Crítica | Duelo ao Sol

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estrelas 3,5

Duelo ao Sol é um filme tão grandioso que só pode ser classificado com justiça se utilizarmos a palavra “exagerado” para defini-lo como produto cinematográfico.

Western da 2ª Idade do Ouro do gênero em seu apogeu, o longa foi praticamente uma declaração de amor do apaixonado David O. Selznick para a belíssima Jennifer Jones, realizado sob o disfarçado lema de que o produtor não gostaria de “passar à posteridade apenas como aquele que fez …E O Vento Levou”.

Mas antes fosse.

Duelo ao Sol tem excelentes momentos ao longo de seus 129 minutos de duração, mas, para começar, é um longa sem unidade estética, formal e até narrativa (embora em grau menor), efeito causado pela miríade de diretores que estiveram envolvidos no projeto. King Vidor é creditado como o cineasta responsável pela obra, mas isso unicamente porque ele dirigiu o maior número de metros de filme, todavia, não foi o único. Ao final do projeto, Vidor já não suportava mais a pressão e chefia de Selznick, o que fez com que ele abandonasse a direção, que foi assumida imediatamente por Otto Brower e, em seguida, por William Dieterle.

Ainda nessa dança das cadeiras temos William Cameron Menzies, que dirigiu a cena da festa; Josef Von Sterberg que dirigiu takes em close-up de Jennifer Jones, tomadas da atriz em contexto com algumas cenas e trechos de sequências em que ela aparecia sozinha, algo que na montagem seria ligado a um evento filmado previamente por outro diretor. B. Reeves Eason, Hal C. Kern e Sidney Chester Franklin também tiveram participação contundente no filme como diretores de segunda unidade. Diante de tantas mãos, olhos e cérebros atrás das câmeras (todos pontualmente orientados e pressionados por Selznick, que também chegou a dirigir algumas cenas do filme, na reta final), é evidente que a unidade da obra estaria comprometida, por mais que o produtor tentasse manter nela um corpo uno.

A história, adaptação do romance de Niven Busch, remete-nos à crônica bíblica de Caim e Abel, tendo como adição um afetado apelo familiar e libidinoso, este último, definitivamente um dos ingredientes de maior peso no enredo e no drama de amor e ódio que afeta o espectador de maneira negativa e positiva ao mesmo tempo.

A primeira pergunta que nos vem à mente quando levamos isso em conta é: como e por quê Pérola gostava de um homem como Lewt McCanles?

Gregory Peck, ainda em início de carreira, dá vida a um “Caim” que odiamos desde os primeiros momentos em que aparece na tela e que ensaiamos mudar de opinião na sequência de tirar o fôlego ao final do longa, o verdadeiro “duelo ao sol”. O ator é acompanhado por um grande elenco, a maioria em excelentes atuações, com destaque para o Walter Huston no papel do pastor; Lillian Gish, no papel da matriarca McCanles, atuando com grande delicadeza e contemplação e Lionel Barrymore no papel do patriarca McCanles, um dos mais poderosos do longa. Jennifer Jones começa afetada e nada convincente, mas ganha espaço e termina a fita entregando uma interessantíssima atuação. Dos protagonistas, o único insatisfatório é Joseph Cotten, que parecia não estar gostando nada de trabalhar no filme, tamanha a sua cara insossa em todas as cenas que aparece.

A complexa relação entre Pérola e Lewt é um espinho no roteiro do filme. Ela foi concebida para ser daquele jeito, odiosa e avassaladora, como um amor proibido que nenhum dos dois lados tinha coragem ou vontade de aceitar, mas esse palco trágico tornou o western um misto estranhíssimo de épico realmente parecido com …E O Vento Levou (unicamente nesse ponto) e histórias dos grandes ranchos a oeste do Mississippi, com toques de Union Pacific story — talvez a sequência mais deslocada de toda a obra –, tendo um único ponto positivo como consequência a longo prazo: a belíssima cena do Senador McCanles e seu amigo conversando sobre Jesse. A música de Dimitri Tiomkin é sutil nesse momento da história e a fotografia está em grande saturação de vermelho, ressaltando um pôr-do-sol que traz a remissão para o velho patriarca, um momento emocionante e esteticamente muito bonito.

Toda a grandiosidade de Duelo ao Sol não gera um filme essencial ou uma obra-prima, apenas um bom filme sem unidade de concepção. Isso só é possível porque, mesmo desconexos, alguns desses blocos são muito bem realizados e a reta final do filme recebe um ótimo trabalho de direção de William Dieterle, algo que prende e fascina o espectador tanto pela boa finalização através da montagem quanto pelo equilibrado ritmo interno que Dieterle imprimiu às tomadas. No entanto, Duelo ao Sol é também um western de caráter dramalhão que apela para o gosto mais comum e ralo do público (Selznick sabia manipular isso muito bem), um outro lado da moeda cujo resultado nos leva para o exagero citado no início do texto e nos coloca nas trincheiras entre aqueles que amam e odeiam o filme. Um verdadeiro duelo ao sol do cinema.

Duelo ao Sol (Duel in the Sun) – EUA, 1946
Direção:
King Vidor (com algumas sequências não creditadas mas dirigidas por Otto Brower, William Dieterle, Sidney Franklin, William Cameron Menzies, B. Reeves Eason, Hal C. Kern, David O. Selznick e Josef von Sternberg).
Roteiro: David O. Selznick, Oliver H.P. Garrett, Ben Hecht (baseado no romance de Niven Busch).
Elenco: Jennifer Jones, Joseph Cotten, Gregory Peck, Lionel Barrymore, Herbert Marshall, Lillian Gish, Walter Huston, Charles Bickford, Harry Carey, Joan Tetzel, Tilly Losch, Butterfly McQueen
Duração: 129 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.