Crítica | Drive

estrelas 3

O Motorista, nosso personagem principal, não fala praticamente nada. Ele permanece misterioso, um homem de poucas e medidas palavras, durante boa parte de Drive. Fica evidente a dificuldade que tem de se relacionar com o mundo externo, e sua própria cabeça é um enigma: não sabemos o que se passa por ela, mas o caráter etéreo do filme parece nos induzir a tentar desvendá-la. Claro, não conseguimos, assim como os demais personagens que o circundam também não conseguem, e isso certamente é uma característica a ser louvada, em meio às várias abordagens rasas e redutoras de personagens da “fábrica” hollywoodiana atual.

A abertura do filme é econômica e eficiente. Estabelece de cara para o espectador a ocupação do personagem principal. Nos é revelado que ele dirige carros de fuga para assaltantes. Sua habilidade é rara, no entanto, ele permanece no anonimato, vivendo uma vida que parece muito emocionante se analisada de cima, com distanciamento, mas que ao ser dissecada através da observação de seu comportamento, suas falas e expressões faciais, revela-se como uma existência maçante, marcada pela desconcertante rotina.

Dito isso, é importante destacar que o roteiro de Drive busca justamente expor essa vida de mesmice, sem se perder em comentários de ordem moral (como seria de se esperar de um filme como esse). Essa exposição é uma característica que o torna um tanto quanto diferente da maioria dos filmes norte-americanos em geral, já que aqui há elementos dispersos do chamado “cinema sensorial”. Acompanhamos a jornada do personagem ao seu lado e, por mais que tenhamos poucas informações de fato sobre o sujeito, estamos juntos dele o tempo todo, testemunhando suas experiências.

No entanto, apesar do tempo ser tratado de uma maneira não-convencional, a estrutura do roteiro é Syd Fieldiana. O roteirista prioriza o personagem principal e o seu arco dramático ao invés de uma história poderosa, sim, mas os chamados Atos e Pontos de Virada são facilmente identificáveis. Percebemos as passagens do primeiro ato para o segundo (Motorista conhece Irene) e do segundo para o terceiro (assalto à loja de penhores) sem maiores dificuldades.

Em termos de conflito, o roteiro lida com a questão do personagem principal, que tem uma vida monótona e que presta serviços sempre à sua maneira fria e pontual. Porém, quando o perigo se aproxima de duas pessoas com as quais ele acaba estabelecendo uma forte conexão, ele se vê na obrigação de interferir, agindo por conta própria – o que enfim provoca uma guinada na história. Fica claro que todo esse conflito foi estruturalmente pensado de forma a contribuir para a concretização do arco dramático do personagem. Concretização essa que incita comparações mais do que justificáveis com Travis Bickle (o insano Robert DeNiro de Taxi Driver).

Com o decorrer do tempo de projeção, constatamos que Irene e seu filho Benicio são personagens-chave, já que propulsionam uma espécie de necessidade de comunicação por parte do Motorista. Dessa forma, eles colaboram com o processo de caracterização do nosso personagem principal. Por mais objetivo que ele continue sendo em suas falas, agora seu comportamento revela um homem desesperado por encontrar alguém a quem ter o que comunicar. Há uma cena em especial que expõe sutilmente a relação de cumplicidade do Motorista com Benício: quando o solitário homem pergunta se pode guardar a bala que um bandido deu ao menino e pediu pra ele não perder, Benício responde com um “está bem” direto, sem pudores. Um atestado de confiança, que contribui para entendermos o que estes personagens secundários representam na vida do Motorista.

No entanto, quando nos aproximamos do final e ouvimos em off o conteúdo de uma carta do Motorista para Irene no qual ele diz que “estar ao seu lado foi a melhor coisa que me aconteceu”, o filme finalmente cai em um território piegas. Trata-se de um diálogo que soa artificial e nem um pouco verossímil saindo da boca de um personagem como aquele, e acaba com a sutileza da relação dos dois, fechando-se em um esquema que representa o que há de mais brega e redundante no cinema hollywoodiano. A incapacidade de falar é o que guia a caracterização do personagem durante todo o filme, assim, quando ele se entrega dessa forma, usando as palavras (suas arquiinimigas) para baixar a guarda e “abrir o coração”, ele se rebaixa ao nível de vários personagens estereotipados e desinteressantes do cinema.

Dessa forma, o conflito e suas ramificações não apresentam nada de inovador ou muito especial. O próprio Motorista se beneficia mais pela empatia de Ryan Gosling do que pela sua caracterização (que passa longe de ser complexa ou desafiadora). Drive é uma variação moderna de Taxi Driver, que tem como força maior a subversão ao tratar de um homem que está o tempo todo em adrenalina, mas que na verdade possui uma vida de mesmice, e a própria adrenalina, justamente por representar para ele um lugar-comum, não o excita.

Drive (Drive) – Estados Unidos, 2011
Direção: Nicolas Winding Refn
Roteiro: Hossein Amini (roteiro), James Sallis (livro)
Elenco: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Albert Brooks, Ron Perlman, Christina Hendricks, Bryan Cranston, Oscar Isaac, Kaden Leos, Jeff Wolfe, Russ Tamblyn, Joe Pingue
Duração: 100 min.

KARAM . . . Desde 1992, o ano em que foi apresentado ao mundo por duas admiráveis criaturas que logo se identificaram como "pais", Karam vem se aventurando pelos caminhos da Arte, da maneira que pode. Na música, Aretha Franklin é a sua pastora. Na Literatura, andou se entendendo muito bem com Clarice Lispector e Oscar Wilde. Embora faça faculdade de Cinema, não esconde que seu filme preferido – ao contrário do que muitos poderiam presumir – não é nenhum cult de Bergman ou Fellini, mas sim O Rei Leão; é!, aquele lá mesmo, da Disney. Um dia leu, em Leminski, que "isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além" e, assim, resolveu investir na ideia proposta pelo poeta para, quem sabe um dia, chegar ao além sem precisar passar pelo infinito – que é a pra não ter a infelicidade de esbarrar com o Buzz Lightyear no meio do caminho (fora, concorrência!).