Crítica | Edward Mãos de Tesoura

“Mas se você tivesse mãos normais, você seria como todo mundo.”

Contém spoilers.

As narrativas adotadas por Tim Burton, indo ao encontro de sua própria personalidade, têm um efeito de aproximação do público com o cineasta, encarado de uma maneira mais relacionável e ganhando, consequentemente, uma gama de apreciadores de seu trabalho. Os personagens de suas obras são exóticos. Quando pensamos, por exemplo, nos antagonistas de Batman e Batman: O Retorno, entendemos que Tim Burton não quer buscar a humanidade nesses criminosos, personagens enlouquecidos, mas mostrar, essencialmente, o quão distantes da normalidade eles são. Tim Burton, de certa forma, parece enxergar-se assim, como um ser diferente, colocando uma vertente consideravelmente pessimista para dentro de suas produções, as quais variam imensamente de escopo, de resoluções mais conciliáveis a outras mais trágicas. Ao assistirmos Frankenstein, de 1931, encontramos um monstro completamente em desacordo com o mundo em que vive, obrigado a viver. O público desta obra, clássico conhecidíssimo do cinema, enxerga-se deveras sensibilizado pela situação da criatura, mas nem James Whale, muito menos Tim Burton, querem seus personagens encontrando conclusões harmoniosas. O mundo não permite a harmonia do grotesco com o convencional.  Edward Mãos de Tesoura é o grande marco da carreira de Tim Burton, obra que mais conseguiu sustentar a própria identidade do cineasta, nesta sua versão de uma história extremamente conhecida, sobre uma criatura criada pelo homem, mas, a depender dos demais, longe de ser um homem.

O ser homem, entretanto, o faria ser melhor? Ou ser diferente, contrário aos padrões vigentes socialmente, no nosso mundo, é pior do que ser verdadeiramente ruim? O acaso, na premissa, possibilita Peg Boggs (Dianne Wiest), uma revendedora de cosméticos, encontrar-se com uma criatura com corpo de homem, mas mãos de tesoura. A esperança entra no coração do espectador, à espera de Edward (Johnny Depp) conseguir ajustar-se ao seu novo mundo, com mais cores e uma estética atemporal, distante do castelo onde viveu anos e anos sozinho, depois de seu criador, uma forma de pai, morrer. Como a personagem adota o jovem repentinamente, sem questionar sua decisão, embora seja questionada pelos demais, somos levados, meros espectadores, a acreditar na magia do amor. O campo do fantástico é aberto para sentirmos o gosto pelo que há de melhor nesse universo, mas a experiência é efêmera, assim como diversas conquistas pessoais do protagonista. Tim Burton é quase maldoso, nesse sentido, e tem que ser mesmo, pois movimenta um longa-metragem de impacto emocional absurdo, nos fazendo entender – e, de certa forma, também sentir – como o universo aparenta-se para aqueles que não se encaixam nele. Edward é dito, pelos outros, ser detentor de um brilho, característica singular. Mas o personagem, embora seja enganado, traído por aqueles que disseram o adorar, em rede televisiva e tudo, nunca é levado a desistir do seu sonho, pois existe uma pessoa por quem ele é apaixonado: Kim (Winona Ryder), a filha dos Boggs. As mãos, tão imaginadas, são para ele poder amar.

O diretor, contudo, nunca teve, ironicamente, um roteiro realmente perfeito em suas mãos. Caroline Thompson, porém, nessa sua primeira de três contribuições com o cineasta, consegue aproximar-se da excelência máxima, imaginando soluções narrativas interessantes, colocando o mundo para explorar a existência do personagem-título de maneira verossímil, igualmente revoltante, e criando uma atmosfera onde questionamos plausivelmente quem são os verdadeiros monstros dessa história. Os antagonistas, em última instância, são personificados no coadjuvante interpretado por Anthony Michael Hall, o namorado do interesse amoroso de Edward, revoltado com o protagonista em razão do término de seu relacionamento, voltando-se, portanto, indiscriminadamente contra o personagem, mesmo tendo o anti-herói, preso a sua amoralidade – enquanto as pessoas ao seu redor, com exceção dos Boggs, são imorais – manchado sua reputação ao cometer um crime pelos dois – no caso, por ela -, condenado injustamente pela população. A roteirista amarra a vertente amorosa da obra com a amplitude do discurso, sem permitir ela encontrar-se avulsa na narrativa, mesmo que menos poderosa. A revolta gerada na população, ao invés dos ciúmes no grande antagonista, nesse seu preconceito particular, é melhor estudada por Thompson, encontrando em pequenos momentos, de interpretação ambígua por parte dos ignorantes, as causas suficientes para acreditarmos nessa relação de amor e ódio do mundo com a criatura que usou para seus próprios caprichos, em um contraste de hipocrisia.

Quando vamos falar do relacionamento amoroso, no entanto, a obra não convence da maneira como, possivelmente, gostaria, mas a aparência romântica do longa-metragem pode ser entendida de diferentes formas, as quais, se não salvam o envolvimento entre Edward e Kim, nos fazem repensá-lo, por ser consideravelmente rico em questões. O distanciamento do protagonista com o mundo, afinal, também poderia ser levado à pessoa por quem ele é apaixonado, não tratando-se de um caso de amor necessariamente correspondido. A relação é, na verdade, pela maior parte do filme, pautada em sua inatingibilidade. A personagem de Winona Ryder, por outro lado, em decorrência do crime cometido por ela, seu namorado e o protagonista, mostra-se culpada, sendo o único caso onde alguém machuca Edward, mas, em retorno, sente remoroso. Kim, por exemplo, não o trata diferente dos demais, como uma criatura especial, pelas suas mãos de tesoura, mas pelo seu bom coração, descoberto ao entender o quão verdadeiramente ele a amava, mesmo com os pesares.  Já o amor de Edward, nascido de uma foto, é ingênuo, mas o entendemos como uma força maior, evidente na cena da dança, enquanto o personagem esculpe, um de seus tantos dons. As coisas, em termos românticos, não são completamente perfeitas, porque Thompson e Burton querem, no final das contas, a personagem amando aquele que a ama, um pensamento que deveria ser aliado a uma maior verdade, em pequenas situações, ou deixado de lado, traçando uma realidade trágica ainda mais integral.

Edward Mãos de Tesoura, mesmo assim, permanece sendo a grande tragédia da filmografia do cineasta. Quando o personagem consegue, finalmente, a chance de vivenciar o seu amor, independente das mãos de tesoura, o personagem não pode mais, simplesmente, viver. O longa-metragem, em todas suas pontas narrativas, é amarrado da maneira correta, poderosa, para expor as correntes presas ao protagonista de Johnny Depp, em uma situação de confinamento entristecida. O grande astro da obra é oriundo de uma criação fantástica, tanto na interpretação de Depp, uma das maiores de sua carreira, apático e simpático, quanto no visual conferido ao seu personagem. O diretor não quer o protagonista sendo visto como uma criatura horripilante, como, diferente dos demais, Kim o enxerga inicialmente, assustada – evidenciando, assim, uma relação diferente do protagonista com cada um dos seus três relacionamentos: a garota, a mãe e o povo. Quem primeiro temeu, quem primeiro amou e quem sempre usou. Edward Mãos de Tesoura é um filme de monstro. O gótico universo criado por Burton é o epítome do diretor, nesta sua maravilhosa reinterpretação da história de uma criatura sem chances, separada da sociedade por lâminas. O menor descuido é um corte profundo. Quando ainda acreditamos nas jornadas formais, no amor vencendo barreiras, o cineasta lamenta existências trágicas, intermináveis. A esperança permanece para além da história, na possibilidade de alguma geração, em alguma época, aceitar o homem com mãos de tesoura. Ele ainda vive.

Edward Mãos de Tesoura (Edward Scissorhands) – EUA, 1990
Direção: Tim Burton
Roteiro: Caroline Thompson
Elenco: Johnny Depp, Winona Ryder, Dianne Wiest, Anthony Michael Hall, Kathy Baker, Vincent Price, Alan Arkin, Robert Oliveri, Caroline Aaron, Conchata Ferrel
Duração: 105 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.