Crítica | Duna (1984)

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estrelas 3,5

A gigantesca magnus opus sci-fi de Frank Herbert, lançada em 1965, cria um universo muito particular, cheio de detalhes e de história pregressa que exige até mesmo um glossário ao final para que os leitores não se percam com expressões como gom jabbar, Bene Gesserit, Kwisatz Haderachsardaukar e dezenas (centenas?) de outras que ganham significado meticuloso e preciso. Herbert, ao criar o universo de Duna, que, no total, conta com sete livros – e aqui só estou contando os que foram originalmente escritos pelo autor, pois há outros ainda – faz o que os maiores autores de fantasia e ficção científica costumam fazer: nos oferecer uma experiência complexa, imersiva e, no final, extremamente recompensadora.

E é justamente por isso que a adaptação cinematográfica do primeiro livro da série de Herbert precisa ser vista com o máximo de distanciamento da obra original. Afinal, simplesmente não há como a complexidade marcante da obra de Herbert ser transposta para qualquer tipo de obra audiovisual, por mais longa que seja. Espremer esse material dentro de pouco mais de duas horas (ou pouco menos de três horas na versão estendida) é uma tarefa ingrata, especialmente se lembrarmos que a produção de Duna (o filme) vinha sendo “construída” desde 1971, quando os direitos foram adquiridos por Arthur P. Jacobs, que faleceu logo depois, sendo assumidos pelo francês Jean-Paul Gibon que tinha Alejandro Jodorowsky com diretor (há até um fascinante documentário sobre o lisérgico Duna de Jodorowsky, que contava com Pink Floyd e H.R. Giger só para vocês terem uma ideia). Mas foi somente em 1976, com o envolvimento do mítico produtor Dino De Laurentiis é que a coisa começou de verdade a andar novamente, com a contratação inicial de Ridley Scott.

Óbvio que tudo deu errado e, graças a seu O Homem Elefante, David Lynch chamou a atenção de Raffaella de Laurentiis, quando os direitos de Duna estavam para expirar. A correria para produzir a obra começou, de maneira a evitar que os direitos se perdessem e Lynch, que não conhecia os livros e não se interessava por ficção científica, concordou não só em dirigir com em escrever o roteiro.

Em outras palavras, as circunstâncias – do material fonte à conturbada produção, passando pela improvável escolha de diretor e pelo corte original de quatro horas que foi reduzido para duas por ordem da Univeral – conspiraram contra Duna e o resultado foi sua destruição pelos críticos e  sua ojeriza pelos fãs da série literária. Mas Duna definitivamente não é essa desgraça toda que pintam por aí. Ao contrário até. Há muito o que se apreciar, mesmo que o resultado final seja melhor caracterizado com uma cara bagunça.

De maneira a introduzir conceitos de forma econômica, Lynch cometeu um dos pecados capitais da Sétima Arte: ele dependeu fortemente de diálogos expositivos. O primeiro dele, falado pela “cabeça voadora” da Princesa Irulan (Virginia Madsen), filha do Imperador Padishah Shaddam IV (José Ferrer), estabelece a existência da especiaria, uma substância necessária para a dobra espacial e que é somente produzida no planeta desértico Arrakis, mais conhecido como Duna. Em seguida, somos jogados para outra cena expositiva em que uma estranha criatura, emissário do Spacing Guild (responsável pelas viagens espaciais) tem uma audiência com o Imperador e já de antemão aprendemos – só com base em diálogos – que o Imperador, junto com a Casa Harkonnen, tramam para assassinar o Duque Leto Atreides (Jürgen Prochnow), da Casa Atreides, ao passo que o ser gigante pressente que é o filho do duque, Paul Atreides (Kyle MacLachlan), que pode trazer problemas e, ato contínuo, ele pede seu assassinato. Tudo é entreouvido telepaticamente pela Reverenda Madre Gaius Helen Mohiam (Siân Phillips), da ordem Bene Gesserit, da qual a mãe de Paul, Jessica (Francesca Annis) faz parte e que, então, sai para testar o jovem, para descobrir se ele pode ser o messias, o chamado Kwisatz Haderach.

Confuso? Bem, se você não leu os livros, você tem que estar. Lynch, apesar de esmagar o espectador sob o peso de longos diálogos expositivos, narrativas em off e “pensamentos” dos personagens, ainda assim faz o clássico bombardeio de jargão específico do livro sem contexto, sem realmente explicar cada um deles. Com isso, ao tentar explicar, ele torna as águas ainda mais turvas e quebra o ritmo da narrativa com momentos em que ele quase que literalmente olha para nós e para tudo para explicar o que aconteceu ou o que acontecerá.

O hermetismo da obra original e a confusão da produção foram dois elementos-chave para esse resultado, mas Lynch, inserindo o máximo da mitologia de Duna no filme – e literalmente todas as expressões fantásticas criadas por Herbert – tenta respeitar o original esquecendo-se do público como um todo. Assim, os 137 minutos de projeção são sim cambaleantes em razão da estrutura narrativa imposta por Lynch.

No entanto, essa foi uma escolha do diretor e roteirista. Ele optou por assim fazer de maneira a trabalhar com proximidade ao material fonte e trazer um semblante de fidelidade. Sua escolha consciente não o exime das falhas, mas Lynch, sendo quem é, explica ao menos sua tentativa de absorver e transmitir o máximo da obra de Frank Herbert. Muitos alegam que George Lucas fez o mesmo – mas com sucesso – em Star Wars, mas isso não é verdade, pois as expressões e conceitos expostos na saga de fantasia de Luke Skywalker são, no frigir dos ovos, familiares ao público em geral. O misticismo da Força não se compara ao misticismo das Bene Gesserit. As viagens na velocidade da luz de Han Solo não têm paralelo com as dobras espaciais causadas pela fumaça laranja da especiaria de Arrakis, que deforma e transcende seus usuários. O sabre de luz é lindo, mas não tem as camadas interpretativas que a Voz permite.

Acontece que a alienação que ele causa em razão do roteiro jamais deveria ser causa suficiente para o espectador simplesmente balançar a cabeça em sinal de desapontamento pelo resultado final. Duna é, sem sombra de dúvida, um triunfo visual, especialmente se considerarmos que se trata de um filme pré-CGI, que depende de efeitos práticos, cenários e sobreposições de imagens para alcançar o que hoje bits e bytes fazem mil vezes melhor (ou pelo menos tentam). Os efeitos visuais e o design de produção são cuidadosos, detalhistas e assombrosos, na verdade.

E tudo isso vem carregado pela fotografia de Freddie Francis, que já trabalhara com Lynch em O Homem Elefante, além do preciso design de produção de Anthony Masters, um membro da tríade responsável por esse departamento em nada menos do que 2001 – Uma Odisseia no Espaço. Esses dois elementos nos apresentam a um universo sombrio, cujas luzes vêm, unicamente, do sol escaladante e mortal de Arrakis ou da corte imperial czarista do Imperador, com seus dourados falsos e igualmente mortais. A luz, em Duna, significa morte. A escuridão, por  outro lado, significa vida. Desde o planeta original da Casa Atreides – brindado por oceanos – que é retratado sempre com interiores pesados e exteriores à noite, passando pelos horríveis membros da Casa Harknonnen (Sting é um deles!) que se vestem com figurinos escuros, mas cuja violenta e nojenta cena de introdução do Barão Vladimir Harkonnen (Kenneth McMillan) acontece em ambiente muito iluminado e pelo povo nômade do planeta Duna, os fremen, espartanos por natureza, precisos em sua vida nos poucos oásis da vastidão desértica do local.

Além disso, o trabalho de Francis transita muito bem entre planos gerais magníficos que estabelecem a ação e planos mais fechados e alguns close-ups que passam exatamente o que os personagens sentem (outro aspecto que torna desnecessário o exagero de narração de Lynch). A montagem de Antony Gibbs (Uma Ponte Longe Demais) lida de maneira eficiente com as esparsas cenas de combate – basicamente os dois grandes ataques que acontecem no começo e no final do filme – e brilha ao trabalhar com precisão a sequência da “cavalgada” dos vermes de areia.

A trilha sonora, a encargo de Toto, é majestosa e bonita, transmitindo, a cada nota, a melancolia de Paul Atreides e a inevitabilidade de seu futuro como Paul Muad’Dib, o messias, mas não o messias previsto pelas Bene Gesserit e sim o libertador do povo fremen e de Duna, que, de certa forma, funciona como uma alegoria ao colonialismo de exploração comum em séculos passados por aqui. Além disso, a trilha ajuda a amplificar e pontuar os paralelos religiosos constantes ao contrastar notas eletrônicas com clássicas, de maneira a demonstrar o embate entre ciência e religião, entre fato e mito.

Duna é um filme muito falho, não há dúvidas disso. No entanto, é um daqueles filmes que deslumbram e aguçam a curiosidade. É um triunfo visual atrapalhado por uma narrativa expositiva que, inexplicavelmente, funciona.

*Crítica originalmente publicada em 14 de dezembro de 2014. Revista e alterada para republicação.

Duna (Dune, EUA – 1984)
Direção: David Lynch
Roteiro: David Lynch (baseado em romance de Frank Herbert)
Elenco: Kyle MacLachlan, Francesca Annis, Brad Dourif, José Ferrer, Freddie Jones, Richard Jordan, Virginia Madsen, Kenneth McMillan, Everett McGill, Kenneth McMillan, Siân Phillips, Jürgen Prochnow, Paul L. Smith, Patrick Stewart, Sting, Dean Stockwell, Max von Sydow, Alicia Witt, Sean Young
Duração: 137 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.