Crítica | Electric Dreams, de Philip K. Dick (Parte 1 de 2)

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Arriscaria dizer que a obra literária de Philip K. Dick é mais conhecida aqui e ali apenas em razão de algumas excelentes adaptações cinematográficas ao longo das décadas, adaptações essas que, não seria errado afirmar, apenas capturam a essência da obra original. É o caso de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? que se tornou Blade Runner; O Relatório Minoritário que chegou às telonas por Steven Spielberg em Minority Report e Podemos Recordar para Você, Por um Preço Razoável, que Paul Verhoeven converteu no magistral O Vingador do Futuro, dentre outros de menor destaque.

Mas conhecer PKD apenas por esses filmes, apesar de ser um bom começo, é um desserviço à bibliografia do autor, normalmente muito econômico em palavras e com uma vasta coleção de contos curtos que pouco ganharam a atenção da Sétima Arte, mas que mais do que merecem a atenção de leitores de sci-fi. No entanto, a série de TV britânica Electric Dreams, em formato de antologia, veio para corrigir isso e a presente crítica, em duas partes, tem como objetivo abordar cada um dos contos que ganharam adaptações nesse formato, todos eles compilados em livro homônimo, publicado em 2017 no Reino Unido e outros países do Commonwealth para aproveitar o lançamento da série na Inglaterra e que conta com uma introdução do roteirista de cada adaptação para cada conto respectivo.

Vamos, então, aos comentários sobre os cinco primeiros.

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Exhibit Piece


Data original de publicação: agosto de 1953
Título do episódio da série: Real Life
Páginas: 17

Duzentos anos no futuro, a vida no século XX é o objeto de estudo do detalhista curador de exposição de museu George Müller. Muito mais do que apenas estudar esse passado “longínquo”, ele o absorve em seu dia-a-dia por intermédio do uso de roupas e vocabulário da época.

Usando essa premissa, PKD rapidamente estabelece esse mundo futurista em que o nosso presente — ou o do autor, claro — é uma curiosidade museológica, algo por si só inquietante e que nos ajuda a ter perspectiva da efemeridade de nossa existência. Mais do que isso, em menos de 20 páginas, ele faz um estudo de uma mente em fuga, enquadrando Miller como um homem que busca conforto de uma vida que renega, em uma vida que idealiza, fazendo-nos, ato contínuo, duvidar da própria realidade.

Na verdade, duvidar não, mas indagar sobre o que exatamente é realidade. Miller, ao investigar um barulho que ouve em sua exibição, acaba sendo transportado para o tempo que tanto estuda e vive. Mas será que o que ele vê e ouve está realmente acontecendo ou tudo não passa de um desejo íntimo seu beirando — ou talvez ultrapassando — a sanidade?

É fascinante ver como PKD costura tão eficientemente duas realidades e, no processo, colocando-nos na mente de Miller como um narrador não-confiável, mas que desejamos fervorosamente confiar. A angústia do personagem passa ser a nossa quase que instantaneamente e logo nos pegamos completamente envolvidos na narrativa.

Se existe um problema na história é a tentativa de PKD em nos trazer um final surpresa. O autor não resiste a essa tentação e o resultado desaponta por ser artificial e um tanto quanto aleatório, por jamais ter sido aventado antes. De toda maneira, o conto é viciante e atemporal.

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The Commuter

Data original de publicação: agosto e setembro de 1953
Título do episódio da série: The Commuter
Páginas: 15

Um homem deseja fazer o que faz todo dia: voltar para sua casa em Macon Heights, após um longo dia de trabalho. Mas, ao tentar comprar o bilhete do trem, ele é informado que sua cidade simplesmente não existe. Ele insiste e, no conflito, o homem desaparece completamente. E o mesmo acontece no dia seguinte. Esse fenômeno leva Bob Paine, supervisor da linha férrea, a investigar o ocorrido.

No entanto, não achem que PKD trata o impossível de maneira extraordinária. Muito ao contrário, sua abordagem é brilhantemente mundana, com o fenômeno inexplicável sendo absorvido com tranquilidade por Paine e por sua metódica investigação sobre afinal que lugar é/foi/será Macon Heights.

O autor, portanto, eleva o anormal para o patamar da normalidade, o estranho para o banal e, nesse processo lento, mas eficiente, constrói um universo inteirinho no intervalo de parcas 15 páginas, brindando o leitor com um estudo sobre nostalgia, possibilidades, alternativas e uma visão que funde passado, presente e futuro.

O leitor não deve esperar revelações surpreendentes ou reviravoltas apenas para fim de choque. Aqui, o trabalho de PKD ganha uma organicidade ímpar, com um personagem cativante em sua tenacidade e, principalmente, em sua maneira de encarar o mundo.

E sim, novamente estamos diante de um conto que nos faz arguir sobre a natureza da realidade. Mas, aqui, o autor acrescenta componentes filosóficos ao seu texto, fazendo-nos olhar para nós mesmos com outro olhos. Olhos de quem quer apenas voltar para casa depois de um árduo dia de trabalho.

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The Impossible Planet

Data original de publicação: outubro de 1953
Título do episódio da série: The Impossible Planet
Páginas: 11

Lendo o curtíssimo conto, peguei-me imaginando-o como um episódio de Doctor Who. Afinal, aqui, a premissa é uma senhora surda de mais de 350 anos, acompanhada de um robô, querendo visitar pela primeira vez o mítico planeta Terra, que teria sido a origem de lenda da raça humana nesse futuro extremamente longínquo que PKD aborda.

O piloto da nave cujos serviços ela contrata a peso de ouro, apesar de saber que a Terra poderia não existir, não resiste aos cifrões que vê diante de seus olhos e parte para enganar a velhinha. Sim, o autor apela para nosso lado humano ao transportar para esse seu futuro a exploração dos mais fracos que vemos em nosso presente e, de forma muito semelhante à 2001 – Uma Odisseia no Espaço, mostra que a lealdade robótica é muito mais valiosa que a frieza humana, em um subtexto fortemente presente que ele explora apenas discretamente.

The Impossible Planet, porém, cai na armadilha da economia de palavras de PKD e as conveniências narrativas acabam se amontoando para permitir o final melancólico. Estamos diante de um caso em que mais teria sido realmente melhor.

De toda forma, o conto, em sua simplicidade, é impactante e transmite com clareza sua mensagem que mistura lealdade, solidão e honestidade com pitadas de nostalgia, lenda e um forte senso de finitude. O Doutor e sua TARDIS certamente se sentiriam em casa aqui.

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The Hanging Stranger

Data original de publicação: dezembro de 1953
Título do episódio da série: Kill All Others
Páginas: 18

Sabe aquela história de paranoia de invasão alienígena que ecoa a Guerra Fria que já lemos e assistimos diversas vezes ao longo de nossa vida? Pois é isso que The Hanging Stranger é. E de forma alguma isso é um aspecto negativo.

Afinal, PKD pega uma temática que, até para a época em que escreveu seu conto, era de certa forma useira e vezeira e a transforma em um excepcional conto de tensão e desespero que coloca o leitor nos sapatos de Ed Loyce, um homem comum em uma cidadezinha americana que emerge de uma noite de trabalho duro do tipo “faça você mesmo” nas fundações de sua casa de subúrbio americano para um mundo que passa a ser estranho para ele a partir do momento em que ele vê um homem morto, pendurado pelo pescoço, no poste de iluminação de sua cidade. Mas, pior do que isso, ninguém parece ligar.

Inteligentemente fazendo uso do artifício do narrador não-confiável, PKD nos mantém vendo o mundo exclusivamente pelos olhos de Loyce. Duvidamos da sanidade dele e de cada uma de suas ações que vão em um crescendo paranóico assustador. Mas, ao mesmo tempo que duvidamos, lembramos do material parecido que já se tornou lugar-comum na ficção científica e esperamos o pior.

Mesmo assim, PKD é vitorioso ao nos amarrar em seu ambiente de gato e rato claustrofóbico, cada vez mais diminuto, cada vez mais desesperador. De todos os seus contos, este talvez seja um dos mais claramente “cinematográficos”, mas nem por isso ele deixa de ser um page turner, como dizem os americanos.

The Hanging Stranger funciona em todos os níveis: é uma eficiente reunião de gêneros que coloca o leitor roendo as unhas a cada página. Sim, é comum. Sim, é clichê. Sim, já vimos isso antes. Mas não, não dá para parar de ler.

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Sales Pitch

Data original de publicação: junho de 1954
Título do episódio da série: Sales Pitch
Páginas: 18

Sales Pitch é, ao mesmo tempo, um dos mais “tecnologicamente avançados” e desesperadores contos de PKD. Mas, como costuma ser o padrão ao autor, o uso de tecnologia é soft, apenas uma ponte para lidar com o que realmente interessa.

No conto, passado apenas 100 anos no futuro, viagens interplanetárias são coisas corriqueiras ao ponto de Ed Morris ir e voltar da Terra, onde mora, para Ganimede, onde trabalha, diariamente. O problema é que, durante esse trajeto, o protagonista é quase que literalmente bombardeado por publicidade dos mais variados produtos, em uma linha ainda mais intrusiva do que vimos Spielberg usar em seu Minority Report. Isso o deixa exausto e com vontade de literalmente largar tudo e ir para Proxima Centauri, onde os humanos estão apenas começando a colonizar, ainda com tecnologia do século XX.

Mas mal Ed menciona essa ideia para sua esposa Sally e o lar deles é invadido por um Fasrad, enorme robô faz-tudo que se auto-vende. O tom satírico impera no conto, com determinados momentos 100% farsescos mais para o final que, porém, infelizmente, se pararmos para pensar, estão perigosamente próximos de nosso dia-a-dia.

Escrito em plena época da explosão consumista pós-guerra dos EUA, algo que, com altos e baixos, continua até hoje e que contaminou o mundo, Sales Pitch usa a comicidade para criticar fortemente. Mas enganam-se aqueles que acharem que, por isso, o conto é engraçado no sentido mais comum da palavra. A pegada cômica simplista — aquela construída para primordialmente fazer rir — nunca foi o estilo de PKD e, aqui, não é uma exceção. Ao contrário, o autor usa de exageros — inclusive de natureza psicológica — para provocar e para nós fazer olhar para nós mesmos, para nos envergonhar de nossos impulsos, para nos sacudir do torpor.

Ao nos fazer entrar na pele do quase insano Ed e sua vontade de largar tudo porque não quer mais ver e escutar anúncios, PKD nos passa um recado muito claro do caminho que ele já vislumbrava para o mundo na primeira metade da década de 50. Se não conseguimos ainda fazer viagens interplanetárias em um piscar de olhos, certamente vivemos nesse universo simbiótico de consumo que ele descreve. E isso assusta. Muito…

Electric Dreams, de Philip K. Dick – Parte 1 de 2
Editora (da compilação): Gollancz, selo da Orion Publishing Group
Data de publicação (da compilação): 2017
Autor: Philip K. Dick

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.