Crítica | Dupla Explosiva

estrelas 2,5

Obras que, de maneira quase metalinguística, brincam com seus próprios gêneros, têm se tornado cada vez mais comuns em Hollywood, rendendo-nos Kingsman: Serviço Secreto como perfeito exemplar disso. Não estamos falando de paródias, que, essencialmente, são filmes de comédia, mas sim filmes de ação, por exemplo, com boas doses de humor, que funcionam perfeitamente como homenagens aos clássicos que referenciam. Dupla Explosiva faz exatamente isso, herdando de obras como Máquina Mortífera (mesmo estando longe de um filme policial), Carga Explosivadentre outros, para construir essa premissa de um assassino de aluguel com um segurança pessoal.

A trama nos situa no meio de uma crise política na Bielorrússia, que teve o seu cruel ditador, Vladislav Dukhovich (Gary Oldman), deposto pelo povo. O julgamento do ex-líder, porém, não caminha para a sua condenação, visto que não existem provas que o incriminem de fato. A única esperança é o testemunho do assassino de aluguel, Darius Kincaid (Samuel L. Jackson), que deve ser transportado do Reino Unido para o tribunal internacional em Haia. Quando o comboio que levava a testemunha ao local é atacado, a agente da Interpol, Amelia Roussel (Elodie Yung) pede a ajuda de Michael Bryce (Ryan Reynolds), que cuida da segurança de alvos importantes, para que esse escolte Kincaid em segurança até o tribunal.

O roteiro de Tom O’Connor, em seu segundo trabalho como roteirista, estabelece uma premissa bastante básica, porém funcional, que, imediatamente, já nos mostra tudo o que está em jogo, definindo, portanto, a importância dessa missão que acompanhamos. O grande problema é que O’Connor não sabe utilizar tal simplicidade para desenvolver seus personagens, mantendo-os como figuras rasas, unidimensionais, movidos exclusivamente por um aspecto crucial de suas existências. Esse aspecto, claro, contribui para a extrema previsibilidade do longa-metragem, que não guarda sequer uma surpresa para o espectador – a partir do momento que Bryce e Kincaid, finalmente, se juntam, já sabemos tudo o que acontecerá.

Felizmente, Samuel L. Jackson e Ryan Reynolds conseguem nos divertir do início ao fim, com seus personagens constantemente alfinetando um ao outro. Sem qualquer ajuda do texto, os dois atores apresentam uma boa química, essa que funciona para nos manter atentos, muito embora a narrativa vá nos cansando cada vez mais, tanto pela previsibilidade, quanto pela sua longa duração, beirando as duas horas. Essa extensão é claramente provocada pelo excesso de sequências de ação, todas muito parecidas umas com as outras, por mais que não escondam muito a violência, utilizando-a de maneira a criar o humor. Isso, claro, nos faz ansiar por momentos de cômicos diálogos entre os dois personagens centrais da obra.

Ao menos a direção de Patrick Hughes não cai no velho problema dos cortes em excesso e câmera muito próxima e tremida, permitindo que entendamos o que está acontecendo em tela. Ironicamente, a já mencionada ausência de novidade, porém, faz desse um filme que não há muito o que se ver, de verdade. Não ajuda, também, o fato de que a montagem não sabe muito bem se decidir entre focar exclusivamente em um personagem ou alternar constantemente entre eles, causando um belo estranhamento no espectador. As sequências com Bryce e Kincaid separados são uma verdadeira bagunça e, em geral, longas demais, fazendo-nos ter completa consciência do tempo de duração da obra.

Dupla Explosiva, mais um exemplar de traduções genéricas de bons títulos, portanto, não foge do comum, entregando-nos uma comédia divertida, mas que nos cansa muito antes de chegarmos ao seu fim. Com um roteiro simplista, que não sabe se aprofundar em seus personagens e sequências de ação nada memoráveis, a obra se sustenta quase que exclusivamente em seu elenco. Mesmo Samuel L. Jackson e Ryan Reynolds juntos não são capazes de tornar esse filme em algo mais que puramente esquecível.

Dupla Explosiva (The Hitman’s Bodyguard) — EUA/ China/ Bulgaria/ Países Baixos, 2017
Direção: Patrick Hughes
Roteiro: Tom O’Connor
Elenco: Ryan Reynolds, Samuel L. Jackson, Gary Oldman, Elodie Yung, Roy Hill,  Richard E. Grant, Rod Hallett, Yuri Kolokolnikov
Duração: 118 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.