Crítica | Dragon Age: Origins / Awakening

estrelas 4

O mundo de Dragon Age: Origins é o típico mundo de fantasia medieval. Homens, anões, elfos, magos, ladinos, orcs (darkspawns), lobisomens, dragões…tem de tudo um pouco e as opções são inúmeras para caracterizar o próprio personagem, o que dá ao primeiro jogo da franquia uma posição de destaque no rol dos games desse gênero.

A Bioware sabia o que estava fazendo. Famosa por outros rpgs como Baldur’s Gate, Knights Of The Old Republic e, mais recentemente, Mass Effect, a empresa desenvolveu em Dragon Age um cenário rico em enredo e em possibilidades. A imersão do jogador na história acontece pelo esmero na colocação de detalhes, como livros e diálogos com NPCs que mostram acontecimentos passados e as visões dos personagens sobre as guerras de tempos antigos.

Como todo bom rpg, os laços criados entre o jogador e o protagonista tornam-se efetivos. Desde o início, dependendo da classe que se escolher – homem, elfo ou anão –  e da habilidade – guerreiro, mago ou ladino – a história começa de um lugar diferente. As árvores de skill dão uma grande margem para o jogador personalizar seus personagens do modo que quiser. Não se trata, porém, de um Kingdoms Of Amalur: Reckoning, onde é possível mudar a classe do protagonista a qualquer tempo.

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Um dos pontos altos do jogo é a especialidade da Bioware: a equipe do herói. Ao longo da jornada é possível juntar ao grupo inúmeros NPCs, que se mostram amigos valorosos e fortes nas batalhas mais complicadas. A dificuldade do jogo, aliás, permite, nas duas mais altas, o fogo-amigo, o que traz mais complexidade à experiência, caso o jogador fique habilidoso em seu gameplay.

Inúmeros personagens possuem histórias de background interessantes e as escolhas nos diálogos refletem na afetividade do herói com seus companheiros. É possível perceber os níveis de amizade, que podem até se transformar em paixão em alguns casos, pela simples escolha de palavras. Do mesmo modo, deve-se escolher com cuidado os três membros que o acompanharão em uma quest, pois outros podem não ver tais decisões com bons olhos. Há intrigas entre os membros da party, e resolver as coisas politicamente, para manter seus companheiros fiéis a você, traz um caráter de relevância às escolhas feitas pelo jogador no game.

Administrar essa pequena política é tão legal quanto administrar as habilidades que o jogo dá. Os talentos de um ladino permitem, por exemplo, o abuso da arqueria e do combate com duas armas. As magias, por sua vez, vão ficando cada vez mais poderosas e acompanham a escala da própria história principal do jogo. Bonitas visualmente, elas também empolgam o jogador ao ponto de evitar qualquer enjoo que possa existir, já que as divertidas batalhas são repetitivas. Equipar os membros da equipe e bolar estratégias de combate também são opções bem-vindas que dão ao game uma variável interessante.

O jogo, porém, é pouco inovador. Sem dúvida segue um roteiro de sucesso para um rpg, mas as partes de falatório podem ficar um pouco desequilibradas em relação aos combates. Como bom rpg, deve ser aproveitado não de forma casual, pois os envolvimentos com Morrigan, Alistair, Jowan e Leliana, requerem um bom tempo de gameplay para se aproveitar ao máximo a experiência.

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Dois aspectos podem dificultar um pouco ao jogador que pegar o game hoje em dia: os gráficos e os locais. Por ser de 2009, DAO não possui o melhor gráfico do mundo, ainda mais depois de tantos lançamentos do gênero nos últimos anos. A versão de PC apresenta melhorias – tanto visualmente como na jogabilidade, mais fluída – mas nada que se compare a Skyrim ou, ainda, Shadow Of Mordor.

As locações também cansam e são repetitivas, mas a história e as quests compensam um pouco nesse quesito, mantendo o interesse do jogador em melhorar o nível do personagem e da equipe para se conhecer o fim do game.

A trilha sonora é muitíssima bem realizada e se inspira em batalhas épicas para provocar no jogador aquele clima de Senhor dos Anéis. A música de Leliana (que tem dlc própria) particularmente, ainda fica na memória e demonstra uma sensibilidade quase cinematográfica do game durante sua execução.

Visto em terceira pessoa e possuindo uma câmera livre, a jogabilidade não é nenhum problema. Menus práticos para selecionar inventários e poções, além de mapas e armas, são facilidades necessárias para o jogo não travar. A possibilidade de escolher três habilidades para utilizar prontamente também segue o roteiro de um rpg prático e divertido.

Pela customização, pela profundidade da história revelada aos poucos, pelo trato com NPCS – que gera consequências fáticas no game –  e pela trindade exploração/relacionamentos/combate bem executada, que todo bom rpg deve priorizar, Dragon Age: Origins merece ser visitado. Ainda que tenha alguns pontos fracos e fique mal comparado com games mais recentes, o jogador fã do gênero terá muitas horas de entretenimento garantidas ao longo de uma jornada por Ferelden, conhecendo uma história rica e cheia de personagens cativantes, que não são meros expectadores.

Awakening

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Lançada pouco tempo depois do primeiro jogo da série, Awakening é uma expansão do universo de Origins e se passa após o final do primeiro game. Trata-se, essencialmente, de um bônus para os fãs do jogo anterior, existindo a possiblidade de importar o personagem utilizado anteriormente para usá-lo na nova jornada.

Novos itens, novas magias, novas habilidades, novos inimigos e novos companheiros – Oghren, especialmente – dão um novo gás à Origins, mas não acrescentam tanto na relação que o jogador criou com a boa história e com os bons personagens de antes. Pela jogabilidade, porém, as novidades de Awakening são adições bem-vindas e divertidas.

A mudança de status do próprio personagem oxigena um pouco o enredo, que vai se mostrando uma boa continuação e surpreende o jogador conforme o game passa. As escolhas continuam importantes para o desenvolvimento do personagem e o jogo corrige um pouco a repetitividade das missões, principalmente das sidequests.

Os darkspawn continuam sendo uma ameaça constante e as decisões do jogador também possuem o mesmo peso do jogo original, o que é um ponto extremamente positivo, pois mantém a pegada hardcore do jogo.

A história épica e a narrativa densa poderia ter, entretanto, maior participação dos companheiros da primeira jornada, até mesmo pelo caráter nem tão cativante dos novos personagens apresentados. Mas isso é um detalhe que não tira o objetivo principal que Awakening se propõe a fazer: mais do mesmo. E nisso a Bioware obteve sucesso.

Dragon Age: Origins/ Awakening
Desenvolvedor: Bioware
Lançamento: 6 de novembro de 2009 (Origins) e 16 de março de 2010 (Awakening)
Gênero: RPG
Disponível para: PC, PS3 e XBOX 360

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.