Crítica | “Drunk” – Thundercat

thundercat

estrelas 3,5

Stephen Bruner, famoso por seu codinome Thundercat, definitivamente vem permanecendo em constante holofote nos últimos anos devido a seu trabalho que estreitou as conexões entre hip-hop, jazz e funk. Uma vasta lista de contribuições dita a influência do produtor e multi-instrumentista: Kendrick Lamar, Kamasi Washington, Childish Gambino, Flying Lotus, Vic Mensa, entre outros. É difícil nomear um baixista tão influente e de tantos contatos importantes quanto Thundercat. Portador de uma elogiada carreira solo, após dois registros interessantes e um ótimo EP chegamos a sua mais nova obra: Drunk.

No fundo, não existe um salto muito grande de sua estreia em The Golden Age Of Apocalypse comparado a Drunk, já que ambos possuem uma proposta de sonoridade um tanto próxima, com diferença que este novo é apenas mais “pretensioso” com suas 25 faixas e vários nomes populares entre as colaborações. De Kendrick Lamar a Wiz Khalifa, o artista deixa bem claro que possui contatos fortíssimos no mundo musical, todos muito bem utilizados neste álbum, com destaque para Pharell Williams na maravilhosa The Turn Down.

Drunk obedece uma abordagem quase lo-fi na produção, já que na maior parte do tempo soa intimista e retrô, perdida na transição do AOR, R&B e jazz dos anos 70 e 80, suavemente mixada e gravada com o cuidado de um disco do Steely Dan. Do videogame-sci-fi-retrô dos synths de Jameel Space Rider, passando pela bebedeira romântica de Drink Dat e nostalgia cafona de Show You The Way, até chegar na misteriosa insônia de 3AM e na tristeza contemplativa de DUI, o álbum é dominado por faixas de curta duração, uma média aproximada de 2 minutos. Inferno é a mais longa, com 4 esquizofrênicos minutos que deixam bem claro que a ideia do artista aqui é experimentar através de múltiplas vozes, synths e seu onipresente baixo.

Drunk é estranho. E isso é proposital. Mas tal ideia de experiência pode ou não funcionar, dependendo apenas do ouvinte. A proposta do disco é atuar quase como uma rádio FM em constante transição de estações, em busca da frequência certa dentro da mente de Thundercat. Obviamente que isso não chega nem perto de ser estruturado com o mesmo brilhantismo de um To Pimp A Butterfly (e que fique registrado de que letras também não são o forte de Stephen). No entanto, também é inegável que temos aqui um disco, sonoramente falando, já reflexo da prematura revolução do espetacular álbum de Kendrick.

Tão nerd quanto o que se pode esperar de alguém que escolhe o nome artístico Thundercat, Stephen espalha referências da cultura pop por seu álbum, principalmente samples de games icônicos (vide Sonic em Show You The Way) e variados efeitos de chiptune, sendo o maior exemplo disso visto na faixa Tokyo, com direito a menções a Dragon Ball Z. “Eu vou jogar Diablo de qualquer forma” – Thundercat canta em Friend Zone, totalmente desinteressado com a vida amorosa e mergulhado em jogos para se afastar da tristeza da “friendzone” que caiu. Por cima das letras geeks desfila o groove de seu baixo unido a sintetizadores esteticamente futuristas enquanto seu objetivo, ao poucos, vai fazendo sentido para o ouvinte. Drunk é um cosmos da mente de Thundercat onde a nostalgia, o futurista e a irresponsabilidade se encontram.

Thundercat ainda não lançou sua obra definitiva. Essa é a ideia que fica instaurada ao terminarmos de ouvir Drunk tantas vezes. No fim, não sabemos para onde estamos sendo levados, mas não deixa de ser uma confortável experiência. É inegável que o produtor segue muito bem sua carreira sempre inventiva e competente, mas a sensação de que Stephen ainda está pra lançar seu grande marco – daqueles de deixar todos de queixo caído – permanece.

Aumenta!: The Turn Down feat. Pharell Williams
Diminui!: Inferno

Drunk
Artista: Thundercat
País: Estados Unidos
Lançamento: 25 de fevereiro de 2017
Gravadora: Brainfeeder
Estilo: R&B, Experimental, Jazz

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.