Crítica | “Dystopia” – Megadeth

estrelas 3

Dave Mustaine definitivamente é um cara estranho de se prever. Procure o básico de sua história artística e vai entender essa afirmação. Liderando e administrando o Megadeth quase como uma empresa, tirando e despedindo membros a todo instante, ele colocou a banda no hall das maiores do Thrash Metal. E o Megadeth parece nunca ter decepcionado profundamente seus fãs… até a chegada de seu último disco, o fatídico Super Collider, que gerou uma resposta massacrante e revoltante dos fãs e críticos. Seria justo comparar Super Collider como o “St. Anger do Megadeth” – se é que você me entende – tamanho o ódio dos fãs. Dystopia, o mais novo álbum, chega três anos depois de seu antecessor, agora tentando se redimir de seu erro.

Primeiro, já retiro da reta qualquer lixação massacrante contra Super Collider. É, sim, um álbum fraco comparado a muita coisa que o Megadeth já fez, mas está longe da escória que alguns clamam. É um álbum meio “pop”, possui refrões fraquíssimos e solos nem tão inspirados assim, mas reveza entre boas e fracas canções (a faixa homônima é uma das piores da banda). De qualquer forma, se nesse disco a banda pareceu amolecer demais, Dystopia tenta retornar ao estilo mais agressivo e pesado da banda. Passa muito longe de ser criativo – muito mesmo – mas também não erra como Super Collider.

A ideia de Mustaine para Dystopia parece ter sido manter o máximo possível a pose agressiva, embora o resultado não chegue nem perto do Thrash Metal que o Megadeth já produziu. A abertura com The Threat Is Real é minimamente boa, falta criatividade, mas se redime pelo seu peso, por seus solos de guitarra por toda parte e sua bateria explosiva. Mas passa muito bem o bastão para as duas faixas consecutivas com cara de singles, Dystopia e Fatal Illusion. Essa trindade inicial do disco é o cartão de visitas de Kiko Loureiro, o fantástico guitarrista brasileiro do Angra que fez sua estreia na banda de Mustaine. As três juntas fazem a melhor sequência do álbum, onde cada instrumento tem sua inserção e execução correta, com destaque a Kiko que faz um ótimo trabalho substituindo seu antecessor, Chris Broderick.

Mas para aqueles que esperam um grande álbum de Thrash Metal, o disco passa bem longe disso. A banda caiu na vala do Heavy Metal. Por mais que permaneça Thrash por grande parte do disco, o mergulho definitivo no estilo nunca acontece. Até porque não há nenhuma canção muito emblemática, nem vemos um nível de criatividade estupendo. Tentando ofuscar Super Collider, existem dois lados de uma mesma moeda em Dystopia: as guitarras. Por um lado, há um excesso de riffs em muitas canções, muitas vezes ofuscando a ótima bateria de Chris Adler (que começa a soar a mesma em toda faixa) e o baixo de David Ellefson. Por outro, se o que mais anseia é por bons riffs e solos de guitarra – principalmente com muito peso – vá em frente. Há riffs por toda parte, as guitarras parecem onipresente. E existe tanta sincronia entre Mustaine e Kiko que quase soa como se existissem mais de duas guitarras. Mas que fique claro, muita coisa soa nas sombras do que o Megadeth já foi. Não há nada surpreendente.

Um dos poucos momentos de real criatividade e surpresa se encontra em The Emperor. Aqui, Mustaine cria os riffs mais inteligentes do álbum, além de uma excelente letra, acertando na métrica. Se percebe uma química sensacional entre Mustaine e Kiko já que os dois emendam dois solos de guitarra espetaculares, mostrando uma parceria invejável. Conquer Or Die é outro excelente momento. É a única faixa instrumental, e que, por sinal, possui um arranjo que diz mais do que metade das cansativas letras de Mustaine “contra o sistema”. Se o discurso/letras é bom em faixas como The Threat Is Real, em outras parece discurso chato de “jovenzinho-punk-iniciando-no-rock”, como em Poisonous Shadows ou  Foreign Policy.

Por trás da capa futurista com a sempre bem vinda presença de Vic há um Megadeth com um eterno discurso contra o sistema, se esforçando ao máximo pra continuar relevante. E certamente continua. Dystopia é um bom álbum, conseguindo fazer com que muitos esqueçam vacilos anteriores da banda. Entretanto, não há como fugir da realidade. Mustaine ainda precisa tomar decisões mais criativas se quiser que a banda não caia no vale comum em futuros discos.

Aumenta!: The Emperor
Diminui!: Poisonous Shadows

Dystopia
Artista: Megadeth
País: Estados Unidos
Lançamento: 22 de janeiro de 2016
Gravadora: Lattitude South Studios
Estilo: Heavy Metal, Thrash Metal

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.