Crítica | É Fada!

estrelas 0,5

Indiscutivelmente o cinema brasileiro passa por uma de suas melhores fases, repleto de ótimos filmes como Que Horas Ela Volta?, Boi Neon, O Menino e o Mundo, entre outros. Mantendo esse nível, o ano de 2016 continua nos presenteando com boas obras, como Mãe Só Há Uma e o esplêndido Aquarius. Até mesmo as produções com foco mais comercial, como Mais Forte Que o Mundo, são satisfatórias e competentes naquilo que se propõe. Dito tudo isso, É Fada! destoa completamente dos longas citados anteriormente, mostrando que, apesar de estar em um bom momento, a indústria nacional pode produzir lixos imensuráveis.

O filme mostra Geraldine (Kéfera Buchmann), uma fada que perdeu suas asas por utilizar métodos pouco convencionais e sua última chance para recuperá-las será a missão “Julia” (Klara Castanho). Julia é uma garota que foi criada pelo pai com muito amor, porém, depois de anos, a mãe retorna e passa a questionar a educação de sua filha. Por isso, a fada aparece para ajudá-la a vencer os preconceitos e estabelecer novas amizades.

Absolutamente todos os clichês de filmes de adolescente são usados aqui: a protagonista que enfrenta a realidade de um colégio novo, as patricinhas insuportáveis, o grupo de rapazes fúteis, o garoto bonitinho e humilde, entre outros, sendo inevitável a sensação constante de já ter visto tudo aquilo em algum lugar. Mas esse não é o único problema, enquanto outras obras teen utilizam essas convenções para criar arcos dramáticos interessantes, como no bom A Mentira, aqui vemos um festival de futilidades. Há cenas, por exemplo, que mostram Geraldine incentivando Julia a empinar os peitos, alisar os cabelos, vestir roupas que valorizem seu corpo e portar-se como uma rica. Portanto, não há aqui nenhum desenvolvimento interno na garota, apenas visual e em tempos onde as mulheres brigam cada vez mais por respeito e um espaço igualitário na sociedade, desejando não ser vistas como meros objetos, a abordagem da história soa no mínimo infeliz.

Mas o roteiro, escrito por Bárbara Duvivier, Fernando Ceylão e Sylvio Gonçalves, não apenas mostra-se fútil, como beira o mau gosto em certos momentos, como na cena onde a fada aconselha Julia a dispensar o pai para que suas amigas não o vejam, uma vez que, ele é pobre e isso mancharia sua imagem com as demais, como se houvesse algum problema em ser pobre. Além disso, Geraldine não apenas traz conselhos deploráveis, como também reforça o discurso elitista da mãe da garota, que tanto critica a filha por vestir-se mal e não ser vaidosa, falando que ela deve portar-se como as colegas ricas da escola. O certo seria a personagem título incentivá-la a aceitar-se como é, certo? Errado, a história opta por momentos onde a fada diz “vê se come como uma mocinha”, atingindo o auge do absurdo quando ela literalmente persuade sexualmente seu monitor para que possa continuar sua missão.

Continuando nas críticas sobre o roteiro, ele traz diálogos sofríveis, vide a cena onde Geraldine conhece sua protegida e diz incessantemente “sou uma fada, uma fada, uma fada, uma fada linda”, sendo absurdo imaginar que este tenha sido o único recurso encontrado pelos roteiristas para apresentar a personagem. Mas essas falhas não aparecem apenas com o decorrer da projeção, desde o início o filme mostra a que veio, mostrando Geraldine perdendo suas asas porque aconselhou o técnico da seleção brasileira durante o jogo Brasil x Alemanha na Copa do Mundo, ou seja, foi a verdadeira responsável pelo 7 x 1 (sim, é desse tipo de abordagem que estamos falando).

Além de um roteiro medíocre, a atriz principal não contribui para deixar sua personagem mais interessantes. É inegável que Kéfera possui carisma (senão não teria tantas fãs), mas isso não é o suficiente para conseguir um bom trabalho, portanto, não há aqui uma composição, uma criação. Aliás, se a youtuber pretende continuar sua carreira de atriz, precisa entender que atuação não é sinônimo de overacting, uma vez que, ela mostra um ímpeto enorme em gritar a cada fala e fazer o maior número possível de gestos durante a mesma cena, servindo apenas para criar um trabalho risível. O bom trabalho acaba ficando com Klara Castanho, que explora bem as mudanças sofridas por Júlia, e com Silvio Guindane, fazendo o papel de pai amoroso, transmitindo bondade e sabedoria, aliás, os melhores momentos do longa ocorrem quando os dois contracenam.

Mantendo o nível dos demais participantes do projeto, a diretora Cris D’Amato até tenta criar uma narrativa mais dinâmica, com alguns travellings laterais, planos com câmera na mão e planos gerais, mas esses elementos parecem estar ali apenas para tornar o filme mais interessante esteticamente, não tendo serventia nenhuma à narrativa. O trabalho que pode ser elogiado é o de direção de arte, que destaca o contraste social entre o pai e a mãe de Júlia através da casa onde vivem, além de construir com competência o mundo das fadas.

No final, o filme até tenta se redimir trazendo um número musical que fala sobre aceitar-se, mas não apaga de forma alguma as atrocidades mostradas anteriormente, não adianta passar mais de uma hora reproduzindo um discurso machista e elitista para achar que uma cena de 2 minutos consertaria tudo. Aliás, mesmo após Julia cantar essa música, ela continua de cabelo liso e roupas de grife, só conseguindo melhorar sua auto estima seguindo a risca todos os conselhos de Geraldine, ou seja, seu arco dramático tornou-a pior e menos confiante consigo mesma.

Acredite, o filme possui ainda mais defeitos que poderiam ser destacados, como o romance entre Júlia e Pedro que parece estar ali apenas para obedecer mais um clichê do gênero, mas se fosse abordado todos os problemas do longa esta crítica teria o tamanho de um artigo acadêmico. É Fada! não é apenas um filme ruim, mas também uma obra de mau gosto, infeliz, com uma atuação de Kéfera que deixaria Nicolas Cage com inveja de seu overacting e que reproduz um discurso fútil deprimente.

É Fada! – Brasil, 2016
Direção: Cris D’Amato,
Roteiro: Bárbara Duvivier, Fernando Ceylão, Sylvio Gonçalves (baseado na obra de Thalita Rebouças)
Elenco: Kéfera Buchmann, Klara Castanho, Charles Paraventi, Bruna Griphão, Silvio Guindane, Aramis Trindade, Christian Monassa, Carla Daniel, Lorena Comparato, Clara Tiezzi, Otavio Martins, Isabella Moreira
Duração: 85 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.