Crítica | Duelo Silencioso

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estrelas 3,5

Akira Kurosawa já havia trabalhado com um tema ligado à medicina em O Anjo Embriagado (1948), filme onde abordava a relação complicada entre um médio alcoólatra e um membro da Yakuza que sofria de tuberculose. O cenário ali era o Japão  pós-guerra, algo recorrente nos filmes do diretor durante os anos 1940. Essas mesmas características centrais e temáticas também podem ser encontradas em Duelo Silencioso (1949), filme de conteúdo mais delicado que o seu predecessor, mas com um apuro estético e finalização um pouco aquém, muito embora ainda se sagre como um bom filme do mestre japonês e nos traga ótimos momentos entre os astros Takashi Shimura e Toshiro Mifune.

Adaptação de uma peça de Kazuo KikutaDuelo Silencioso traz a história do jovem médico Kyioji Fujisaki, que durante seu serviço militar na Segunda Guerra é contaminado por um paciente numa delicada operação. A cicatriz em seu dedo não é maior que a cicatriz em sua alma, que com o passar dos anos, murcha e se se afoga em culpa e desejo. O filão psicanalítico que se apresenta para analisar o filme é realmente grande, especialmente na reta final, quando temos uma incrível interpretação de Mifune ao confessar seus anseios e o autocontrole que sempre se obrigou a ter para não propagar sua doença para outras pessoas.

Embora possamos perceber os reflexos da guerra no filme, seja nas poucas tomadas externas, seja na condição de vida paupérrima de alguns personagens, o foco central do roteiro está mais próximo do núcleo familiar do indivíduo, das paixões e privações do Ser. Podemos até entendê-lo como uma obra de investigação da alma de um homem que luta para sobreviver e se priva de aproveitar a vida como qualquer pessoa ‘normal’. Vê-se a angústia inerente ao personagem condenado a tal situação. A sublimação de Kyioji é a sua dedicação extrema ao trabalho, e isso modifica as pessoas ao seu redor, como a enfermeira-aprendiz que passa por uma enorme mudança; além de lhe dar um grande reconhecimento entre seus pacientes e em toda a cidade. Neste ponto, vale a pena ressaltar uma frase proferida por seu pai em um diálogo do filme: “se Kyioji não fosse triste talvez seria um esnobe.”.

Kurosawa retira o melhor de seu elenco de atores e a dupla Shimura-Mifune dá um verdadeiro show de interpretação, especialmente Mifune, que passa por uma transformação interessante durante a obra mas mantém o seu lado calmo e distante, como se pouca coisa o afetasse. A composição de seu personagem é terna a maior parte do tempo, e quando não consegue segurar o que sente, explode em um monólogo doloroso, filmado com muita competência por Kurosawa, que já mostra quase amadurecida a sua proposta de uso pleno do cenário, algo que seria coroado em 1957, com Os Sete Samurais, momento a partir do qual ele passa a usar pelo menos duas câmeras durante as filmagens.

O que talvez deixe muitos espectadores ressabidos em relação à forma deste filme é a montagem e o modo como ele termina. No primeiro caso, Masanori Tsujii tentou fazer com que a dinâmica do teatro fosse trazida para o cinema da maneira menos óbvia possível, mas as suas transições não agradam muito e chegam a incomodar em certo ponto. Quanto ao ritmo externo do filme, não temos muitos problemas, até porque, internamente, ele também não oferece espaço para erro, dado o extremo rigor de Kurosawa durante as filmagens das cenas.

A trilha sonora de Akira Ifukube não é tão sentida e chega a passar ao largo muitas vezes, cumprindo pouco o seu papel de identificação psicológica e de marcação pontual em algum momento do filme. Sôichi Aisaka se sai melhor na fotografia (talvez com um tantinho de exagero no hard light, mas só em poucas cenas), e compôs planos lindíssimos como a inesquecível e lírica cena em que Misao vai embora e vemos ao fundo a paisagem composta de escombros da guerra (o filme se passa entre 1942 e 1946), a neve caindo sobre a paisagem e a jovem trajando um belo figurino, levando seu guarda-chuva e afastando-se da porta. Uma constituição de quadro simplesmente deslumbrante.

Vencedor do Mainichi Film Concours de Melhor Ator para Takashi Shimura (também recebido por sua atuação em Cão Danado, 1949), Duelo Silencioso é um filme sobre um homem que se fecha para uma parte do mundo porque não consegue lidar com uma situação pessoal adversa. Mais um Raio-X da alma humana realizado pelo Mestre Kurosawa.

Duelo Silencioso (Shizukanaru kettô) — Japão, 1949
Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Akira Kurosawa, Senkichi Taniguchi (baseado na peça de Kazuo Kikuta)
Elenco: Toshirô Mifune, Takashi Shimura, Miki Sanjô, Kenjirô Uemura, Chieko Nakakita, Noriko Sengoku, Jyonosuke Miyazaki, Isamu Yamaguchi, Shigeru Matsumoto, Hiroko Machida, Kan Takami, Kisao Tobita, Shigeyuki Miyajima, Tadashi Date, Etsuko Sudo
Duração: 95 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.