Crítica | Ed Wood

estrelas 4

Quando dirigiu Ed Wood, Tim Burton vinha de uma interessante tríade de filmes composta por Batman, Edward Mãos de Tesoura e Batman – O Retorno, obras que trouxeram de maneira mais forte um estilo que o cineasta já vinha arquitetando na televisão e em curtas-metragens desde o final dos anos 70.

Em sua segunda parceria com Johnny Depp, Burton criou um ambiente metalinguístico inesquecível, trazendo-nos o tenebroso, hilário e estranho mundo de Edward D. Wood Jr., cineasta novaiorquino com um comportamento pouco comum e ideias artísticas capazes de fazer qualquer cinéfilo que se preze tremer de “alegria B”, prazer culpado e vergonha alheia.

O roteiro do filme é a adaptação da obra de Rudolph Grey e foi escrito pelos amigos de longa data Scott Alexander e Larry Karaszewski, roteiristas conhecidos por filmes como O Pestinha e O Povo Contra Larry Flint. Nesta cinebiografia sobre “o pior cineasta de todos os tempos”, os autores conseguiram construir um interessante meta-enredo criticando de maneira cínica a “teoria do autor” – a cena de Orson Welles citando, sem citar, A Marca da Maldade é impagável – e de maneira amarga a selvageria do star system, que ganha o máximo de dinheiro possível explorando atores e artistas para, posteriormente, esquecê-los.

É, portanto, na realidade da fantasia hollywoodiana que Ed Wood (cinebiografia e biografado) se constrói. Tim Burton se sente bastante à vontade neste ambiente tétrico e independente que seu objeto de filmagem retrata, o que talvez tenha facilitado determinadas escolhas do diretor e equipe técnica, como a sensacional fotografia de Stefan Czapsky (que aqui mostra um trabalho completamente diferente daquele realizado em Edward e Batman – O Retorno, e não digo isso apenas por Ed Wood ser em preto e branco) e a caricata mas muito bem pensada partitura de Howard Shore para o filme.

Desde os créditos personalizados na abertura até os letreiros explicativos do final, Tim Burton retrata a velha Hollywood dos anos 50 pelo seu ponto de vista sujo, periférico e explorador de pessoas, um poco à parte ao luxo dos melodramas de Douglas Sirk e ideologia social do governo do presidente Dwight D. Eisenhower. A Hollywood que vemos em Ed Wood é aquela dos pequenos (e criativos, por que não?) artistas, daqueles que vão à terra dos sonhos em busca de um sonho, independente de suas qualidades como criadores ou possibilidades de vitória em um mercado de cartas marcadas, sorte e acaso.

Mas ao lado dos novatos vemos uma lenda viva do cinema, o ator romeno* Bela Lugosi, famoso por seus papeis em filmes clássicos de terror, com destaque para Drácula (1931), e que nos anos 50 vivia esquecido, com um pequeno soldo de pensão e viciado em morfina. Tim Burton dá o máximo de atenção possível para a relação entre Lugosi e Wood, assim como destaca elementos da vida pessoal de um bom número de personagens do longa, algo desnecessário em alguns casos.

Entre a comédia de humor negro, metalinguagem cínica e reflexões sobre o papel do artista como indivíduo e como criador, Tim Burton faz de Ed Wood um notável drama sobre cinema, não deixando de lado as fantasias e bizarrices muito comuns de sua filmografia (e digo isso da forma mais positiva possível) e criando um filme inteligente e divertido sobre o diretor e equipe que tiveram a coragem de legar ao mundo obras como Glen ou Glenda e Plano 9 do Espaço Sideral.

As discussões mais sérias jamais são diminuídas pelo teor cômico, surreal ou “B” que marca o cenário filmado e este é um dos muitos méritos da fita. Mas esse mesmo mérito também tem um lado negativo, o de afastamento e dificuldade de identificação do público para com a obra, uma nuance que se perde entre o trabalho com a metalinguagem e a dramatização em certo ponto. Todavia, não deixamos de notar e nos emocionar com elementos dessa dramatização, como a soberba atuação de Martin Landau como Bela Lugosi e a notável caracterização de Johnny Depp para Ed Wood.

Tim Burton conseguiu, mesmo sem querer (ou querendo?) fazer um filme sobre um diretor que muito bem poderia ser ele em outros tempos. É como se olhar em um estranho espelho e usar os recursos monetários a mais para fazer o que este “outro” sempre quis. E aí o círculo de crueldade hollywoodiana se fecha perfeitamente, já conosco fazendo parte da dança.

* Minha citação de Bela Lugosi como romeno considera a geopolítica da Europa no momento em que escrevo este texto (2014). O ator nasceu na cidade de Lugoj (ou Lugos), que pertenceu ao antigo Império Austro-Húngaro (desmembrado definitivamente após a I Guerra Mundial), mas hoje faz parte de um distrito da Transilvânia, na Romênia.

Ed Wood (EUA, 1994)
Direção:
Tim Burton
Roteiro: Scott Alexander, Larry Karaszewski (baseado no livro de Rudolph Grey)
Elenco: Johnny Depp, Martin Landau, Sarah Jessica Parker, Patricia Arquette, Jeffrey Jones, G.D. Spradlin, Vincent D’Onofrio, Bill Murray, Mike Starr, Max Casella, Brent Hinkley, Lisa Marie
Duração: 127 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.