Crítica | Duro de Matar

De certa maneira, Rambo – Programado para Matar e Duro de Matar representam os pontos altos de qualidade dos “filmes de brucutu dos anos 80“, um começando e o outro encerrando a década, ainda que Rambo não tenha sido o primeiro e nem Duro de Matar o último do sub-gênero (se é que posso chamar assim) neste período. Além disso, são dois filmes que têm uma característica importante em comum, a humanidade de seu personagem central, algo esquecido nos demais exemplares oitentistas, como se os anos 80 tivessem “começado” tentando mirar na qualidade técnica e dramática, descambando para pancadaria descerebrada em seus anos de maior fertilidade e, então, novamente encerrando uma era voltando à mesma pegada mais ambiciosa e, aham… artística.

Afinal, Duro de Matar pode muito bem ser visto como o resultado final das diversas experiências da época com o sub-gênero, a combinação “genética” perfeita de tudo o que veio antes encapsulada em apenas um longa-metragem capitaneado por John McTiernan, que, no ano anterior, havia sido responsável pelo excelente O Predador. Com um roteiro de Jeb Stuart (em seu primeiro trabalho) e de Steven E. de Souza (já veterano e responsável, dentre outros, por 48 Horas Comando para Matar) que adapta de maneira surpreendentemente próxima o romance esquecido de Roderick Thorp, a escalação de Bruce Willis, então mais conhecido como David Addison Jr. na inesquecível série A Gata e o Rato, foi um grande acerto, diante da necessidade em se encontrar um equilíbrio delicado entre um policial invencível e um ser humano como outro qualquer, com quem o espectador pode, com bastante razoabilidade, identificar-se.

A trama é simples: John McClane (Willis), policial novaiorquino em visita de reconciliação a sua esposa (Bonnie Bedelia como Holly Gennaro), tem que, sozinho, salvá-la e também diversos colegas de trabalho dela, depois que uma festa de Natal no Nakatomi Plaza (famosamente o prédio da própria Fox no meio de Los Angeles) é interrompida violentamente por um grupo aparentemente terrorista liderado pelo sinistro Hans Gruber (o saudoso Alan Rickman). É, se pararmos para pensar, a exata inversão da fórmula de filmes de monstro ou slashers, com o herói detonando um a um os vilões das maneiras mais variadas possíveis dentro de um espaço confinado. O que separa Duro de Matar de todo o resto, porém, é, principalmente, a perfeita caracterização do protagonista e a qualidade técnica do trabalho de John McTiernan, diretor de enorme potencial que, infelizmente, depois de sua prisão em virtude do caso Anthony Pellicano, jamais voltou à Sétima Arte.

A grande jogada da fita – retirada diretamente do livro – e que dá o exato tom para a “mortalidade” de McClane é as sequências que, em sucessão, mostram-no com medo de voar e recebendo o singelo aconselhamento de uma pessoa sentada a seu lado para, quando chegar, relaxar retirando os sapatos e flexionando os dedos em cima de um tapete; ele fazendo exatamente isso no escritório de sua esposa e, finalmente, a pancadaria começando justamente nesse ponto, tornando impossível que ele sequer calce de volta os sapatos. McClane, descalço, é o símbolo da fragilidade do brucutu de diversos filmes anteriores, sempre infalíveis e imortais, raramente sequer sangrando. Aqui, o que vemos é justamente o oposto, um homem que sangra profusamente do começo ao fim, que se exaure de tanto subir escadas e que se desespera quando chega em sinucas de bico. Sim, ele mata todo mundo (isso não é spoiler, minha gente!) e sim ele adora uma frases de efeito, mas em McCLane nós podemos nos ver, algo impossível em personagens como John Rambo (mesmo no primeiro filme, já que ele é caracterizado como um soldado invencível de forças especiais), John Matrix, Dutch e tantos outros.

E o roteiro é muito hábil em não só construir o personagem de McClane esquivando-se de textos expositivos ou de sequências longas que antecedem a ação propriamente dita, como em cadenciar a narrativa em um crescendo lógico tanto do lado de McClane que, não demora, faz parceria com um valente policial comum local (Al Powell, vivido pelo simpático Reginald VelJohnson) com quem se comunica via rádio, quanto do lado do vilão Hans Gruber, com propósitos escusos que só tornam a trama mais saborosa. Tudo o que precisamos saber do protagonista nós aprendemos nos 10 minutos iniciais da projeção, os únicos efetivamente calmos na obra e o que vemos, a partir daí, é uma sucessão bem encadeada de situações de risco atrás de situações de risco que, porém, não criam overdose sensorial e nem necessariamente têm aquela tendência obsessiva de Hollywood de transformar a cena seguinte em algo mais grandioso ou mais barulhento que a anterior.

McTiernan, por seu turno, trabalha com uma câmera esperta, que nos coloca cúmplices de McClane, extraindo o máximo do carisma de Willis e imediatamente fazendo-nos participar de cada aflição, de cada momento extremo. Tudo flui muito bem, com uma montagem certeira de John F. Link (O Predador, Comando para Matar) e Frank J. Urioste (A Morte Pede Carona, RoboCop) que trabalha elipses bem construídas como a já famosa sequência dos cacos de vidro no chão que nos leva diretamente ao momento posterior à dor que McClane deve ter sentido sem nos mostrar a “travessia”, mas pintando o exato retrato do que aconteceu em nossas mentes. Também é mérito do diretor fazer o máximo com o design de produção extremamente detalhado para cada andar do prédio sob ataque que não deixa nada a dever ao que vemos em Inferno na Torre. Usando o cenário como parte inextricável da narrativa exatamente como fez com a floresta tropical cercando Dutch e seus companheiros em O Predador, McTiernan, juntamente com a fotografia de Jan de Bont (bem antes de arriscar-se na cadeira de diretor com Velocidade Máxima) dá vida a objetos inanimados, aos sets grandiosos, mas funcionais e ao Nakatomi Plaza em si, transformando-os em verdadeiros personagens dessa odisseia de McClane para chegar aos braços de sua Penélope.

Da mesma maneira, a trilha sonora do prolífico Michael Kamen, especializado em filmes de ação, é carregada da elementos funcionais que objetivam amplificar o suspense no filme, mas sem chamar atenção para si própria com leit motifs de personagens ou outros artifícios do gênero. São composições que miram exclusivamente a sincronização, que McTiernan tira de letra, sabendo exatamente quando usá-las ou deixar de usá-las, sem telegrafar os sentimentos que o espectador deve ter aqui ou ali.

Duro de Matar é, sem dúvida alguma, o ponto alto dos “filmes de brucutu dos anos 80” e uma bem-vinda volta a algo mais do que violência descerebrada. Com personagens bem delineados, fragilidades humanas maravilhosamente bem inseridas no contexto da narrativa, uma atuação inesquecível de Willis e sequências de ação que estabeleceriam um novo patamar ao gênero para as décadas seguintes, a obra é, arriscaria afirmar sem medo de errar, um dos melhores filmes de ação já feitos.

Duro de Matar (Die Hard, EUA – 1988)
Direção: John McTiernan
Roteiro: Jeb Stuart, Steven E. de Souza (baseado em romance de Roderick Thorp)
Elenco: Bruce Willis, Bonnie Bedelia, Reginald VelJohnson, Paul Gleason, William Atherton, Hart Bochner, James Shigeta, Alan Rickman, Alexander Godunov, Bruno Doyon, De’voreaux White, Andreas Wisniewski, Clarence Gilyard Jr., Joey Plewa
Duração: 132 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.