Crítica | DuckTales, o Filme: O Tesouro da Lâmpada Perdida

Lançado em 1990 durante a reta final da série animada original, DuckTales, o Filme: O Tesouro da Lâmpada Perdida adaptava pela primeira (e, até o presente momento, última) vez a franquia televisiva dos patos para o formato longa-metragem. Produção de estreia do DisneyToon Studiosmarca que posteriormente seria responsável pela realização de inúmeras sequências direto-para-vídeo dos clássicos animados do estúdio, o filme recebeu um raro lançamento nos cinemas, embora provavelmente não desfrute atualmente do mesmo prestígio de sua contraparte televisionada.

Imaginar um filme de DuckTales não é tarefa difícil. A versão animada de Patópolis sintetizou à sua própria maneira diversas influências valiosas, combinando eficazmente certos aspectos do universo fascinante da obra antológica de Carl Barks nos quadrinhos com pastiches inspirados dos mais diversos subgêneros da cultura pop que se possa imaginar. Jornadas pelo mundo em busca de tesouros, viagens no tempo, super-heroísmo e drama familiar são apenas alguns dos marcos mais frequentes percorridos pelos patos em seus 100 episódios originais.

Mesmo que a produção se abstivesse de recontar a história da chegada de Huguinho, Zezinho e Luisinho na Mansão Patinhas, ou não cogitasse aproveitar a ocasião da ida às telonas para se adaptar à risca algum clássico barksiano, o fato é que não faltariam elementos para se construir uma narrativa cinematográfica com base no universo televisivo dos “caçadores de aventuras”. Assim, surpreende de certa forma que o longa animado recorra a um elenco bastante enxuto de personagens e a uma trama relativamente simplificada para dar conta de sua tarefa.

Ainda que o material de divulgação explore astutamente as inspirações e paralelos da franquia com Indiana Jones (que, afinal de contas, bebeu da mesma fonte dos quadrinhos de Barks), infelizmente a faceta de alta aventura e a busca por tesouros perdidos se restringe ao primeiro ato da película, que vai ao encontro da equipe formada pelo trio de sobrinhos acrescidos de Capitão Boeing, Patrícia e — é claro — Tio Patinhas, já em pleno clímax de sua busca pelo lendário tesouro de Collie Baba. Intercalando momentos comédicos com cenas mais aventurescas, o segmento inicial encontra seu grande fator limitante na qualidade da animação.

Produzida por uma equipe ad hoc de animadores internacionais sediados no estúdo Walt Disney Animation France, a animação sofre menos de má qualidade técnica propriamente dita do que de extrema inconstância. Seu caráter de “colagem” ao estilo mosaico é denunciado já nas sequências de abertura, onde se contrapõem renderizações precárias dos personagens com belos backgrounds detalhistas, ficando marcada a inconsistência de traços e do estilo de movimentação. Trata-se de um problema que se segue pelo restante do filme, que traz ares inegáveis de produção televisiva forçosamente alçada ao formato cinematográfico. Um resultado semelhante se faria presente na produção seguinte do DisneyToon: em O Retorno de Jafar, a Walt Disney Animation Australia traria um novo desfile de personagens com cores misteriosamente alternantes e anatomias em constante transformação. Trata-se de um distrativo menor, mas que é certamente significativo em termos de um longa animado que carrega a marca Disney.

Assim como no quesito animação, a natureza de produção televisiva também perpassa todo o roteiro. Passada a abertura empolgante e aventuresca, onde somos apresentados às manipulações do feiticeiro Merlock e seu ajudante Dijon para obter a Lâmpada Perdida, o filme se desenrola por mais dois atos menos grandiosos, formando um conjunto claro de três episódios costurados em um bom especial televisivo, porém algo que fica aquém do que merecia a familia MacPatinhas em sua estreia nas telonas. Sem grandes surpresas, vemos a patinha Patrícia encontrar a lâmpada mágica titular e, sem saber, impedir que a peça mais valiosa do tesouro de Collie Baba chegue às mãos de Merlock.

O filme perde um pouco do pique justamente nas sequências intermediárias, onde acompanhamos os sobrinhos descobrindo a respeito do Gênio da lâmpada, uma criança imortal apelidada por eles de Geninho. Interpretado na versão original pelo comediante Rip Taylor, o patinho infelizmente não traz o mesmo charme de outras criações originais da série como Bubba ou Fenton Crackshell. Parte disso provavelmente se deve ao seu design pouco inspirado, além das inevitáveis comparações com a versão Disney definitiva da criatura mitológica, o Gênio azul de Robin Williams, que seria apresentado apenas dois anos mais tarde. Aliás, de maneira geral, as comparações (sempre desfavoráveis) com Aladdin são inevitáveis: das temáticas centrais às batidas principais do terceiro ato inteiro, são diversas as semelhanças com o longa dos autênticos Estúdios Disney.

A dinâmica da família Patinhas e o tema do gênio da lâmpada são bem explorados, trazendo a clássica oposição entre a ganância e o sentimento familiar recém-descoberto que essa versão mais amolecida do velho sovina costuma explorar muito bem. Sua atitude inicial em relação a Geninho é um desses pontos, que traz com precisão um dos contornos mais interessantes do personagem. A inevitável crise que se segue com a perda da lâmpada não deixa de entreter, porém fica aquém de momentos paralelos que são melhor entregues na própria série televisiva. A previsibilidade do roteiro acaba sendo seu ponto fraco, e a animação apenas competente acaba não vendendo bem a transformação da Caixa-Forte no palácio de Merlock, momento que tinha potencial para trazer alguns visuais interessantes. A batalha final consegue resgatar um pouco do sentimento aventuresco do ato de abertura, encerrando em alto nível a inegavelmente divertida animação.

Apesar de entreter, o filme aposta demais no seguro e no previsível e peca ao deixar de fora alguns fatores que poderiam contribuir com a grandiosidade do episódio. Ausentes estão os aliados Professor Pardal, Bubba e Robopato, enquanto vilões icônicos como Pão-Duro Mac Mônei e Maga Patalójika não dão as caras em nenhum momento. Embora traga caracterizações bastante decentes, o charme universal dos contos de Barks também se faz menos presente aqui do que em entradas televisivas como o excelente episódio multi-partes de abertura da série, O Tesouro do Sol Dourado. Ainda assim, trata-se de uma produção que merece ser conferida pelos fãs do pato sovina: ainda que não seja a grande aventura cinemática que os personagens mereciam, DuckTales, o Filme diverte, encanta e — mais do que qualquer outra coisa — nos deixa ávidos para reassistir alguns episódios da série original (alô serviço de streaming da Disney, não vai deixar essa preciosidade de fora, vai?).

DuckTales, o Filme: O Tesouro da Lâmpada Perdida (DuckTales the Movie: Treasure of the Lost Lamp) – EUA, 1990
Direção: Bob Hathcock
Roteiro: Alan Burnett
Elenco: Alan Young, Terence McGovern, Russi Taylor, Richard Libertini, Christopher Lloyd, June Foray, Chuck McCann, Joan Gerber, Rip Taylor
Duração: 74 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.