Crítica | East of West – Vol. 1: A Promessa

estrelas 4

Segundo projeto autoral de Jonathan Hickman para a Image Comics (o primeiro foi The Manhattan Projects), East of West é um intrigante faroeste de ficção científica ilustrado por Nick Dragotta, que fizera dupla com o escritor em Quarteto Fantástico para a Marvel. Passado em um futuro distópico, a narrativa, nesse primeiro volume, confunde mais do que esclarece e escancara as portas para potenciais explosivos.

E esse mistério todo é muito sadio, pois Hickman, aqui, não faz o mistério pelo mistério como fizeram Nick Spencer e Robert Kirkman em O Ladrão dos Ladrões. Há um plano aparentemente bem delineado e, o que parece ser algo completamente sem pé nem cabeça no primeiro número dos cinco que compõe A Promessa, aos poucos vai ganhando contornos interessantíssimos que fisgará completamente o leitor em uma reunião de gêneros muito satisfatória.

É até complicado explicar a premissa, mas tentarei. Durante a Guerra de Secessão americana, um objeto misterioso vem do espaço e muda radicalmente os acontecimentos históricos que conhecemos, com a divisão dos EUA em sete, formando As Setes Nações da América, com representantes de povos diferentes, dentre eles os brancos, os indígenas e os chineses. Aos poucos aprendemos que há um equilíbrio delicado e um propósito firme e convergente na cabeça de cada líder dessas nações e que todos têm relação com os Quatro Cavaleiros do Apocalipse que, na verdade, não três, pois Morte se desgarrou deles para perseguir propósito próprio, adiando o Apocalipse. Ficou confuso? Ou intrigado? Ou os dois?

east of west v 1 capaEsse era claramente o objetivo de Hickman: nos desnortear, misturando faroeste, com as Escrituras, com futuro distópico (a trama principal se passa em 2064, com flashbacks para diversos momentos no passado), com história de amor e com misticismo. O pacote que ele oferece é completo, muito bem imaginado e expansivo, exatamente o que se espera de uma boa ficção científica e de um bom faroeste. O passado misterioso que envolve a Morte e sua amada é o foco desse primeiro volume, com um clímax apoteótico e sanguinário que, porém, serve apenas de ponte para o que virá. A quantidade de personagens é grande, mas todos muito bem caracterizados, o que impede qualquer sensação de confusão. Os elementos históricos, que envolvem a deportação de Mao Tsé-Tung da China (sim, isso mesmo), a Casa Branca (ou a Torre Branca – também menção à Torre Negra de Stephen King, claro!), os descendentes dos colonizadores britânicos e a rivalidade entre cowboys e índios são inseridos organicamente na narrativa, mas sempre com um twist que traz sorrisos aos rostos dos leitores.

Mesmo com a profusão de reviravoltas e surpresas, a progressão do trabalho do roteirista é coesa e lógica dentro de sua proposta. Cada personagem é bem desenvolvido, com a manutenção dos necessários mistérios para futuros desdobramentos, especialmente em relação aos três Cavaleiros do Apocalipse que ainda trabalham juntos – Pestilência, Guerra e Fome – cujas intenções detalhadas são guardadas a sete chaves. O mesmo se pode dizer de Morte, pois, ainda que aprendamos muito sobre ele (um típico cowboy Eastwoodiano, na verdade), pouco entendemos de seu plano e de como exatamente ele surgiu.

No entanto, o roteiro ainda sofre de alguns exageros e de pulos narrativos que são convenientes demais, simplistas demais para que os aceitemos sem reservas. Isso é especialmente sensível no clímax, com Morte e seus amigos indígenas invadindo Nova Xangai e enfrentando o exército infinito de Mao V. É bem verdade que a história precisava de um momento como esse para nos revelar o potencial do personagem, mas Hickman recorre a clichês convencionais demais que acabam destoando do que ele próprio estabeleceu logo antes. Não é nada que diminua o prazer da leitura, mas Hickman poderia ter se esmerado mais nesse ponto.

Os desenhos de Nick Dragotta são dignos de nota. Cada personagem foi claramente muito bem pensado em termos de design, aí incluídos até mesmo o cavalo mecânico de Morte e o barman do saloon The Atlas. O artista soube aliar correção histórica com extrapolação para um futuro não muito distantes, mas completamente diferente ainda que parecido ao passado que conhecemos. Cada detalhe foi meticulosamente pesquisado para que vejamos, com um misto de familiaridade e estranhamento, “soldados da União”, nativos e chineses. As cidades de Junction, na “fronteira americana” e principalmente a de Nova Xangai são grandes triunfos visuais que aumentam o magnetismo do trabalho da dupla.

Ainda que Hickman, no grande embate final, tenha recorrido a super-poderes um tanto exagerados e saídas convenientes para problemas complexos, fato é que o primeiro volume de East of West funciona como um aperitivo delicioso e mortal para desdobramentos potencialmente catastróficos nos próximos volumes. É esperar para conferir.

East of West – Vol. 1: A Promessa (East of West – Vol. 1: The Promise, EUA – 2013)
Conteúdo: East of West #1 a 5, publicado entre março e julho de 2013
Roteiro: Jonathan Hickman
Arte: Nick Dragotta
Cores: Frank Martin
Letras: Rus Wooton
Editora (nos EUA): Image Comics
Editora (no Brasil): não publicado no Brasil até o momento de elaboração da presente crítica

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.