Crítica | E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?

Joel e Ethan Coen são ótimos diretores e uma coisa que adoram fazer é brincar com o seu público, ainda mais quando tem a chance de nos deixar confusos. Logo no começo de Fargo, temos um comunicado importante onde podemos ler “Essa é uma história real”, e independente disso ser mentira, muita gente acabou acreditando, o que foi um jeito inteligente de fazer o público experienciar a trama de uma forma única. E a dupla tenta algo parecido nos créditos iniciais de E Aí, meu Irmão, Cadê Você, atribuindo crédito à obra literária Odisseia, de Homero, mas os diretores mais uma vez confirmaram que não era uma adaptação fiel e muito do que realmente se traduz é baseado no que está no coletivo popular. Mesmo assim, ainda é a jornada de um herói retornando para casa. Ou o mais próximo disso possível.

Everett (George Clooney) e seus companheiros, Pete (John Turturro) e Delmar (Tim Blake Nelson) acabaram de fugir de um grupo de prisioneiros acorrentados e estão em uma longa jornada de volta para casa, onde encontram obstáculos e figuras estranhas que vão desde sereias sedutoras e gangsters insanos até um guitarrista que vendeu a alma para o diabo. Essa premissa pode parecer absurda, mas isso é algo que já virou rotina para os irmãos Coen, então podemos esperar que a dupla faça um bom trabalho.

Com vários pontos positivos, o filme traz ótimos personagens e a escolha do elenco foi certeira. Clooney como Everett é o mais esperto da equipe e o sotaque sulista pode ser um pouco exagerado para alguns, mas se encaixa perfeitamente no contexto do filme, que se beneficia ainda mais com seus personagens absurdos. John Turturro é um ator pouco apreciado, mas só pelo seu trabalho com os Coen aqui e em outros filmes como Barton Fink, merece mais atenção (sem contar que é bom ver ele longe de colaborações com Adam Sandler ou Michael Bay). E eu poderia ter passado sem mencionar Holly Hunter por conta de seu pouco tempo em tela, mas ela também é uma atriz que combina muito bem com os filmes da dupla desde que atuou em Arizona Nunca Mais, aqui ela faz a esposa de Everett, Penny, que tem “novidades” para o marido. A grande surpresa é Tim Blake Nelson, um ator que nunca me impressionou e finalmente dá vida a um personagem convincente e carismático.

Assim como seus créditos iniciais, o título deste filme é um exercício de metalinguagem e sátira, inspirado em outra obra de 1941, Sullivan´s Travels (dirigido por Preston Sturges), que foi traduzido para Contrastes Humanos no Brasil, onde o protagonista interpreta um diretor que sonha em realizar um filme chamado “E Aí, meu Irmão, Cadê Você”. Além de referências mais diretas, como o nome do protagonista (Ulysses Everett), muitos segmentos são passagens do poema original e até alguns personagens são alusões aos seres mitológicos, como o Ciclope, que aqui se transforma em um homem grande e faminto interpretado por John Goodman de tapa-olho. O filme se aproveita disso e cria sequências memoráveis e hilárias, como as jovens lavando roupa à beira do rio enquanto cantam, o que encanta os rapazes, e como sabemos o que sereias fazem, é bem divertido ver como tudo é resolvido, e não é do jeito óbvio como imagina. Esse é um recurso narrativo que deixa o filme mais rico em referências e metáforas, mas não contribui tanto para a uma trama consistente. Sim, é ótimo ver como uma situação vai terminar e como o grupo vai fugir de alguma encrenca, mas no fim fica aquela sensação de que falta algo entre estes eventos para que não fique parecendo apenas que os diretores tinham uma lista de pontos para resolver, mesmo que todas as piadas tenham uma resolução satisfatória e se conectem com outros momentos importantes do filme.

Uma curiosidade conhecida sobre o filme é que esta foi a primeira produção de Hollywood a se beneficiar da colorização digital e é compreensível que tenha recebido uma indicação ao Oscar para categoria de melhor fotografia, porque se tem uma pessoa que sabe do assunto é Roger Deakins, que ficou responsável por esse filme e talvez seja hoje o diretor de fotografia mais reverenciado e copiado da indústria atualmente. A decisão de dar um visual mais “sujo” e sépia ajudou bastante no tom e tudo que escutamos casa perfeitamente com o que vemos. A trilha sonora é impecável, tão boa que acabou vendendo e recebendo mais prêmios do que o próprio filme (o álbum compilando as músicas do longa chegou ao topo das paradas da Billboard em 2002) depois de lançada. T Bone Burnett tomou conta do departamento musical e sua combinação de folk e blues parecia a escolha óbvia para uma aventura de três personagens atrapalhados atravessando o sul do Mississippi.

E Aí, meu Irmão, Cadê Você é mais um acerto dos irmãos Coen, uma comédia que faz rir, personagens que cativam e importam e uma história bem divertida cheia de momentos criativos de uma das duplas mais talentosas do cinema.

E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (O Brother, Where Art Thou, EUA, 2000)
Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen (adaptação), Homero (poema épico Odisseia)
Direção: Joel Coen, Ethan Coen
Elenco: George Clooney, John Turturro, Tim Blake Nelson, John Goodman, Holly Hunter, Chris Thomas King, Charles Durning, Michael Badalucco, Wayne Duvall, Ed Gale, Lee Weaver.
Duração: 106 minutos.

ROBERTO HONORATO . . . Criado pela TV, minha família era o programa dos Muppets e minha segunda casa era a locadora (era fácil de chegar, só precisava atravessar a rua). Não me incomodava rebobinar todas as fitas, e nem podia, já que assistia o mesmo filme várias vezes. E quando não é cinema, o cheiro de quadrinhos me chama de longe e preciso gastar dinheiro que não tenho. E nunca esqueça: #sixseasonsandamovie