Crítica | Dzi Croquettes

estrelas 4,5

O documentário Dzi Croquettes, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez, causou furor na crítica nacional quando foi lançado. A história da formação, trajetória e fim do revolucionário grupo carioca que alcançou fama internacional, sendo aplaudido na Europa, visto e elogiado por Omar Sharif, Jeanne Moreau, Catherine Deneuve, Josephine Baker, e tendo Liza Minnelli como “madrinha”, é contada com competência rara em uma estreia de diretores no cinema.

Brasil, 1972, quatro anos após o decreto do AI-5. Presidência do General Médici e o país inserido nos chamados Anos de Chumbo. DOI-Codi ampliando suas operações de coação e tortura por todo o país e o milagre econômico posto como o lado bom das atrocidades cometidas pelo governo; eis o cenário em que nasceu o Dzi Croquettes. Em vez de partirem para a luta armada, seus 13 componentes optaram por mudar, subverter e criticar a realidade através da arte e o fizeram da maneira mais espalhafatosa possível, buscando especialmente no carnaval a sua identidade. Os 13 homens que compunham o Dzi Croquettes vestiam-se, atuavam, falavam e dançavam como mulher, de cara, um tabu quebrado e novos horizontes abertos de frente para as perguntas dos que os viam, estupefatos: são homens? São mulheres? São gays? O que são esses rapazes? Ao que eles respondiam no próprio espetáculo: “Nem homem, nem mulher: gente”.

Os Dzi Croquettes encabeçaram a primeira grande ruptura ideológica através da arte (especialmente em assuntos relacionados a gênero e sexualidade) no Brasil da ditadura militar. A composição dos números do grupo perpassaram as linguagens do teatro, do cabaré, dos shows da Broadway; do improviso cênico, da mímica, da dança. Os temas abordados seguiam a linha do deboche das situações do cotidiano, das frases e situações de duplo sentido e principalmente da crítica e desconstrução das instituições estabelecidas como importantes para a saúde da nação sob a ditadura: família, igreja e Estado. O próprio grupo era considerado uma família e os nomes de palco de suas personagens demonstram isso: o pai, a mãe, as tias, as filhas, as sobrinhas, a empregada. A família brasileira encontrava-se pela primeira vez com a contracultura.

O documentário segue a linha do “filme de bastidores”, mas traz à memória a trajetória do grupo e não o seu processo interno de produção. Em alguns momentos vemos filmes amadores feitos no camarim dos artistas ou no quarto de hotel onde se hospedaram na França, o que dá esse ar “uterino” que o documentário carrega e assume.

A planificação escolhida pelos diretores segue a linha básica dos documentários informativos, mas apresentam pelo menos um plano injustificável e incômodo, como em uma tomada na diagonal de um dos entrevistados que aparece o resto do filme inteiro filmado de frente. Afora essas incursões de “planos soltos” sem justificativa formal, temos uma narrativa fílmica muitíssimo bem executada, onde se alternam entrevistas, fotografias, filmes amadores em diversos lugares, filmagens dos espetáculos, cartazes, notícias de jornal, sobreposição de imagens, letreiros em luminárias e músicas que vão de Chico Buarque a Jacques Brel.

A montagem de Raphael Alvarez é precisa e dá a vivacidade necessária a um filme desse porte: os planos das entrevistas tem duração harmônica com os seus pares e o pouco excesso existente na forma externa reside na exposição de alguns números musicais do grupo em detrimento de outros que julgamos serem mais bem representativos, por exemplo, mais detalhes sobre o processo criativo de alguns espetáculos ou sobre a vida dos próprios participantes. O “estilo pingue-pongue” de algumas declarações sobre momentos dos Dzi Croquettes ajudam na formação do ambiente cômico que contém a narrativa, sendo o filme um excelente exemplo de como um documentário por informar, trabalhar a memória, criticar e divertir.

A revolução cultural empreendida pelos Dzi Croquettes não se limitou apenas ao teatro, aos palcos. Em diversos depoimentos vemos a força de uma ideia de luta pela liberdade que eles impulsionaram, sendo um dos grupos pioneiros na exposição do mundo gay no Brasil, com suas gírias que se popularizaram, maquiagem pesada, figurinos exuberantes e muito coloridos, irreverência e uma imensa erudição. No grupo havia artesãos, artistas plásticos, fotógrafos, cantores, bailarinos, coreógrafos, diretores de arte e, com o entrosamento no passar dos anos, essas qualidades foram socializadas entre eles. Outro elemento que não deve passar batido é que a maioria do grupo era poliglota, principalmente em inglês e francês, com um sotaque que faz rir só de ouvir.

Dzi Croquettes é um documentário ágil, pouco convencional, mas que muito impressiona pelo que apresenta e como apresenta. Um filme merecedor de todos muitos prêmios que acumulou em seu período de divulgação e exibição no Brasil e festivais pelo mundo. Com depoimentos de diversas personalidades e de antigos representantes do grupo, o documentário mostra a magnitude da arte que produziram os Dzi Croquettes, um exemplo maravilhoso de como é possível revolucionar e influenciar o seu meio social com a arte e a transgressão na alma e nas mãos.

Dzi Croquettes (Brasil, 2009)
Direção: Raphael Alvarez, Tatiana Issa
Entrevistados: Ney Matogrosso, Liza Minnelli, Ron Lewis, Gilberto Gil, Marília Pêra, Norma Bengell, Miguel Falabella, Nelson Motta, José Possi Neto, Betty Faria, Miéle, Pedro Cardoso, Aderbal Freire Filho, Jorge Fernando, César Camargo Mariano, Cláudia Raia.
Duração: 110 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.