Crítica | Ebirah, Terror dos Abismos (Godzilla vs. Monstro do Mar)

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Caranguejo? Lagosta? Camarão? O que é este Ebirah, o tal “terror dos abismos” que o título do filme em português fala? Bom, a resposta técnica e correta é “camarão” (“ebi” é “camarão“, em japonês), mas a forma como o kaiju é mostrado em diferentes pontos do filme nos faz pensar algo completamente diferente. Seja como for, é muito bom ver um longa do gênero que de fato dá importância aos seus monstros, utilizando o elemento humano apenas como um caminho para destacar a ação dos bichos, algo que as duas películas anteriores com o Godzilla, Ghidrah, O Monstro Tricéfalo (1964) e A Guerra dos Monstros (1965) não se preocuparam muito em fazer — ou melhor: foram concebidos com um outro foco central em mente, o menos importante e o menos interessante em uma obra com essas grandes criaturas.

O ponto de partida aqui é risível por si só. Um jovem está às voltas com a polícia costeira, que desistiu de fazer buscas por um pescador desaparecido em uma tempestade misteriosa. Mais atento à apresentação de uma base única para o núcleo humano, o roteirista Shin’ichi Sekizawa foi bastante simples aqui, mesmo que dentro de uma perspectiva ridícula, como a busca pelo desaparecido ter como ponto de partida um concurso de dança, que leva o irmão preocupado e mais dois jovens para um barco, este, ocupado por um homem misterioso, mas benevolente, que deixa os rapazes dormirem ali “apenas por aquela noite!“… Por mais que todas essas coisas sejam plausíveis, todas elas juntas, em um único tsunami de coincidências, só nos faz rir. O riso, todavia, vem com cumplicidade e entendimento, porque sabemos ser preferível esse tipo de tom ruim de roteiro, mas em uma única camada dramática, do que diversos blocos ruins apresentados no decorrer de todo o filme.

O tom de humor e a sugestão de que existe algo tenebroso para acontecer faz com que o espectador releve, em parte, os tropeços do roteiro. A excelente trilha sonora de Masaru Satô (Homem Mau Dorme Bem, Yojimbo) serve como segundo convite para que mergulhemos na história. O uso bem pensado da percussão, as chamadas à atenção e ao suspense com os metais e o menor e delicado uso das cordas dão ao filme uma aparência épica, mesmo que ele não seja. Depois da primeira aparição do Camarãozão, entramos em um drama do tipo “base secreta“, uma escolha bem feita do roteiro para colocar o inimigo como um grande mistério, sem necessariamente precisar de motivação ou informações detalhadas, já que ele será o mal absoluto contra o qual os mocinhos deve batalhar. É o simples “preto no branco” que se torna a melhor escolha para esse tipo de enredo.

Em Godzilla vs. Astro-Monster eu havia comentado sobre a boa direção de arte como uma preocupação quase inédita na série dos filmes de Godzilla até aquele momento, e essa preocupação também se pode ver aqui, muito embora o destaque visual acabe sendo as cores da fotografia de Kazuo Yamada (Samurai III: Duelo na ilha Ganryu), dentro do processo Tohoscope, em Eastmancolor. O contraste forte na paleta quente e a maior leveza para as cores escuras dão uma beleza visual peculiar à fita, que se beneficia da escolha dos figurinos (sempre em cores chamativas, como laranja e amarelo) e da montagem alternada, com cenas em diferentes ilhas e localidades com atmosferas que até mostram um uso variado de câmera pelo diretor Jun Fukuda. Nesse ponto, vale destacar a excelente e inicialmente hilária (porque parece que estão jogando vôlei de praia) luta de Godzilla contra Ebirah, em especial nos momentos subaquáticos, algo que não víamos na série desde o original de 1954.

A participação de Mothra na história é interessante, mas não tão grandiosa quanto poderia (e deveria) ser. A preparação para o despertar da mariposa demorou demais e se tornou um estorvo no roteiro. Ao fim, era melhor que não tivesse o encontro dela com Godzilla, para que se evitasse o vexame do ataque do lagartão à salvadora da Infant Island, mas até aí, não é nada que vá muito contra a postura do monstro (o que vai contra isso é o fato de ele estar adormecido em uma caverna e não nas profundezas do mar; ou o fato de ter “sentimentos de King Kong“, protegendo a garota nativa da ilha de Mothra). E sobre uma constante confusão de mariposas que se faz nesse filme, lembro que esta que aparece aqui não é a versão adulta de Godzilla Contra a Ilha Sagrada (1964), mas a larva que apareceu no final e que participou de Ghidrah, O Monstro Tricéfalo. Pena que insistiriam diversas outras vezes na ridícula versão larva, que odeio, enquanto deixariam a chamativa e garbosa versão adulta de lado, tudo por um problema de “excesso de fios” para segurar os monstros voadores… [fica a pergunta: quem precisa de Rodan quando se tem Mothra, não é mesmo?].

Em dado momento da história, aparece, aleatoriamente, um Condor gigante atacando Godzilla, mas o disparate acaba rápido porque o lagartão transforma o Condor em Fênix… E é por esses destaques aos monstros, bizarros ou não, que Ebirah, Terror dos Abismos, se mantém acima da média. Não tem para onde correr: se é filme de monstros, o destaque tem que ser dado aos monstros e acabou. Qualquer coisa diferente disso… é golpe.

Ebirah, Terror dos Abismos / Godzilla vs. Monstro do Mar (Gojira, Ebirâ, Mosura: Nankai no daiketto) — Japão, 1966
Direção: Jun Fukuda
Roteiro: Shin’ichi Sekizawa
Elenco: Akira Takarada, Kumi Mizuno, Chôtarô Tôgin, Hideo Sunazuka, Tôru Ibuki, Akihiko Hirata, Jun Tazaki, Tôru Watanabe, Ikio Sawamura, Pair Bambi, Hideyo Amamoto, Hisaya Itô, Tadashi Okabe, Kazuo Suzuki, Shôichi Hirose, Yutaka Sada, Haruo Nakajima
Duração: 87 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.