Crítica | Dunkirk

estrelas 5,0

A Segunda Guerra é praticamente uma fonte eterna para obras audiovisuais, com inúmeros diretores de renome já tendo explorado suas muitas facetas, seja focando no heroísmo dos combatentes aliados, como em O Resgate do Soldado Ryan e Band of Brothers,  ou em relatos mais íntimos como A Lista de SchindlerA Queda! As Últimas Horas de Hitler. No meio de tantas produções, são poucos os realizadores que abordam o aspecto da sobrevivência em si, dispensando grandes discursos heroicos ou diálogos motivacionais. Em Dunkirk, Christopher Nolan dispensa justamente tais elementos, criando um drama extremamente real e angustiante.

O diretor britânico já inicia seu longa-metragem nos dando um vislumbre do que estaria por vir. Um grupo de soldados percorrem as ruas de Dunquerque, no norte da França, quando começam a ser alvejados pelas forças inimigas. Em momento algum vemos os nazistas, apenas ouvimos seus tiros e enxergamos os aliados caindo um a um. Sobrevive apenas Tommy (Fionn Whitehead), um dos personagens cujo ponto de vista acompanhamos nessa jornada. O que há de diferente nessa sequência da grande maioria dos filmes de guerra por aí? O simples fato de que não existe vilanização, apenas a angústia que nos preenche enquanto torcemos para que os soldados ingleses sobrevivam, algo que se mantém ao longo da projeção.

Nolan continua a fugir do óbvio ao não focar exclusivamente nesse sobrevivente, que pouco depois chegaria à praia lotada de soldados britânicos, ansiando pela evacuação. A obra passa a nos mostrar, então, mais dois outros pontos de vista. Um deles girando em torno do piloto Farrier (Tom Hardy), cuja missão é abater bombardeiros inimigos, permitindo, portanto, que os combatentes batam em retirada. O terceiro foco nos mostra o sr. Dawson (Mark Rylance), civil, dono de um pequeno barco com destino à Dunquerque para ajudar na extração das tropas. Dessa forma, o realizador compõe o cenário e sua obra, nos oferecendo olhares sobre a terra, o mar e o ar, todos cruciais para o entendimento desse drama de Dunquerque.

De início, tal escolha narrativa soa estranha, até mesmo arriscada por parte do diretor. Somos distanciados de uma única figura nesse conflito para acompanhar outras que ainda não sabemos ao certo como irão se encaixar em toda a história. Essa questão é ainda agravada pelo fato de que essas três linhas narrativas se desenvolvem em tempos distintos, mesmo passando a impressão de que tudo acontece simultaneamente. Com o passar do tempo, porém, a intenção de Nolan se torna clara: evidenciar toda a luta pela sobrevivência e como diversos aspectos contribuíram para o desfecho. Pouco a pouco esses focos começam a dialogar mais entre si e não podemos deixar de nos sentir aflitos com os acontecimentos em cada um desses lados da trama.

Enxergamos, portanto, um dos grandes trunfos de Dunkirk: seu diretor e roteirista não nos permite relaxar a qualquer momento, colocando-nos lado-a-lado com os soldados aflitos pela possibilidade de jamais serem resgatados. Enquanto um raio de esperança brilha para aqueles que esperam a evacuação, outra fonte de tensão é inserida no arco narrativo do piloto, por exemplo, criando, dessa forma, inúmeras quebras de expectativas que nos fazem sentir tão desolados quanto aqueles homens na praia, à mercê da sorte de não serem atingidos pelos constantes bombardeios de aviões alemães.

Dito isso, a obra gradualmente configura-se como a história de todas essas pessoas como um conjunto, mesmo que foque em um grupo seleto de indivíduos. Esses três personagens de destaque passam a, claramente, representar os diferentes lados desse momento histórico, algo deixado bem claro pelas sucessivas tentativas de Tommy em escapar. O mais impressionante é como todos eles soam completamente humanos e não aquelas figuras geralmente pintadas em filmes de guerra, que mais se assemelham a heróis de uma epopeia grega do que uma pessoa de verdade. Dificuldade é uma das palavras que melhor definem esse longa-metragem, com seu diretor mostrando que nada do que está acontecendo ali é fácil – seja acertar um avião inimigo ou simplesmente entrar em um navio para escapar daquele inferno. Atos de heroísmo são substituídos por ações humanas, que ganham mais mérito por soarem como feitos de alguém que verdadeiramente suou, tremeu de medo e sangrou e não por um invencível astro de filme de ação.

A beleza de Dunkirk, portanto, não está em contemplar o épico e sim a fragilidade humana, seja física ou emocional, fragilidade essa que já deveria ser o suficiente para evitar qualquer um desses conflitos. Claro que Nolan não deixa de nos embasbacar com sua direção, vide os magistrais conflitos aéreos ou as agoniantes sequências no interior do navio. De fato, medo e claustrofobia são constantes que compõem essa visão do diretor, que utiliza muito do som fora de tela para gerar a tensão, bem intercalando tais “terrores”, como o som de um avião se aproximando, com silêncios bem demarcados. Não temos, aqui, constantes explosões, como costumamos ouvir em obras do gênero – tais estouros (literais ou metafóricos) se fazem presentes nos momentos certos, cortando a nossa tranquilidade e a dos indivíduos esperando o resgate, ou dos pilotos percorrendo os céus “serenamente” até se depararem com um inimigo.

Hans Zimmer, novamente ao lado de Nolan em um de seus filmes, nos entrega seu melhor trabalho em anos, ajudando na construção dessa insólita atmosfera. Com constantes crescendos e percussão em evidência, o compositor nos faz nos sentir como em uma constante corrida contra o tempo em que a recompensa é a sobrevivência. Zimmer corta os planos abertos de Nolan, transformando o céu azul em fonte de tensão, com melodias que se disfarçam de efeitos sonoros, mimetizando sirenes e sons de hélices de aviões, brincando com nossas expectativas a todo e qualquer instante.

Com isso, Christopher Nolan constrói um retrato íntimo e desolador sobre a guerra, por mais que dê pinceladas de esperança ao fim. Esse não é um filme sobre quem ganha ou quem perde, o que há por trás de tais conflitos ou quem é herói e quem é vilão. Essa é uma obra sobre pessoas tentando sobreviver e, claro, tudo o que foi feito para assegurar que tais soldados pudessem retornar às suas casas. Profundamente diferente da grande maioria dos filmes de guerra que vemos por aí, Dunkirk certamente se configura como um dos, se não o melhor longa-metragem de seu diretor. Uma verdadeira obra-prima.

Dunkirk — Reino Unido/ Países Baixos/ França/ EUA, 2017
Direção:
Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan
Elenco: Fionn Whitehead, Damien Bonnard, Aneurin Barnard, Lee Armstrong, Barry Keoghan, Mark Rylance, Tom Hardy, Jack Lowden, James D’Arcy, Cillian Murphy,  Harry Styles, Kenneth Branagh
Duração: 106 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.