Crítica | Downton Abbey – 1ª Temporada

estrelas 5

A tragédia do naufrágio do Titanic molda o cenário de incertezas causadas pelas tradições em que a família Crawley está inserida. O fato histórico serve como premissa para o desvelar da trama baseada na questão da herança machista da aristocracia inglesa, passada para o homem com parentesco mais próximo e jamais para uma mulher. Contudo, a propriedade Downton Abbey, é habitada e administrada com a ajuda de empregados, como era regra à época. A hierarquia é o que equipara de certa forma os papéis nesses dois mundos, o acima da escada da cozinha e o abaixo dela.

É de imensa curiosidade antropológica percorrer os avanços sociais e econômicos mundiais a partir do retrato dessa família e seus criados. Existem muitos personagens e muitas histórias pessoais e compartilhadas, o que oferece vários caminhos para a progressão roteiro. É uma concepção de um núcleo, uma amostragem que pode muito bem fazer referência à sociedade em geral. O interessante é notar a devoção por parte de alguns membros da criadagem como Carson, que embora muito atento e rigoroso ao decoro exigido por sua função de mordomo tem grande afeto pela família e sente responsabilidade em prezar pelo bom funcionamento desse lugar que ele também chama de lar.

O relacionamento com os serviçais se estreita com a filha mais nova, Sibyl, que se apaixona pelo motorista comunista. Essa aproximação sugere a discussão de igualdade social e a quebra de padrões impostos pela sociedade, que são reavaliados. Até então, a realidade feminina se restringia à espera de uma proposta de casamento bem sucedida e apropriada, sem possibilidade de voto ou qualquer papel que simulasse uma responsabilidade social além das dependências da casa.

Apesar dessa posição, as personagens femininas são encarnadas com muita determinação e oferecem lampejos de desejo por independência e oportunidades novas dentro do cenário urbano profissional. Para auxiliar no desenvolvimento e na desenvoltura da história que as paredes escutam em Downton Abbey, existem personagens chave que descrevem o pensamento de então e traçam uma reflexão social. A Condessa Matriarca, Violet, personifica os antigos costumes, o estilo de vida baseado nas aparências e poucas verdades ditas em voz alta com muita sutileza, tudo de acordo com a etiqueta aristocrática.

Matthew, o herdeiro, é um advogado liberal que se incomoda com a dinâmica com os serviçais e tem ideias irreverentes. Uma cena tocante é quando ele finalmente percebe que aquele modo de vida que ele critica têm validade factível na vida das pessoas que partilham desses hábitos e que, existe uma real necessidade de manter certas situações porque isso demonstra a responsabilidade para com as pessoas que dependem da propriedade de Downton Abbey.

Mais do que apenas uma observação de costumes e desmandos, essa série traz para nosso conhecimento a primeira vez que se utilizou a luz elétrica na casa. São fatos corriqueiros, mas fantásticos para entender as transformações sociais e psicológicas das pessoas da época. Imaginar como as pessoas lidavam com essas novidades ultra modernas que para nós constitui o básico do cotidiano, tanto que não é possível ter uma real compreensão do que se aprecia hoje, de tanto que estamos com olhos fatigados de inovações e reproduções. É preciso perguntar o que de fato e como essas novidades potencializaram o presente estágio de comportamento humano.

O que são finais de semana?! Para um aristocrata trabalho não existe. Então dias de folga não fazem sentido. Essa frase dita por Violet resume bem a questão de contraste entre uma maneira obsoleta de ver a vida e outra em arranjo mais próximo da realidade de hoje. A constituição de organização social e trabalhista começa a ganhar um sentido que contradiz o modelo vigente de sociedade. Os romances e segredos de cada personagem, seja ele aristocrata ou empregado, vão preenchendo e amarrando a história somando-se às coisas a serem observadas nessa série aclamada pelo público.

Downton Abbey – 1ª temporada (2010)
Criador: Julian Fellowes
Roteiro: Shelagh Stevenson, Tina Pepler
Direção: Brian Percival, Ben Bolt, Brian Kelly
Elenco: Maggie Smith, Hugh Bonneville, Elizabeth McGovern, Dan Stevens, Jessica Brown-Findlay, Laura Carmichael, Jim Carter, Brendan Coyle, Lesley Nicol, Sophie McShera, Siobhan Finneran, Michelle Dockery, Rob James-Collier, Phyllis Logan, Joanne Froggatt
Duração: 65 min. (cada episódio)

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.