Crítica | Dragão Vermelho

estrelas 4

Nossas cicatrizes tem o poder de nos lembrar que o passado foi real.
Hannibal Lecter em carta para Will Graham

Nada de Ridley Scott ou Jonathan Demme. O diretor da vez era Brett Ratner. Dragão Vermelho chegou aos cinemas como o fechamento da trilogia Hannibal. Ao longo dos seus 115 minutos de duração, o enredo consegue prender a nossa atenção, mas a sensação é de que “já vimos tudo isso antes… e melhor”.

Desta vez, o enredo foca em Will Graham (Edward Norton, ótimo), um agente do FBI que por quase morreu nas mãos de Hannibal Lecter (Anthony Hopkins). Após se salvar, consegue mandar o psicopata para a prisão. Refugia-se com a esposa (Marie-Louise Parker, uma ótima atriz que deveria fazer mais filmes) e o filho para uma região distante do ocorrido, mas logo é chamado para resolver um caso. Inicialmente reticente, sensibiliza-se com a causa: famílias estão no alvo de um engenhoso assassino.

Will precisa de informações sobre o assassino. Para isso, precisará conversar com Hannibal na prisão (antes de Clarice, pois o filme é um prequel de O Silêncio dos Inocentes). Porém, ao passo que o caso começa a ser solucionado, a sua vida entra em perigo, haja vista que Hannibal também arruma uma forma de passar informações pessoais do policial para o “Fada dos Dentes”.

Dragão Vermelho nos remete as duas pinturas de William Blake, realizadas entre 1805 e 1810, uma série de ilustrações para a Bíblia, feitas por encomenda. Utilizadas para interpretação do Apocalipse, exatamente no capítulo 12, versículo 3. O grande dragão vermelho e a mulher vestida no sol são fundidas no livro de Thomas Harris, base para o roteiro de Ted Tally, responsável por roteirizar o primeiro filme da trilogia.

O elenco está extraordinário: Harvey Keitel, Philipe Seymour Hoffman e Emily Watson conseguem dar suporte aos diálogos de Edward Norton, que por sua vez, segura bem a entonação e a atuação com Anthony Hopkins, um mestre da performance. Ralph Fiennes dá um show de interpretação como o inquieto “Fada dos Dentes”.

O assassino agora não pensa no estilo Ed Gein de customizar roupas com peles. O criminoso da vez morde as suas vítimas utilizando a dentadura da avó, uma senhora já falecida, castradora e item maléfico na formação do caráter do rapaz, perturbado pela presença da mulher que insiste em aparecer nos seus momentos de alucinação. Um ponto interessante do roteiro é pensar que assim como no primeiro filme, Dragão Vermelho opta por deixar o excesso e a obviedade de lado, nos apresentando a avó através de um excelente trabalho de som, sem os flashbacks que explicam demais as coisas.

Antes de matar, porém, o assassino tem o hábito de dizimar os animais de estimação das famílias, além de colocar pedaços de espelhos nos olhos das vítimas, na intenção de que pareçam vivas. Tudo muito ritualístico e macabro, oriundo de uma mente perturbada. Um dos pontos de virada é o símbolo chinês que nos remete ao Dragão vermelho, deixado na árvore de uma das famílias assassinadas, fruto de um assassino que se orgulha do que faz.

Por sinal, é impossível (para quem já leu) não relacionar a trama com o que Freud nos fala sobre a renúncia dos instintos no elucidativo O Mal Estar da Civilização, texto publicado em 1939 e ainda muito atual. Para o psicanalista, a negação dos instintos está na essência do processo civilizatório. Em suma, ao trazer Freud para esta reflexão, penso que o psicopata não se insere no viés social porque há fronteiras que o impede de realizar os seus atos. A civilização, como nos coloca o pai da psicanálise, é erguida sob a renúncia dos instintos mais profundos. Apesar de tentar conter-se e vigiar-se a todo instante, o assassino acaba cedendo a esses instintos, pois dialogam mais forte no embate entre as vozes que habitam a sua labiríntica mente.

A direção de fotografia ficou por conta de Dante Spinotti, eficiente nas escolhas que vemos na tela, bem como a trilha segura de Danny Elfman, um profissional de renome na indústria. A construção do personagem de Fiennes é outro ponto alto. Instaura-se a figura do grotesco, ou seja, uma imagem que conserva uma identificação original, através do que conhecemos como monstruosidade e do horrível, categorias consideradas distantes do que se convencionou intitular de estética clássica. O Fada dos Dentes não causa a ojeriza de Mason, o desfigurado personagem de Gary Oldman em Hannibal, mas faz manifestar sensações como o medo e a impotência diante da sua força e dimensão corporal, bem como o “modus operandi” dos atos criminosos.

Dragão Vermelho está longe de ser um filme mediano, mas por ter seus antecedentes, as ligações são inevitáveis. Este bom filme consegue manter-se, em boa parte, pela força do primeiro, pelo percurso do personagem Hannibal, icônico, na história do cinema recente, por isso, não causa o mesmo impacto. Parece uma versão masculina dos conflitos de Clarice Sterling, salva as suas devidas proporções. Enquanto a investigadora astuta possui as suas cicatrizes ligadas ao sentimental, o personagem de Norton carrega marcas físicas. Buffalo Bill foi trocado pelo aterrorizante Fada dos Dentes, talvez até mais complexo e assustador, mas há no ar um sentimento de “queremos ganhar mais dinheiro com a saga de Hannibal Lecter”.

Conseguiram sair ilesos, haja vista que o espectador pode esperar um bom filme, seguro, coeso, claro, sempre evitando comparações com os anteriores. Esse é um caminho para Dragão Vermelho. Há uma versão produzida em 1986, sem muito prestígio. Aos curiosos, vale a pena fazer uma pesquisa. O filme aborda na seara sociológica questões como a interferência da mídia na resolução de casos policiais (e o personagem Freddy Lounds paga um alto preço pela intromissão no lugar e na hora errada) e também a questão do abandono social (o assassino é fruto do abandono da mãe e dos maus tratos da avó). Um filme que merece ser revisitado, mesmo que não tenha o brilhantismo do primeiro e a ironia entre a cultura erudita e o excesso do segundo, mas consegue fechar a trilogia com dignidade, agilidade e qualidade.

Dragão Vermelho (Red Dragon, EUA – 2003)
Direção: Brett Ratner
Roteiro: Ted Tally
Elenco: Edward Norton, Anthony Hopkins, Marie-Louise Parker, Emily Watson, Philip Seymour Hoffman, Ralph Fiennes, Harvey Keitel, Anthony Heald.
Duração: 115 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.