Crítica | Duas Soluções Para um Problema

estrelas 5

Abbas Kiarostami entrou para o cinema através do cargo que assumiu no Centro Para Desenvolvimento Intelectual da Criança e do Adolescente, em Teerã. Sua obra consiste em mostrar com um desprendido realismo a sociedade de seu tempo, sempre com os olhos voltados para as relações humanas. A criança assumiu um papel de destaque nos primórdios da carreira do diretor, como podemos observar em O Pão e o Beco (1970) e Recreio (1972); e também em seu primeiro sucesso internacional, Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987). Em cada uma dessas obras, o diretor iraniano traz uma dificuldade para ser enfrentada pelas crianças, e através desses obstáculos e suas consequências temos uma colocação da história ou da cultura iraniana. É o caso de Duas Soluções Para Um Problema (1975), um curta-metragem de cinco minutos que tem o poder de resumir séculos de história do fundamentalismo no Oriente Médio.

Trata-se da história de Nader e Dara, dois amigos que se desentendem por causa de um caderno rasgado. O espaço do embate é uma sala de aula, enquanto ouvimos o barulho de um pátio cheio de crianças. Kiarostami traz o problema da intolerância e da ação por impulso em uma simples crônica infantil. Não ouvimos a voz dos garotos, apenas a de um narrador. A montagem didática das cenas ressaltam as expressões faciais e nos mostram com muito lirismo o embate entre os dois amigos.

O viés político-social empregado nas entrelinhas salta aos olhos do espectador, mas é a questão cultural que ganha maior fôlego. Somos convidados a assistir a uma briga que trará consequências físicas e morais para os meninos, e certamente abalará a amizade entre ambos. Pelo modo mais difícil há uma solução, mas além do objeto primeiro da disputa, há muito mais perdas. Como um recurso narrativo de distensão do peso gerado pelas cenas hostis, temos uma pequena explanação contábil das perdas para os dois lados. O problema não se resolve e tudo fica pior do que estava.

É na segunda parte do filme que acontece o alumbramento do espectador. A simplicidade com a qual o problema se resolve na segunda vez parece resgatar-nos de um sono, o sono que banaliza a violência, que apoia a “defesa a qualquer custo” de interesses pessoais, a avareza por manter privilégios e a vontade de querer ter razão ou posse de alguma coisa. Trinta e seis anos depois, o filme permanece atual e legítimo, pois revela uma face de nossa sociedade que há muito abandonou a cidadania para buscar vantagens; e também aqueles que nem sabem do que podem, ignorantes criados em um viveiro político de ideologias de consumo, desapego ao ser humano e prestígio das conveniências. Se por um lado o filme denota a política, ele escancara as frágeis relações entre as pessoas que preferem a “guerra” a terem ameaçados os seus bens materiais.

Duas Soluções Para Um Problema não é um filme que defende a impunidade. Se houve um erro, ele é corrigido de uma maneira que não venha a causar outros, em um ciclo vicioso que nos é tão comum, que tal “discurso da paz” ganha ares utópicos. O problema é que chegamos a um ponto em que ninguém quer ceder. Os Senhores da Razão habitam o nosso século. O orgulho clama para si toda a verdade e qualquer coisa que for diferente do que ele aprova deve ser exterminada. Daí passamos para todo o tipo de preconceito, segregação, e suas horrendas consequências. Nosso senso de “igualdade” migrou para a “punição”. “Retaliar” é o novo sinônimo de “ponderar”. E então Kiarostami nos acorda para as duas possibilidades de uma ação nesse sentido: pode-se partir para a violência, ou não partir. A escolha é pessoal, mas o resultado pode atingir muita gente. Como já nos dissera Mahatma Gandhi: “Olho por olho, e o mundo acabará cego”.

Duas Soluções Para um Problema (Do Rahehal Barayeh Yek Massaleh) – Irã, 1975
Direção: Abbas Kiarostami
Roteiro: Abbas Kiarostami
Duração: 5 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.