Crítica | Dragon Ball Z: O Renascimento de F

estrelas 2,5

Nunca é fácil trazer um vilão de volta, inúmeros aspectos precisam ser contemplados, que vão desde a relevância narrativa de tal escolha até que grau de ameaça o antagonista ressurgido pode trazer. Ainda assim, podemos ter citar alguns exemplos notáveis, como a primeira parte da quarta temporada de The Walking Dead, que trouxe o Governador de volta e até mesmo o próprio Dragon Ball por uma via mais cômica, com a reaparição de Tao Pai Pai após sua primeira derrota. O cenário, todavia, se complica ainda mais quando se trata de uma das figuras mais icônicas do universo criado por Akira Toriyama, que tem sua volta confirmada.

Freeza não é apenas mais um dos inúmeros inimigos de Goku ao longo de sua jornada, ele conta com uma história intrinsecamente ligada à do Saiyajin, e sua derrota em Dragon Ball Z encerra um grande arco dramático iniciado lá atrás com a chegada de Raditz à Terra. Freeza pode ser colocado como a perfeita antítese de Goku – onde um transborda inocência e ingenuidade o outro é preenchido de crueldade. O embate dos dois mais que prova isso, não só pelo seu caráter épico, como pelo fato de aqui vermos uma das únicas vezes que o protagonista efetivamente se viu repleto de ira – não é a toa que sua transformação em super saiyajin veio logo em seguida.

Como, portanto, trazer de volta tão importante personagem para um único filme?

Iniciamos a projeção com um alto grau de surrealismo. Um universo feliz, repleto de criaturas felizes e saltitantes preenche a tela e no meio disso tudo vemos uma única árvore com um único casulo preso a ela. uma cabeça, com veias à mostra, está por fora do casulo, a de Freeza que vive há anos naquele seu inferno. Aqui abro um adendo a titulo de curiosidade. Essa é a primeira vez que o inferno é retratado pelo mestre Toriyama efetivamente. Aquilo que vimos em DBZ nada mais se trata de um episódio filler, cuja ideia não saiu do criador da franquia. Agora voltemos para a trama.

Longe dali, em outro plano existencial, os remanescentes do Império de Freeza sofrem para manter o controle da galáxia. Liderados por Sorbet, eles decidem, então, buscar as esferas do dragão da Terra e reviver seu terrível Imperador. Quando isso ocorre, o vilão decide que desta vez irá treinar, algo que nunca precisara fazer antes, para efetuar sua vingança nos saiyajins que vivem no planeta dos humanos.

O roteiro, naturalmente, não conta com nenhum segredo. Desde o anúncio era evidente que o antagonista buscaria uma revanche contra os personagens centrais de Dragon Ball. Felizmente, diferentemente de A Batalha dos Deuses, pouco tempo é perdido com o alívio cômico até os momentos efetivos de tensão. A esperada luta de Goku e Freeza, é claro, é deixada para o terço final do filme, seguindo uma estrutura muito similar aos outros longa-metragens de DBZ, nos quais os personagens mais fracos lutam primeiro.

Aqui podemos notar o dedo de Toriyama, que coloca até mesmo Mestre Kame para lutar, trazendo belas recordações dos primórdios da franquia. ao seu lado temos Gohan, Kuririn e Piccolo também em combate. Curiosamente, Goten e Trunks foram deixados de fora, mesmo tendo ambos estado em considerável destaque nas imagens promocionais do vindouro Dragon Ball Super, que, provavelmente, irá se passar após os eventos de O Renascimento de F.

O primeiro trecho de lutas, infelizmente, começa a deixar claro o problema que enfrentaríamos posteriormente no embate principal. Por mais que o espetáculo visual seja garantido – com animações muito bem elaboradas, trazendo nítida fluidez aos movimentos e uma dinâmica incomum ao anime de Dragon Ball Z (por sua época, é claro) – não sentimos, efetivamente, qualquer sensação de perigo, a única que se mantém é a proveniente do próprio Freeza (e não de seu exército), mas mesmo essa vai embora com o início da luta principal.

Chega a ser triste constatar que Goku vs. Freeza jamais atinge o grau de tensão presente no mangá ou anime em seu primeiro encontro – tudo procede de maneira bastante leviana e nosso nervosismo cresce apenas com o medo de toda aquele treinamento do vilão ter sido em vão. O traçado da obra aqui merece elogios pelo trabalho em cima do antagonista, especialmente quando sua fúria toma controle. Infelizmente o mesmo não pode ser dito em relação a grande parte dos personagens quando mostrados de perfil, que soam distantes demais do conceito original. É interessante notar que a musculatura de Goku e os outros está menor aqui, esquema que será utilizado em Dragon Ball Super.

As transformações apresentadas parecem ambas simplesmente jogadas ali sem maiores motivos e o roteiro não sofreria em nada se simplesmente não existissem. Um ponto interessante é a maior presença das auras quando ambos – Goku e Freeza – estão transformados, uma azul e outra dourada, que aumentam a sensação de que o poder dos dois efetivamente se alterou e nos proporcionam um belo visual durante a luta, se encaixando com o contraste de personalidade entre os dois. O desfecho deus ex machina, contudo, tira qualquer esperança de engajamento que podemos ter no filme.

Algo que claramente fez falta para contribuir para a ausente tensão na obra foi a trilha de Shunsuke Kikuchi, que muito ajudou a construir a personalidade do vilão em DBZ, com notórios temas que acompanhavam a crescente ameaça do antagonista. No longa em questão sentimos uma clara ausência de qualquer tema relevante e o rock utilizado em um dos trailers se faz presente em péssima hora, soando completamente desconexo da imagem exibida na tela.

Felizmente, ainda no som, temos o retorno dos icônicos dubladores do anime original e ouvir novamente a voz de Carlos Campanile como o Imperador do Mau, após tantos anos, certamente trará muitas lembranças aos fãs. Vale ressaltar que o restante do elenco também permanece o mesmo, para a alegria de todos.

Dragon Ball Z: O Renascimento de F conta com alguns interessantes elementos, mas não consegue salvar a má fama dos filmes de DBZ, por mais que esse seja canônico, como A Batalha dos Deuses. Trazer Freeza de volta foi uma oportunidade perdida e não podemos deixar de sentir que teria sido algo melhor aproveitado em uma saga do mangá ou anime. Resta esperar que Dragon Ball Super saiba retomar o espírito original da franquia.

Dragon Ball Z: O Renascimento de F (Doragon Bōru Zetto Fukkatsu no “F” – Japão, 2015)
Direção: 
Tadayoshi Yamamuro
Roteiro: 
Akira Toriyama
Elenco: 
Masako Nozawa, Ryō Horikawa, Kōichi Yamadera, Masakazu Morita, Mayumi Tanaka, Tōru Furuya, Takeshi Kusao, Jōji Yanami, Masaharu Satou, Yuko Minaguchi, Toshio Furukawa
Duração:
93 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.