Crítica | EDtv

É muito difícil falar de EDtv sem comentar a simples existência de O Show de Truman, lançado um ano antes, contendo uma temática central extremamente parecida com a do longa-metragem de Ron Howard. Enquanto o filme estrelado por Jim Carrey abraçou a crítica e o público, externalizando uma crítica ao voyeurismo social, além de trabalhar a existência humana de uma forma encantadora, EDtv fracassou tanto na recepção dos espectadores quanto na recepção dos críticos. Mas por que o filme de Howard foi relegado ao limbo, sendo uma de suas produções menos conhecidas? Poderíamos dizer que se trata de um Show de Truman sem alma? De um lado, temos a história de um homem que cresceu, sem saber, rodeado por câmeras. Sua vida é uma “mentira” fabricada por um programa televisivo, que gravou seus passos desde o seu próprio nascimento, enquanto espectadores de todo o mundo acompanhavam as aventuras e desventuras impostas pelos deuses da televisão para cima de Truman, interpretado por Carrey. Já no plano de cá, o homem, Ed Perkuny (Matthew McConaughey), invariavelmente também participa de um reality show, “sem roteiro, sem atores, sem cortes”, mas tem plena consciência disso, se candidatando para ser o astro da produção criada por Cynthia Reed (Ellen DeGeneres).

A questão principal é que EDtv é uma “versão” temática muito menos arrojada que O Show de Truman. Os acontecimentos são, na base do possível, reais. Espere um público muito mais presente, assim como uma diferença estrondosa entre o cenário dos eventos. As pessoas querem ver o circo pegando fogo, a audiência vai subir com a dor dos outros, com traições e brigas estrondosas. Além disso, Truman, de O Show de Truman, era uma pessoa vivendo o pleno sonho americano. Em EDtv, a realidade é relativa ao popular. Dessa forma, a própria câmera torna-se muito mais secundária que a câmera de Truman. Isso se dá pois, como as coisas não são fabricadas de maneira completamente arbitrária, mas ainda são manipuladas pelo público e pelos próprios “personagens” no cenário, moldados para aproveitar o espaço proporcionado pela televisão, vide as propagandas feitas ocasionalmente e a aparição de pessoas que não voltariam para a vida de Ed se não fosse o show, o programa acaba por ser interessante para o mundo, mas destrutivo para Ed. Para exemplificar, temos a garota que dorme com o irmão de Ed, Ray (Woody Harrelson), justamente por ele ser famoso. Não é como se Ed fosse realmente uma marionete, mas como se a televisão controlasse os anseios de – quase – todos ao seu redor, interessados por fama. A câmera, portanto, é o maior vilão do filme, expondo a intimidade do protagonista e de sua família. O formato é hostil.

Mas nem tudo são flores para a vida do nosso protagonista, que ironicamente nem se candidataria para o papel a princípio, e sim o seu irmão, completamente bêbado durante o início do longa. O interesse de Cynthia, contudo, é por coisas interessantes, e Matthew McConaughey rouba a cena sendo uma figura central caipira, com sotaque bastante evidente, mas um charme na performance arrebatador, que nos faz ter vínculo com ele. Em suma, interessante – aquilo que Cynthia procurava no astro de seu programa. O roteiro, por outro lado, acaba atuando de modo contrário aos nossos anseios em torcer por Ed e, principalmente, seu relacionamento com Shari (Jenna Elfman), mas a problemática nem se encontra justamente nessa relação, mas em uma sub-trama que invade o filme abruptamente e nos faz questionar as intenções do texto em matéria argumentativa. No caso, a mãe de Ed (Sally Kirkland) é julgada injustamente por atitudes que tomou no passado e que fazem sentido dentro do escopo de abandono de relacionamentos abusivos. A construção de personagem se perde a medida que situações inesperadas contrariam o básico que já havia sido estabelecido sobre a personagem. Da metade do filme para o fim, somos tomados por uma onda de decisões de puro mau-gosto, que exageram o âmbito de explorar os “podres” da sociedade baixa, tornando-se a sátira da sátira. O final do longa-metragem, enfim, é uma besteira completa, soando como se os roteiristas tivessem preguiça de dar real profundida à obra.

Por assim ser, EDtv acaba, substancialmente, tornando-se uma espécie de comédia romântica bem meia-boca. Com uma distância consideravelmente pequena entre este filme e O Show de Truman, é muito provável que a temática coincidente tenha sido, como muito bem dito, uma coincidência, mas a proposta intrínseca a EDtv se revela como fracasso visto que, ao término do filme, temos noção de estarmos diante de um primo feio da obra de Peter Weir. Porém, a feiura, tal falta de pompa, não é necessariamente uma problemática, visto que os comentários sociais feitos, que não vão para nenhuma esfera filosófica, mas permanecem nas questões sociológicas, embasadas sob uma família suburbana, pouco requintada, fina e elegante, mas viva e real, são ainda assim pertinentes. É uma pena, porém, que nada seja dissertado e priorizado, dando mais espaço para tomadas de decisão com viés cômico de mau-gosto que algum mau-gosto proposital e necessário. O humor do filme, além de falho e inconsistente, trabalha de forma contrária ao próprio resultado final. No meio do desperdício, a dupla composta por Woody Harrelson e Matthew McConaughey ainda precisaria de anos para se ver dentro de um projeto eficiente envolvendo os dois, mas há sinais de uma química interessante, trazida à tona por interpretações sem sutilezas, reflexos de outra realidade que não a das pessoas vivendo a pleno vapor o sonho americano, o show da vida. É decente – ou seria indecente – por quase uma hora, até se perder em um buraco de péssimo aproveitamento.

EDtv – EUA, 1999
Direção: Ron Howard
Roteiro: Lowell Ganz, Babaloo Mandel
Elenco: Matthew McConaughey, Jenna Elfman, Woody Harrelson, Ellen DeGeneres, Sally Kirkland, Martin Landau, Rob Reiner, Dennis Hopper, Elizabeth Hurley, Clint Howard, RuPaul, Ian Gomez, Viveka Davis, Adam Goldberg, Rick Overton, Gedde Watanabe, Jay Leno
Duração: 123 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.