Crítica | Dry – “Enjoy The Fall”

estrelas 4,5

 

Life’s like math, but not all lessons were learned…
Dry – Lessons

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Dry: seco em inglês. O nome consegue definir bem os riffs pesados dessa banda de Goiânia, ainda que esse som “seco” seja recheado de boas melodias. A banda lançou esse ano o seu primeiro álbum: Enjoy The Fall. O disco contém tudo que se precisa pra ser chamado de, no mínimo, fantástico. Toda produção merece aplausos, desde título e capa até a última faixa do álbum.  O grupo tem como frontman o vocalista Bauer, ex-Black Drawing Chalks, banda essa que exerce algumas influências sobre o Dry, prova disso está no fim do encarte do disco onde há diversos agradecimentos e se inclui um para o BDC.

Enjoy The Fall: “Aproveite a queda”. Um nome bem propício para um álbum de rock e heavy metal. Apesar de com certeza soar para alguns como algo relacionado a suicídio, essa é uma ideia bastante errada do título do álbum. O disco pega ótimas letras pra falar de temas um tanto obscuros e depressivos, fala de tudo que nenhuma vida está isenta: problemas. Esse ponto é onde o título funciona e faz sentido: tanta gente diante de problemas optam por saídas erradas, quando na verdade devem simplesmente “aproveitar a queda”, seguir a vida e não se apegar demais a seus problemas. Se absorver a mensagem vai ver que tudo se trata de dar a famosa volta por cima. Fazer de sua derrota, sua redenção.

O talento da banda é uma qualidade a parte. Competência técnica por parte de todos os integrantes, sem exceções. Vocal bastante entrosado com arranjo, bateria muito bem tocada, guitarrista afiado e um baixista de bastante destaque. A sonoridade é única e difícil de rotular, é resultado de diversas influências como Black Drawing Chalks e Down. A faixa de abertura, Lost My Mind, é uma espécie de canção tema da banda e do álbum, poderia ser até uma faixa homônima. A fusão de riffs pesados, viradas sensacionais de bateria, ótimas bases de baixo e vocais melódicos formam um bolo recheado de rock de primeira.

A banda sabe dar aula de boas utilizações de gutural (utilizado somente nas horas certas), assim como de harmonia. Faixas muito bem arranjadas já podem ser observadas nos primeiros instantes do álbum, como em I Don’t Know Trapped. Reaview Mirror traz uma letra complexa e uma característica forte no som da banda: influências do grunge com heavy metal. Esse som pode ser multiplicado por três e terá Wave como resultado, a faixa mais “crua” e pesada do álbum, enquanto Gasoline sabe usar o mesmo peso, mas com doses mais melódicas. O álbum possui flertes com o stoner metal em vários momentos, tanto nas letras quanto nas melodias. Destaque para Lessons e Hideout, seja pelos seus ótimos solos de guitarra, por seus vocais bem melódicos ou por suas letras descontraídas.

O baixo é um elemento marcante para o som da banda, diferente de grupos onde ele pode ser quase imperceptível, nas canções de Dry ele sempre tem destaque, uma das razões para o som grave das músicas. Nesse aspecto, aplausos para a complexa 11′. Perto do fim do álbum temos Way Home e seu início acústico, um ótimo diferencial que ninguém imaginava que mais tarde ia desabar em um refrão típico de rock dos anos 90. Six Toes fecha o disco com uma sonoridade distinta, riffs de country rock o encerram no mesmo alto nível do resto do álbum.

A cada nova banda de rock que surge no Brasil, mais certeza se tem de que o rock brasileiro não morreu, ainda que ele não receba a devida atenção. Dry mantém viva essa afirmação, Enjoy The Fall é um álbum que parece melhor a cada vez que se escuta. Só os ouvintes de rock/metal sabem a diferença que um álbum assim pode fazer após um dia cansativo e estressante. Sim, é tão relaxante quanto Pachelbel. Dry é uma excelente pedida: ligue o som e aproveite a pancada sonora.

Enjoy The Fall
Artista: Dry
País: Brasil
Lançamento: 20 de março de 2014
Gravadora: Estúdio Pandarus
Estilo: Rock, Metal

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.