Crítica | Dupla Identidade (A Série Completa)

estrelas 4

Ao desenvolver o roteiro da série Dupla Identidade, produto televisivo exibido entre setembro e dezembro de 2014, a escritora Glória Perez, conhecida por seus trabalhos melodramáticos na Rede Globo, enfrentou um dos maiores desafios no campo da escrita criativa contemporânea: lançar algo relativamente “original” dentro de um sistema de produção saturado de tantas narrativas que insistem em abordar o modus operandi de sedutores assassinos em série.

Neste processo criativo a autora conseguiu bons resultados. Apesar da sensação de estar diante de uma possível colcha de retalhos de séries estadunidenses, há pontos essencialmente brasileiros que tornam Dupla Identidade uma atração diferenciada. Só pelo fato dos episódios fugirem do famigerado estereótipo do Rio de Janeiro ensolarado, de mulheres sensuais e rodas de samba, a série demonstra que o interesse é elevar o drama televisivo nacional.

Sem promessas de beijos gays, famílias de classe média em crise e outros temas comuns aos produtos da televisão aberta brasileira, Dupla Identidade foca as suas atenções no lado obscuro de um personagem que pode muito bem ser aquele vizinho simpático que mora bem ao lado do nosso apartamento, ou até mesmo, aquele colega de trabalho gentil, dono de um belo sorriso, mas que nas horas vagas, elimina mulheres cruelmente, como se estivesse produzindo uma obra de arte. Estamos falando de Edu, interpretado magistralmente pelo elegante Bruno Gagliasso, ator que precisou realizar alguns testes para convencer a equipe de produção sobre a sua capacidade para dar conta do personagem.

Edu é um rapaz ambicioso, como qualquer jovem da sua idade. Mora em um apartamento simplório, possui um carro pouco sofisticado, mas consegue ganhar a atenção das mulheres por conta da sua beleza e simpatia. Em seu currículo, ainda há um trabalho social realizado em uma ONG, responsável por atender pessoas à beira da morte, supostos maníacos depressivos que estão com a vida por um fio, com perdão do trocadilho. Através destas ligações, Edu já salvou muitas vidas, entretanto, ao passo que a série foca em sua dimensão psicológica, somos expostos ao outro lado da coisa: ao estilo O Médico e o Monstro, o rapaz captura mulheres depois de encontros fortuitos, assassinando-as e largando o corpo em pontos diversos do Rio de Janeiro.

Será assim que ao longo dos 13 episódios, o delegado Dias (Marcelo Novaes) e a psicóloga forense Vera (Luana Piovani) serão os antagonistas do sedutor psicopata, num processo bem parecido com as narrativas policiais que assistimos desde a glamourização da psicopatia na década de 1990, num ritmo muito similar ao ótimo O Silêncio dos Inocentes, salva as devidas proporções, obviamente. As referências ás séries estadunidenses são explícitas, mas não chegam a ofuscar o andamento da narrativa.

Como todo material seriado, a narrativa investe em tramas paralelas que preenchem alguns espaços dramáticos e ilustram as dimensões dos personagens principais. Do lado de Edu, que mais adiante, iremos descobrir ser Brian, um rapaz que também havia cometido crimes enquanto morava nos Estados Unidos, temos o senador Oto (Aderbal Freire Filho), um homem preocupado com a sua carreira política, alvo da mídia por conta do casamento fracassado com a irônica Silvia (Marisa Orth), principalmente depois da revelação nos tabloides sobre o seu envolvimento com uma das primeiras vítimas do assassino em série. O seu filho, Júnior (Bernardo Mendes), ao se envolver com drogas, também apresenta alguns problemas no âmbito familiar, mas nada que chegue a tornar-se destaque no desenvolvimento da trama.

Talvez o personagem de maior destaque no campo gravitacional de Edu seja a instável Ray (Débora Falabella), uma mulher que cuida sozinha da sua filha, sendo ajudada por uma amiga muito próxima. Além de ter que batalhar sozinha para cuidar da criança, Ray apresenta um complicado grau de transtorno psicológico: ela é acometida pelo Transtorno de Borderline, uma patologia que causa oscilação de humor, comportamento compulsivo e medo de abandono, além de ataques “histéricos” preocupantes para aqueles que a acompanham de perto, com sintomas muito similares aos da bipolaridade e da esquizofrenia.

No caso de Vera, não há nenhum personagem da sua dimensão mais interna. Nenhum familiar, sequer amigo que não seja Dias, um homem que está prestes a largar o casamento para ficar com a companheira de trabalho, haja vista o poder de atração da mulher. Inteligente, sagaz e muito feminina, Vera age de maneira impulsiva, mas sagaz e sofisticadamente. Dias, em crise com a esposa e a filha problemática, sente-se cada vez mais atraído, principalmente quando pressupomos algumas coisas que alguns flashbacks reiteram mais adiante: no passado, ambos se foram bastante apaixonados, tendo inclusive combinado de viajar para fazer um curso no sonhado FBI, nos Estados Unidos. Vera, ambiciosa, seguiu o seu rumo, mas Dias, sem a mesma coragem e empenho, decidiu ficar e estabelecer raízes no Rio de Janeiro.

Com episódios de 45 minutos, a série é uma espécie de pastiche de Dexter, The Following, The Fall e todo o arsenal de narrativas sobre assassinos em série e suas metodologias. Somos expostos a tantos produtos similares constantemente, mas o que torna Dupla Identidade diferente é o verniz brasileiro aplicado. Tendo a edição de André Leite como um ponto positivo que auxilia o desenvolvimento da narrativa, a série também conta com outros tópicos estruturais memoráveis: a direção de fotografia é soturna, a gravação em 4K, tecnologia que fornece qualidade a imagem superior ao formato Full HD, colabora com a profundidade de campo, o que por sua vez, permite um melhor desempenho dos personagens dentro dos enquadramentos e da movimentação promovida pelos cinegrafistas.

Outro ponto interessante é a trilha sonora. Segundo Andreas Kisser, guitarrista da banda Sepultura, responsável pelo tema de abertura, “o metal tem o caráter de tirar a máscara e revelar a alma de cada um”. Assim, a trilha desenvolvida para a série consegue estabelecer o clima ideal, graças ao bom trabalho da direção de fotografia, além de revelar o lado psicológico perturbado de Edu. Tendo trabalhado na concepção musical de Bellini e a Esfinge e Bellini e o Demônio, dois filmes com aspectos temáticos muito semelhantes ao da série, não foi difícil para o artista criar a ambientação sonora de Dupla Identidade.

No processo de produção, a roteirista pesquisou entrevistas com especialistas em psicológicos, além de publicar o que pesquisava em um blog, com interação de leitores tecendo opiniões e contribuições, num ótimo exercício de trocas simbólicas na esfera virtual. No texto, percebe-se certo didatismo em algumas cenas básicas para a compreensão dos conflitos da narrativa. Vera, personagem feminina que atua num ambiente essencialmente masculino é a responsável por apresentar estas falas “manjadas”, mas a atuação de Luana Piovani consegue ajustar estes problemas que não chegam a danificar o resultado final, constando neste inventário de pontos críticos como apenas um deslize, algo, entretanto, que podia ter sido evitado, tamanha a experiência da responsável pelo roteiro. Digamos que seja uma falha perdoável.

No final das contas, Dupla Identidade consegue um resultado bastante satisfatório. É eficiente, funciona dramaticamente, há doses generosas de suspense e retrata um tema que há tempos a televisão aberta brasileira não tratava com tanta publicidade e efervescência: o assassino em série. Pelo que consta nos registros da memória audiovisual brasileira, a última série com abordagem parecida foi a interessante As Noivas de Copacabana, entretanto, graças à evolução tecnológica e às novas estratégias de roteiro, a retomada ao tema consegue mesclar elementos da televisão, do videoclipe e do cinema, diferente da matança de mulheres vestidas de noiva, empreendidas pelo psicopata interpretado por Miguel Falabella no final dos anos 1980.

Dupla Identidade – A Série Completa (Brasil, 2014)
Direção: Mauro Mendonça Filho e René Sampaio
Roteiro: Glória Perez
Elenco: Luana Piovanni, Bruno Gagliasso, Marcelo Novaes, Débora Falabella, Bárbara Paz, Aderbal Freire Filho, Marisa Orth, Luana Tanaka, Glaucio Gomes
Duração: 45 min (cada episódio – 13 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.