verdadeiro delito de Roddy nunca é totalmente entendido, principalmente se compararmos o que o diretor disse em entrevistas sobre o filme e o que vemos na tela. Tecnicamente falando, Roddy roubou algum dinheiro do caixa de uma loja, a loja da garota que o convidou para ficarem “sozinhos” no estabelecimento, uma certa tarde. Uma outra indicação possível – não vista na tela, apenas sugerida – é que Roddy a tenha engravidado.

O problema é que o rapaz não estava sozinho nesse jogo, e o verdadeiro culpado do delito (seja este o roubo ou a gravidez da garota), é Tim, um colega de quarto com quem Roddy tem uma grande amizade. Esse ponto do roteiro carrega uma característica difícil de ser interpretada, porque temos poucos detalhes sobre a amizade entre os jovens e pequeno é o tempo em que os vemos em cena, logo, o sacrifício que Roddy faz ao não denunciar o verdadeiro culpado parece forçado para o público, principalmente se levarmos em consideração a despedida fria entre os dois e o desaparecimento completo de Tim durante todo o restante do filme, exceto por uma carta enviada ao antigo amigo, muito tempo depois.

Há um artigo de Mark Duguid, curador do British Film Institute, que me fez pensar na possibilidade de uma relação homossexual entre os jovens, ou pelo menos ser esta a orientação de Roddy, o que poderia justificar mais facilmente a postura silenciosa do moço em relação ao erro do amigo – o que, convenhamos, não seria nada demais se ele não tivesse que passar grandes tormentos devido a essa atitude.

Um outro ponto a ser destacado e que complementa a colocação anterior é o modo como as mulheres são tratadas no filme. Exceto a mãe de Roddy e a negra que de certo modo cuida dele, a presença feminina no filme é praticamente a representação de um Exército de Harpias, sempre prontas para se aproveitar e acabar com a vida de qualquer homem que tenha dinheiro. Não seria exagero se disséssemos que o roteiro deu uma característica misógina ao filme.

Mais uma vez comprovamos a opção de Hitchcock por fazer experimentos estéticos, e aqui ele se sai muito melhor do que em seu primeiro filme, e segue numa linha bem parecida com suas manipulações de imagem em O Inquilino. Todo o peso dessa manipulação está na perturbação psíquica de Roddy, onde podemos ver de tudo, desde alteração do foco, mixagem de planos, fusão de imagens e truques de montagem. Soma-se a isso uma série de alegorias utilizadas pelo diretor para firmar a ideia de decadência do rapaz, como se víssemos os momentos exatos em que a roda da fortuna o derrubava de seu posto. Esses momentos são representados pelo personagem descendo escadas, e toda vez que isso acontece, algo ainda mais triste acontece a ele em seguida.

Ivor Novello é simplesmente fantástico em sua atuação. Desde o estudante elogiado e feliz até o enlouquecido jovem abandonado e sem perspectivas, temos uma interpretação muito convincente do ator, que não padece de maneirismos em frente a tela e consegue adequar muito bem cada expressão facial e movimentos do corpo a momentos distintos da trama. Infelizmente o seu texto reserva um final pouco interessante para o personagem, algo que é ainda mais intensificado pela dificuldade de Hitchcock em finalizar suas obras nesse início de carreira, deixando sutis falhas nas explicações e trazendo fracos elementos conclusivos.

Downhill é uma história pessimista sobre um jovem que sofre sérias consequências por algo que não fez. O tema apareceria outras vezes na filmografia de Hitchcock, sempre pontuado pela decadência do personagem que recebe a acusação. Há diversos elementos nesse filme que fariam parte da cartilha do diretor nos anos seguintes, além de cenas que ele nos “mostraria novamente”, como o momento e que Julia vê Roddy entrando na sala: de seu ponto de vista, ele aparece na tela de ponta cabeça, exatamente o mesmo ângulo em que vemos Cary Grant do ponto de vista de Ingrid Bergman, em Interlúdio (1946).

Downhill não foi muito bem recebido pela crítica e nem pelo público. Talvez quisessem algo na linha de O Inquilino ou talvez este não fosse o tipo de filme que esperavam ver assinado por Hitchcock, algo que o diretor teve de se acostumar ao longo dos anos, e em dado momento de sua carreira, constatar a figura que faziam dele e de sua obra: “Sou um diretor estereotipado. Se eu fizesse Cinderella, o público estaria imediatamente procurando por um corpo na carruagem. “.

Downhill – UK, 1927
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Eliot Stanard, baseado na peça de Constance Collider e Ivor Novelo
Elenco: Ivor Novello, Ben Webster, Norman McKinnel, Robin Irvine, Jerrold Robertshaw, Sybil Rhoda, Annette Benson, Lilian Braithwaite, Isabel Jeans
Duração: 80 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.