Crítica | Eduardo Coutinho – 7 de Outubro

estrelas 3,5

Eduardo Coutinho foi um dos maiores documentaristas brasileiros. Excelente entrevistador e conhecido por uma forma simples de uso de câmera, montagem e manipulação de efeitos sonoros ao longo de suas entrevistas — especialmente depois de Santo Forte, 1999 –, o que torna suas obras verdadeiros mergulhos dentro da temática a que se dedica, porque tira da pessoa ou da coisa em frente à câmera aquilo que vai além do óbvio, além do “seguir um roteiro”.

Alguns dos maiores documentários já realizados no Brasil foram dirigidos por Coutinho que, ao longo dos anos, levantou a sempre interessante discussão sobre o que é verdade e o que é mentira na gênese de cada filme, na forma como os entrevistados são abordados, no contato do cineasta com o seu “objeto de estudo” e, especialmente, o que esse tipo de cinema significa para o público e para quem o faz. É interessante para o espectador ver como esse ‘jogo de cena’ se inverte e se reflete no longa de Carlos Nader, Eduardo Coutinho – 7 de Outubro, filme que ganhou uma grande repercussão após a trágica morte de Coutinho no início de 2014, apunhalado pelo filho, que sofre de distúrbios mentais.

Estar em um único cenário, em uma entrevista gravada num único dia e com uma equipe técnica que já lhe acompanha a algum tempo deve ter sido ao mesmo tempo estranho e cativante para o entrevistado, que provava um pouco da encenação-real vinda de seus próprio filmes, já que toda a ideia deste 7 de Outubro é se aproximar da obra de Coutinho, escolha que em parte permitiu uma grande identificação do espectador com a obra mas em parte acabou limitando o campo de trabalho de Carlos Nader.

A impressão que temos é que o longa se segura apenas pela enorme força de Eduardo Coutinho e suas histórias sobre fazer filmes, sobre o que deve ou não entrar na versão final, como é a escolha dos temas para os documentários e reflexões sobre palavrões, especialmente sobre uma expressão em particular: “Caralho a quatro… quem inventou essa expressão maravilhosa, né? Quem foi, porra?! Por que?“. E entre cigarros, gestos e palavrões, o diretor disseca o seu próprio cinema, se despe de moralismos acadêmicos e se mostra um diretor preocupado com o que não era aceito, com o desprezado, com o jogado fora… um olhar para as coisas que se reflete em seus enredos desde o primeiro documentário, Seis Dias em Ouricuri (1976) e se transforma, chegando à versão menos física desse “jogado fora / esquecido”, quando sua câmera pousa nas memórias das pessoas e tenta resgatar o passado em As Canções (2011).

7 de Outubro é bem conduzido até pouco depois da metade, quando então os cortes para trechos de Edifício Master, Jogo de Cena e outros documentários de Coutinho começam a cansar. E algumas vezes esses cortes não possuem relação alguma com o que estava sendo falado, o que gera um contraste inaceitável se comparado à ótima ligação que o restante das reproduções possuem. E seguindo esse padrão, temos um final que não segura a proposta de 7 de Outubro, fazendo uma comparação vazia e incômoda com os finais dos filmes de Coutinho*.

Ao cabo, Eduardo Coutinho – 7 de Outubro vale muito a pena porque é quase um longa de formação. Todavia, a obra em si, por sua forma e escolhas, deixa um pouco a desejar. Mesmo assim, vale a pena. Como a vida.

* Caso o leitor se interesse pelo tema, sugiro firmemente a leitura do livro Espelho Partido – Tradição e Transformação do Documentário, de Silvio Da-Rin, que leva adiante muitas das discussões que apenas aludimos aqui.

Eduardo Coutinho – 7 de Outubro (Brasil, 2014)
Direção: Carlos Nader
Elenco: Eduardo Coutinho, Carlos Nader
Duração: 72 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.