Crítica | Drácula: A História Nunca Contada

estrelas 2

Depois que a Marvel deu início ao seu Universo Cinematográfico e atingiu um sucesso exorbitante e inesperado, era de se esperar que mil e um estúdios passassem a copiar esse modelo. Começamos pelo óbvio: DC junto da Warner e Sony com o Aranha e seus spin-offs. O que ninguém esperava, contudo, é que a Universal tentaria fazer o mesmo com seus famosos monstros.

Frankenstrein: Entre Anjos e Demônios sorrateiramente abriu 2014 para esse possível projeto e com Drácula: A História Nunca Contada temos, de fato, o capítulo decisivo desse reboot das criaturas que fizeram sua fama lá na década de 1930. E quem melhor que o rei dos monstros para cumprir esse papel?

Sob a batuta de Gary Shore, diretor estreante nos longa-metragens, o filme busca nos contar a origem do vampiro, colocando-o como Vlad Tepes, o Empalador, que, ironicamente, não serviu de base para Bram Stoker, que somente o utilizou para cunhar o nome Dracula. Nesta nova produção, Vlad (Luke Evans) forçadamente serviu o império Turco-Otomano em sua juventude, ganhando o título de Empalador. No fim de seu tempo de servidão ele retornou à sua morada na Transylvania, onde reinou por anos e anos, até a chegada de uma nova força expedicionária turca. Esta requisitou que seu filho, junto de mais duas mil crianças, fosse enviado ao império para que servisse como janízaro. Negando-se a entregar os jovens, o príncipe entra em guerra e, com as chances totalmente contra seu favor, decide procurar uma criatura estranha que habita uma caverna ali perto. Dito isso, o Empalador faz um acordo com esse vampiro primordial, interpretado por ninguém menos que Charles Dance, e ganha seus poderes vampirescos.

A trama, a partir de tal momento, atua em contagem regressiva: Tepes não pode beber sangue humano ou essa sua nova condição será mantida para sempre. O que vemos, então, é uma luta não só contra os invasores, mas contra sua própria vontade. Esse conflito interno, felizmente, não gasta muito tempo de tela e acaba gerando algumas cenas interessantes que colocam o protagonista diante da aceitação de seus súditos, rapidamente nos lembrando das velhas obras, onde perseguem o monstro com fogo, foices e enxadas.

Drácula: A História não Contada, porém, tem dificuldade em cativar o seu espectador, ao passo que o único personagem realmente construído é o próprio Vlad. Não poderíamos não nos importar menos com o destino de seu reino, o que acaba tirando todo o propósito de sua luta e seu sacrifício. Para piorar, o protagonista ainda é colocado como uma boa pessoa e mesmo sua fama sanguinolenta é tida como uma forma de evitar mais mortes durante a guerra. Homens temem monstros é o slogan repetido diversas vezes durante a projeção e o filme tenta nos passar a ideia de que Dracula construiu a cerca de si mesmo a imagem de monstro, embora, de fato, não o seja. Com isso, nossa credibilidade cai ainda mais.

Portanto, sem um motivo pelo que torcer e personagens com quem possamos nos identificar, a obra se limita a uma experiência visual, repleta de efeitos especiais que buscam representar os poderes do vampiro. Neste ponto, o protagonista se torna nada menos que um verdadeiro super-herói, podendo voar e controlar uma horda de morcegos livremente. São cenas exageradas, forçadas que não fazem uso de nada senão do CGI. Estas já podem ser conferidas nos próprios trailers para terem uma ideia melhor.

A trilha sonora, que deveria acompanhar tais cenas no qual o teor épico foi almejado, soa apagada e não nos traz sequer uma melodia memorável. Ela cai na mesmice de um filme de ação qualquer, juntamente da fotografia e da montagem, que, em nenhum ponto chamam a atenção – utiliza-se um registro clássico que não incomoda, mas que poderia vir munido de uma maior criatividade.

Essa é a característica que permanece em nossa mente após o término da projeção: falta de criatividade. Drácula: A História Nunca Contada não oferece nada de novo, não consegue nos cativar e acaba soando como apenas mais um filme de ação. É um verdadeiro desserviço à obra de Stoker e às suas clássicas adaptações. No fim, não consegue nos passar nem o notável medo sentido em Nosferatu ou construir personagens memoráveis como em Drácula de Bram Stoker. É um filme apagado, dispensável, que, por pouco, diverte.

Definitivamente não é digno de iniciar um suposto Universo Cinematográfico.

Drácula: A História Nunca Contada (Dracula Untold – EUA, 2014)
Direção:
 Gary Shore
Roteiro: Matt Sazama, Burk Sharpless
Elenco: Luke Evans, Dominic Cooper, Sarah Gadon, Art Parkinson, Charles Dance, Diarmaid Murtagh, Paul Kaye, William Houston
Duração: 92 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.