Crítica | Ela

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estrelas 4,5Dentre todas as criaturas que habitam este chão que chamamos de Terra, o ser humano, considerado a única espécie racional, é o que mais sente a necessidade de amar. Desde pequenos somos criados com o ideal de que devemos, em algum momento da vida, nos apaixonar, casar e constituir uma família. Viver sozinho não é para o ser humano. A necessidade de uma companhia com quem se possa ter os mais variados tipos de relações, sejam elas físicas ou emocionais, está enraizada em nós. E por isso, estamos fadados a sempre sofrer por este sentimento inevitável que chamamos de amor.

Mas o que é o amor, no fim das contas? Podemos amar muitas coisas, e não apenas seres humanos. Há limites para o amor? O novo longa de Spike Jonze, Ela, é uma odisseia romântica e futurística que trata justamente desta indagação – até onde nossos sentimentos podem nos levar, até onde o “amor” é aceitável, até onde aquele sentimento pode ser ou parecer recíproco. A partir daí, nota-se um pessimismo inicial na obra de Jonze: o amor é um sentimento real? Ou é apenas uma necessidade do ser humano em ter alguém com quem compartilhar suas experiências, sentimentos e desejos?

Em uma Los Angeles do futuro (porém sem todos os exageros de carros voadores e afins), conhecemos Theodore (Joaquin Phoenix), um homem em processo de divórcio e que trabalha numa empresa onde sua responsabilidade é escrever cartões sentimentais de clientes para outras pessoas. Certo dia, Theodore decide comprar um sistema operacional divulgado como uma nova forma de inteligência artificial, que se auto batiza Samantha (voz de Scarlett Johansson). O software auxilia Theodore na organização pessoal e profissional de sua vida, e quando se dá conta, Theodore acaba por se apaixonar pelo sistema operacional.

Não, o filme de Jonze não é uma crítica didática e revoltada sobre as relações cibernéticas do mundo de hoje, embora haja certa acidez na abordagem de Jonze sobre esta questão. Antes disto, Jonze lança um olhar indagador não sobre o que somos no mundo virtual, mas sobre a imagem que concebemos sobre nós mesmos e sobre os outros quando nos envolvemos ciberneticamente com um individuo. E também os sentimentos que afloram através de tais relações, que misturam alegria, frustração, dor e prazer sexual.

Sem qualquer tipo de julgamento, Jonze lança seus personagens (Amy, vizinha de Theodore e interpretada por Amy Adams, passa pela mesma situação) em uma história de amor que assume ares tão típicos quanto os de uma comédia romântica comum – eles se conhecem, se apaixonam, passam por momentos maravilhosos, brigam… é o amor que conhecemos em sua forma mais pura, aquele amor com o qual sonhamos para nós mesmos.

Um dos principais méritos de Jonze está justamente na maneira crível com que retrata o surgimento inesperado desta paixão. Devido ao processo de divórcio no qual se encontra, Theodore se entrega de corpo e alma ao descobrir os sentimentos que começara a nutrir por Samantha, uma vez que a solidão física e emocional já o afligia. Theodore é um homem em busca da própria felicidade apoiada no outro, esteja ele(a) fisicamente presente ou não. O sentimento é o que move Theodore, aquela necessidade de segurar a mão de alguém torna-se secundária ou até mesmo dispensável – vale mais a própria concepção do que a imagem em sua completa verdade.

Para tanto, é digno de nota o trabalho de Scarlett Johansson na voz de Samantha. De forma intensa, Johansson confere complexidade e completude a algo que apenas ouvimos e jamais vemos (e ainda assim, aposto que muitos criação sua própria concepção da personagem ao longo da projeção), transformando Samantha numa presença que, apesar de não ser visível aos olhos, é constantemente sentida e desejada, trazendo um toque inesperadamente humano para um personagem jamais fisicamente presente. Assim como Theodore, Samantha também possui seus desejos, sofre por amor, mas sem jamais perder a noção de que sua existência palpável jamais poderá se tornar real. Jonze explora isto com uma sensibilidade que nos aproximam de forma bastante intima e pessoal desta situação improvável, e quando nos deparamos com o desfecho amargo e desolador da historia entre Theodore e Samantha, o efeito é nada menos que devastador, e o filme novamente levanta sua principal questão: o que é, de fato, este sentimento que chamamos de amor? E Jonze o indaga das mais variadas formas, seja de forma compartilhada ou pessoal.

Joaquin Phoenix faz um trabalho louvável ao exibir a vulnerabilidade de Theodore diante dese sentimento. O ator concebe uma figura sensível e solitária (apesar de não ser anti-social), mas se jamais tornar-se digno de pena por isto, a identificação que construímos com Theodore surge por outras vertentes. O ator é competente ao trazer um realismo impressionante para uma história improvável, uma vez que apesar de “namorar” um sistema operacional, ele jamais a trata como tal. E Phoenix nos faz crer que o sentimento de Theodore por um software pode ser real. Mesmo a sub-trama com sua ex-esposa, que toma pouco espaço no roteiro (mas garante uma ponta interessante de Rooney Mara), se torna indispensável ao mostrar que cada relacionamento que temos funciona como um processo de amadurecimento. Procuramos não cometer no relacionamento seguinte os erros que cometemos no anterior, e a noção de Theodore sobre este fato confere maturidade ao seu personagem, que corria o sério risco de soar infantilizado, devido a personalidade emocionalmente fragilizada do mesmo.

Pecando apenas numa resolução que segue as convencionalidades das comédias românticas (embora neste caso, também demonstre certa coerência), Ela é um trabalho formidável sobre as relações que construímos em nossa vidas, tenham elas origens reais ou cibernéticas. No fundo, todos estamos prontos a, supostamente, amar alguém e sofrer por isso, por mais resistentes que possamos ser. Sem ingenuidades, Jonze disseca este tema de forma agrabilíssima, leve, mas também com certa amargura devido ao duro realismo do que vemos na tela.

E fazendo um paralelo que pode ou não soar descabido, utilizo para definir a obra de Jonze uma frase do filme (500) Dias com Ela, de Marc Webb: “Isto não é uma história de amor, mas uma história sobre o amor.”

Ela é nada menos que obrigatório.

Ela (Her, EUA, 2013)
Roteiro: Spike Jonze
Direção: Spike Jonze
Elenco: Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Amy Adams, Chris Pratt, Kristen Wiig, Rooney Mara
Duração: 130 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.