Crítica | DuckTales (2017) – 1X01: Woo-oo!

estrelas 4

Apesar de não ter sido a primeira animação para TV da empresa, DuckTales foi um divisor de águas para a Walt Disney Television Animation, pois foi concebida com objetivo expresso de entrar no syndication (lucrativas licenças para retransmissão de programas sem necessidade de passar pelas redes televisivas) e abriu caminho para um sem-número de outras obras baseadas em seus personagens mais famosos. E, mais do que isso, a série, que lidava com as aventuras pelo mundo no estilo Indiana Jones do Tio Patinhas e de seus sobrinhos-netos Huguinho, Zezinho e Luizinho, além do Capitão Bóing, este criado especialmente para a série, contou com um total de 100 episódios em apenas quatro temporadas entre 1987 e 1990 (65 deles só na primeira temporada!) e, depois, um longa animado lançado no cinema, trouxe à animação serializada um refinamento técnico raro para a TV da época.

Então, quase 30 anos depois de pela última vez ouvirmos a inesquecível musiquinha de abertura em um episódio inédito, o estúdio decidiu trazer a série de volta em alto estilo, com ninguém menos do que David Tennant, o 10º Doutor de Doctor Who, como a voz do Tio Patinhas. E o resultado não poderia ser mais perfeito, com o ator carregando de vez seu sotaque escocês para viver o pato mais rico e mais sovina do mundo, o que empresta de imediato tanto legitimidade quanto a nova melhor voz que o personagem jamais teve.

Aliás, o trabalho de vozes na animação é, sem dúvida alguma, o ponto alto desse revival. Huguinho, Zezinho e Luizinho, vividos, respectivamente, por Danny PudiBen Schwartz e Bobby Moynihan, ganham muita personalidade aqui. Arriscaria dizer que mais ainda do que na série original em que eles eram substancialmente fungíveis. Claro que o roteiro ajuda em criar as diferenças, colocando Huguinho como o “cérebro”, Zezinho como o “encrenqueiro” e Luizinho como aquele que sempre pensa positivo, algo que vai aos poucos sendo desenvolvido como características espelhadas no próprio Tio Patinhas.

Além disso, quer parecer que o Pato Donald será mais parte integrante do reboot do que foi na série original, em que só aparecia algumas vezes aqui e ali. Sua voz característica – e hilariamente quase ininteligível – se dá graças ao clássico trabalho de Tony Anselmo, que “é” o personagem desde 1985. O time fica completo com o Capitão Bóing (Beck Bennett) e Patrícia (Kate Micucci), neta de Madame Patilda (Toks Olagundoye), todos personagens criados para a série original e que voltam substancialmente iguais.

O primeiro episódio, que nada mais é do que a junção do que muito claramente poderia ser dividido em dois, lida, primeiro, com a “origem” do grupo aventureiro e, em seguida, com sua primeira grande aventura. Donald está para fazer uma entrevista de emprego e precisa deixar seus sobrinhos com o Tio Patinhas, que nunca foi apresentado a eles. Patinhas é ranzinza e não quer saber das crianças até que os três escoteiros mirins e Patrícia começam a revirar sua mansão, achando tesouros recolhidos pelo quaquilionário pato e libertando maldições de amuletos e outros objetos mágicos, o que, por tabela, reativa o gosto por aventuras de Patinhas. De outro lado, Donald, completamente aéreo, acaba sendo contratado como um mercenário “baratinho” logo por Pão Duro MacMônei (Keith Ferguson), arqui-rival de seu tio.

Na segunda parte, as narrativas paralelas convergem quando os dois patos escoceses (MacMônei era originalmente sul-africano, mas teve a nacionalidade trocada na série original para evitar questões políticas complicadas com o Apartheid) partem para achar um tesouro em Atlântida. É lá que a aventura engata de vez, em uma história repleta de clichês, mas divertida mesmo assim.

Chegamos, então, ao ponto polêmico da nova série: a técnica de animação escolhida. Creio ser unânime a apreciação da animação feita à mão na série oitentista, com os personagens praticamente sendo retirados das páginas das revistas a partir dos traços clássicos do criador dos patos Carl Barks e também do fenomenal Don Rosa. Mexer no nível de detalhe e na qualidade que podemos ver na animação original foi vista por muitos como uma verdadeira heresia, algo que só poderia vir da mente sinistra da Maga Patalógika. Os nostálgicos – como eu! – subiram pelas paredes quando as primeiras artes foram liberadas pelo estúdio e toda a alegria de saber que DuckTales voltaria esvaiu-se diante da animação gerada em computação gráfica 2D.

Mas calma, pois não é esse horror todo. Aliás, deixe-me fazer uma correção: está longe, mas muito longe de ser um horror. Primeiro, temos que considerar que animação manual era carta fora do baralho de toda forma. Isso não é mais realista ou competitivo nos dias atuais. Depois, o que realmente importa é a impressão de conjunto deixada pela animação casada com o roteiro e com as vozes e, nisso, o reboot mostra a que veio desde os primeiros segundos com Donald lidando com as travessuras dos sobrinhos em seu barco-casa. Mas o melhor é que, depois de alguns minutos mais, o espectador passa a se acostumar com aquele visual que, em linhas gerais, respeita integralmente cada um dos personagens clássicos, talvez com exceção de MacMônei que ficou parecendo uma bola barbada e com kilt.

É inegável que a animação é inferior à original, mas é igualmente inegável que o trabalho é muito dinâmico, enérgico e repleto de movimentação em primeiro plano, mesmo quando, por alguns segundos, a impressão que temos é que estamos vendo algo animado em Flash. O segundo plano é normalmente estático e pouco detalhado, mas a impressão geral ainda é bem positiva se o espectador puder deixar sua nostalgia e puritanismo um pouquinho de lado (se eu consegui – chato como sou – vocês conseguirão também).

Os Caçadores de Aventura estão de volta com toda a pompa e circunstância e o novo DuckTales promete muito divertimento tanto para a criançada quanto para os adultos. Afinal, “aí vem um furacão, vem emoção, tem corrida e avião, tem sensação, velhos castelos, belos duelos…”

*O primeiro episódio foi liberado oficialmente no dia 12 de agosto de 2017, mas a série só estreará em 23 de setembro de 2017.

DuckTales – 1X01: Woo-oo! (EUA, 12 de agosto de 2017)
Desenvolvimento: Matt Youngberg, Francisco Angones
Direção: Dana Terrace, John Aoshima
Roteiro: Francisco Angones (baseado em argumento de Francisco Angones, Colleen Evanson, Noelle Stevenson, Madison Bateman, Nate Federman, Matt Youngberg)
Elenco (vozes originais): David Tennant, Danny Pudi, Ben Schwartz, Bobby Moynihan, Kate Micucci, Beck Bennett, Toks Olagundoye, Tony Anselmo, Keith Ferguson
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.