Crítica | Duas Vezes com Helena

O nome de Paulo Emilio Salles Gomes é muito conhecido na área de Cinema. Sabemos que o intelectual produziu muitas reflexões sobre a condição do cinema brasileiro, além das críticas publicadas no Suplemento Literário, numa época de “ferveção” cultural para o Brasil. Suas contribuições, entretanto, atravessam o limiar da crítica de cinema e também se encontram presentes no campo da literatura, mesmo que tal participação seja através de produções pouco conhecidas. Uma de suas ousadas protagonistas, Helena, já foi traduzida para a linguagem do cinema em 1982, no conto Ao Sul do Meu Corpo, dirigida por Paulo Saraceni, e, em 2001, Duas Vez Com Helena, de Mário Farias, tradução intersemiótica que subsidia o texto em questão.

A história é bem intrigante e, tal como os finais do mestre Nelson Rodrigues, fazem a curva na via expressa e reta da “obviedade nossa de cada dia”.  Assim como no conto, Polydoro (Fábio Assunção) é um jovem rapaz de vida razoavelmente confortável, pois pode se gabar de ter ido algumas vezes para o continente europeu estudar. Ele tem na figura do professor Alberto (Carlo Gregório) um mentor, alguém que lhe inspira e guarda profunda admiração. Certo dia, ao combinar uma visita na residência do professor, é convidado a chegar na hora exata determinada.

Quando chega ao local, o rapaz não encontra o professor, mas é recepcionado pela bela esposa, Helena (Christine Fernandes), mulher que arrebata de imediato os seus pensamentos, para mais adiante, o coração. Ele resiste, mas ela constantemente o convida a entrar. O resultado nós já esperamos: ele provavelmente vai ter um momento de amor com a moça e vai roubá-la do mentor, caso o rumo da história siga ao pé da letra o mito grego que ganhou força, dentre tantas representações e narrativas, no poema homérico Ilíada. No entanto, não é assim que as coisas se desenvolvem.

Nada é o que parece ser inicialmente, o que culmina num final que vai mexer com o psicológico não apenas do jovem Polydoro, nome oriundo da mitologia grega que na cultura popular é tido como arquétipo de quem é feito de bobo constantemente. O conto de Paulo Emilio Salles Gomes subverte o mito de Helena e o reveste de novos significados. Aqui não temos Odisseu, Aquiles, Penélope, Telêmaco, mas as temáticas clássicas ressurgem adaptadas aos novos contextos, como deve ser toda tradução de um tema clássico para as plateias contemporâneas.

Sob a direção Mário Farias, Duas Vez com Helena traduz bem os elementos do conto homônimo de Salles Gomes, graças ao bom roteiro assinado por Melaine Diamantes, profissional engajada com as temáticas da retomada do cinema brasileiro. Tendo como uma das escolhas sábias a manutenção do tempo narrativo semelhante ao conto, o roteiro filmado em Caxambu, interior de Minas Gerais, revela aos poucos os acontecimentos que deflagram no desfecho que nos tira do trivial, isto é, das numerosas histórias sobre traição e desejos ardentes entre pessoas que aparentemente vivem situações “proibidas”.

Com elementos estéticos que atravessam bem os contextos históricos, o filme peca apenas por alguns trechos em que a atuação de Carlos Gregório, em especial na primeira metade do filme, soa como declamações, com diálogos que beiram ao teatral, algo que ganha novos contornos ao passo que a narrativa avança. A estratégia de utilização do back projection inicialmente parece um recurso amador, mas depois tornando-se mais orgânico. Com imagens que dialogam passado e presente, há interações com o trajeto de Polydoro e ajudam o espectador a mergulhar no clima do filme.

Duas Vezes com Helena nos mostra como uma produção de baixo orçamento pode ser instigante e nos envolver. O visual televisivo não é disfarçado em nenhum momento, mas a narrativa consegue seguir seu caminho como filme. Polydoro, jovem delicadamente bem construído desde o conto ponto de partida está muito bem na interpretação de Fábio Assunção, ator que conseguiu emular a ingenuidade e a franqueza do personagem, um desses tipos que ainda acreditam na humanidade.

O leitor pode ser perguntar sobre a pertinência no que tange às relações da sedutora mulher que recebe um visitante na ausência do marido com o mito que supostamente é um dos combustíveis para o advento da Guerra de Troia. O título com o nome Helena pode não dizer muita coisa, pois o nome homônimo do mito não significa que a produção seja uma adaptação da história deste ícone grego. Digamos que desde o conto de Salles Gomes, tenhamos uma subversão. Não há cavalo com gregos dentro, Menelau, Agamenon, mas há a associação de dois nomes de grande força no mundo da mitologia. Helena e Polydoro. Além disso, temos o professor Alberto, um homem que manipula o destino, bem como a erudição de Paulo Emilio Salles Gomes que provavelmente se deixou levar pela sua formação intelectual na remodelação desta espartana que tal como Odisseu, ocupa o espaço de narradora da história. Desta forma, o mito atravessa o tempo e se espalha como um rizoma, nos ajudando a dar significado aos nossos dilemas contemporâneos com bases em estruturas narrativas que contam a história da humanidade há eras.

Duas Vezes com Helena — Brasil, 2001
Direção: Mauro Farias
Roteiro: Melanie Dimantas
Elenco: Carlos Gregório, Christine Fernandes, Cláudio Correia e Castro, Duda Mamberti, Fábio Assunção
Duração: 75 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.