Crítica | Dumbo (1941)

Você está voando! Você está voando!

A história de um elefante voador começa no início da década de 40, com Fantasia, obra de arte incontestável, gastando uma quantia assombrosa para sua realização. O estúdio de animação de Walt Disney, portanto, precisava devolver um pouco de dinheiro para seus cofres, recuperar a perda financeira causada pela produção anterior. Assistindo ao resultado dessa investida, não há como dizer que isso não foi feito de uma forma espetacular. Dumbo teria tudo para ser um filme pequeno, se comparado aos grandes clássicos. Com apenas 64 minutos, este é um dos longas-metragens de menor duração da longínqua carreira cinematográfica da empresa – o barateamento dos custos é uma das principais causas disto. Para valores de comparação, seu orçamento foi um terço do de Pinóquio, lançado um ano antes. A memória que as pessoas e o mundo têm desta obra não poderia exemplificar melhor o grande sucesso que foi essa empreitada, com um interesse comercial forte, mas também com um charme mágico que apenas a Disney poderia nos agraciar. Além de subverter a ótica do pequeno, Dumbo tornou-se um grande clássico. Tão grande quanto as suas orelhas, é o carinho do mundo por ele.

Talvez o maior segredo de se poder avaliar Dumbo nos dias de hoje é o acesso que nós temos à memória coletiva. Há mais de setenta anos atrás não saberíamos dizer o quanto inesquecível essa história, originalmente escrita por Helen Aberson e Harold Pearl, seria. Hoje, já é muito mais fácil. Contudo, certamente poderíamos dizer que esta era uma história apaixonante e espirituosa, com algo muito além de sua camada superficial. A jornada de um bebê elefante com orelhas maiores do que o normal, relegado ao papel de palhaço em um circo, é extremamente icônica. Aliada a isso, a mãe do bebê, a Sra. Jumbo (Verna Felton), é uma figura verdadeiramente amável, sendo uma forte representação do amor materno. Entrelaçado entre os dois está uma relação muito tocante, distanciada após o contra-ataque da Sra. Jumbo a garotos que ridicularizavam seu filho. Esta história, porém, continua em ambos os corações, graças ao belíssimo trabalho de animação e de roteiro. Dessa forma, é perceptível a relação do espectador com Dumbo em termos dramáticos, garantindo uma associação quase materna do público com o longa. Dumbo representa amor, um ponto, portanto, inesquecível na trajetória de um ser humano.

Adiantando um pouco o enredo, temos uma sequência que transpõe perfeitamente o porquê de ser impossível não se emocionar com Dumbo. O elefante finalmente tem a chance de reencontrar sua mãe, mas as grades de sua “cela” impedem que o contato seja integral. Apenas a tromba da Sra. Jumbo consegue confortar seu pequeno, muito triste pela ausência de sua protetora. Mesmo assim, aquele momento tão simples pode devastar qualquer um pela sua ambiguidade, tão bela quanto triste. Retomando o aspecto da memória coletiva, é um consenso que esta cena seja uma das grandes fomentadoras de lágrimas na história do cinema. Em um filme pouco lembrado pelas suas canções (a maior parte bem alegres, assoviáveis, remetentes a um espírito circense, mas pouco memoráveis), Baby Mine é realçada pela interpretação emotiva de Betty Noyes. Além disso, muito dos momentos entre os dois, os quais invocam o carinho mútuo que mãe sente por filho e vice-versa, é engrandecido por um trabalho de animação que encontra um dos seus ápices – ou, na realidade, uma das suas exceções de qualidade – na transposição de sentimentos.

Nestes termos técnicos, os olhos de Dumbo (nome utilizado para zombar do menino que se chama realmente Jumbo Júnior) são bastante expressivos, apesar da qualidade técnica do trabalho no filme não ser das mais relevantes da empresa. Muito pelo contrário, alguns animais não são tão bem ilustrados, enquanto percebe-se facilmente que o cenário de certos planos estão mal-acabados, ainda mais se comparados com as imagens que se posicionam à frente deles. Comparando com Fantasia e até mesmo Pinóquio, é bem difícil enaltecer o esmero artístico de Dumbo tanto quanto enaltecemos o restante de sua composição – a verdadeira responsável pela imortalidade do longa-metragem. Dessa forma, é difícil coordenar o sucesso do filme com a sua respectiva qualidade técnica, mas há uma única – e grande – exceção, tornando-se momento clássico entre vários outros das animações dos estúdios. Mesmo com o orçamento limitado, os animadores trouxeram uma das sequências mais imagéticas das animações: o psicodélico segmento dos elefantes rosa. Assustadora para crianças pequenas? Muito provavelmente. Inesquecível? Definitivamente.

Por outro lado, os 64 minutos de duração do conjunto tem um efeito negativo sobre a obra – mais um consequência problematizada devido o baixo orçamento. A conclusão da peça é muito apressada, parecendo que os roteiristas não foram permitidos ou não permitiram-se elaborar mais o final da obra. De fato, a montagem entre os segmentos não é a mais orgânica possível, soando como esquetes difusas, embora amarradas por um eixo narrativo (a única exceção é a excepcional sequência dos elefantes coloridos citada, que se encaixa perfeitamente com a sua cena consequente). Mas o filme, por outra via, entra em seus minutos finais parecendo que vai durar mais, algo que não é concretizado, infelizmente. O momento da revelação de Dumbo para o mundo vem logo depois de seu primeiro voo, sem muita preparação dramática para que sejamos completamente carregados emocionalmente. Sendo assim, é notável como a alegria de Timóteo (Edward Brophy), ratinho que faz amizade com o protagonista, é a mesma de um momento para o outro, soando quase redundante. Da mesma forma, o reencontro entre filho e mãe pede por mais tempo, mas falta dinheiro para os animadores possam cedê-lo.

Outrossim, se o tempo nos mostra o quão Dumbo não consegue sair da cabeça das pessoas, ele também realça algumas características difíceis de trabalhar passivamente. A memória coletiva, nesse caso, faz questão de esquecer partes de um todo extremamente problemáticos, criticáveis sob um ponto de vista anacrônico, mas necessário. O quarta longa-metragem da Disney possui estereótipos afro-americanos claros na apresentação de seu grupo de corvos. A fala e os trejeitos, todo o comportamento na realidade, remetem a visualizações preconceituosas. Ao menos, os corvos podem ser categorizados como os personagens mais “gente boa” do filme. Mas isso é suficiente para se justificar a atitude? Eu não estaria falando desse aspecto do filme se ninguém tivesse se ofendido. A questão é que a defesa do filme se desmorona por completo quando percebe-se que o nome do protagonista desse grupo, pelo menos no roteiro, é Jim Crow (Cliff Edwards), uma clara referência às leis segregacionistas do sul dos Estados Unidos, além de uma forma pejorativa de se referir aos negros – definitivamente, o racismo era uma constante da empresa em seus primórdios, caminhando em outros exemplos, como Peter Pan.

Em um último plano, fora tudo comentado, é incrível como o protagonista Dumbo, sem ter uma única linha de diálogo, tornou-se um dos símbolos mais reconhecíveis da Disney. Nesse ponto, a figura de Timóteo acaba sendo um pouco enfraquecida quando comparada com a de outro personagem consideravelmente semelhante, o Grilo Falante, um dos maiores símbolos do estúdio. Tal histórico o filme por si só não justifica, visto que Timóteo é um coadjuvante muito divertido e amistoso, mais complexo ainda quando percebemos seus interesses dúbios com Dumbo. Tanto quer ajudar seu amigo quanto quer ganhar espaço no entretenimento. No mais, falando em humor, um destaque ao trem do circo, o qual ganha uma personificação muito bem vinda, rendendo uns momentos de comicidade bem no estilo das animações clássicas dos anos 30 e 40. Dumbo, enfim, é uma obra que pode ser interpretada e revista sobre diferentes óticas e, mesmo que algumas delas não encarem o filme em toda a sua grandiosidade, é certamente um prazer revê-lo tanto tempo depois. É um emocionante e absoluto espetáculo de Walt Disney, certamente e merecidamente inesquecível. Um dos definidores de clássico.

Dumbo — EUA, 1941
Direção: Samuel Armstrong, Soman Ferguson, Wilfred Jackson, Jack Kinney, Bill Roberts, Bem Sharpsteen, John Elliotte
Roteiro: Joe Grant, Dick Huemer
Elenco: James Baskett, Herman Bing, Billy Bletcher, Edward Brophy, Jim Carmichael, Hall Johnson Choir, Cliff Edwards, Verna Felton, Noreen Gammill, Eddie Holden, Sterling Holloway, Betty Noyes
Duração: 64 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.