Crítica | Electric Dreams, de Philip K. Dick – Parte 2 de 2

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Fechando os 10 contos de Philip K. Dick selecionados para serem adaptados na 1ª Temporada da série britânica Electric Dreams, em formato de antologia, que começamos a criticar na Parte 1 do presente artigo, fiquem com nossos comentários sobre os cinco contos finais, conforme compilados em publicação lançada no Reino Unido, que leva o nome da série e cuja publicação foi prometida no Brasil para março de 2018 pela Editora Aleph.
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The Father-Thing

Data original de publicação: dezembro de 1954
Título do episódio da série: The Father-Thing
Páginas: 15

The Father-Thing é a versão de PKD para o tema clássico da substituição de seres humanos por outros seres (alienígenas ou não) que era tão comum nos anos 50 e 60. Mal comparando, o conto é o que Sinais, de M. Night Shyamalan, representa para os filmes de invasão alienígena: um recorte íntimo e circunscrito a uma família de algo potencialmente muito maior.

E tudo isso com um toque de Conta Comigo, já que o foco é em Charles Walton, uma criança que arregimenta a ajuda de amigos para enfrentar seu pai, que ele tem certeza que não é mais seu pai, tudo ali no jardim de sua casa. O resultado é um conto tenso, bem construído e que ao mesmo tempo carrega aquela relação de camaradagem entre amigos.

Como de praxe, PKD não esconde a natureza do que escreve, pelo que não demora e o leitor já sabe o que está efetivamente acontecendo (mas que não mencionarei aqui para evitar spoilers). Afinal, não é o mistério em si que importa, mas sim a maneira como o autor costura sua narrativa de suspense e aventura, que torna a leitura fácil e agradável.

O que me impede de dar a nota máxima é o final de The Father-Thing, que foge de uma resolução redonda em prol de um fechamento estranhamento aberto, quase solto. Além disso, ainda que Charles seja bem trabalhado, seus dois amigos – centrais à trama – parecem personagens recortados em cartolina, algo provavelmente resultante da economia de palavras.

De toda maneira, o conto alcança seu objetivo de assustar e de estabelecer um interessante comentário social sobre a relação entre pai e filho em um universo diminuto, mas representativo. E tudo no estilo PKD de ser, é claro.

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The Hood Maker

Data original de publicação: junho de 1955
Título do episódio da série: The F Maker
Páginas: 17

De maneira exatamente oposta ao conto anterior, The Hood Maker lida com uma conspiração mundial por mutantes telepatas para dominar a Terra. E, como é comum com as obras de PKD, o autor arremessa o leitor diretamente no meio da ação, sem maiores explicações.

Mas os detalhes vêm, pode deixar. A teia que o autor tece é organicamente trabalhada a partir da ação inicial em que vemos um jovem denunciar um homem que estaria usando um capuz – que não é exatamente um capuz, apesar do uso do termo hood – para evitar que seus pensamentos sejam lidos pelos tais telepatas. Afinal, se alguém não tem nada a temer, para que impedir a leitura de mente, não é mesmo?

E, assim, partindo da premissa sci-fi, PKD discute a liberdade de pensamento e de expressão em toda a sua plenitude, algo que de certa forma ele aborda também em O Relatório Minoritário. Mais do que isso, o conto impressiona por ser extremamente atual, em uma era de pensamentos polarizadores, absolutos e intolerantes com opiniões dissonantes.

Criando um universo surpreendentemente complexo e com mitologia ancestral própria, este talvez seja um dos melhores exemplares da capacidade de PKD de criar universos detalhistas e diferentemente iguais ao que vivemos. Há um natural estranhamento inicial quando a leitura começa, mas, de forma constante e precisa, o autor estabelece o que precisa para fazer sua história funcionar.

Assustador e eficiente, The Hood Maker é um fascinante conto que nos faz pausar e pensar no que nos cerca nesse exato minuto. Não, não temos mutantes telepatas nos ameaçando, mas a grande verdade é que não precisamos deles…

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Foster, You’re Dead

Data original de publicação: 1955
Título do episódio da série: Safe & Sound
Páginas: 24

Consumismo é um tema recorrente na bibliografia de PKD. Nós vemos o assunto perpassando Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, com a obsessão de Deckard de novamente ter um animal vivo e também no conto Sales Pitch. E as alfinetadas do autor são até mais atuais hoje do que eram em meados do século XX.

Foster, You’re Dead é, talvez, o ponto alto dessa temática e um dos melhores trabalhos de PKD. No conto, somos apresentados a uma espécie de “presente distópico” que exacerba em muito a paranoia da Guerra Fria, em que os EUA – e talvez todo o resto do mundo – literalmente vivem em função da ameaça de uma guerra nuclear.

Quando digo “vivem em função” é isso mesmo que quero dizer: a matérias escolares são voltadas à sobrevivência em condições extremas e bunkers subterrâneos são vendidos como automóveis, com todo ano um modelo novo sendo lançado para atiçar a cobiça dos consumidores que, claro, simplesmente precisam ter aquele novo e e essencial produto, seja por genuinamente “precisar”, seja para mostrar ao seu vizinho que “tem o melhor e mais caro”. Em outras palavras: PKD praticamente descreve nosso dia-a-dia comandando por comprar o desnecessário somente para mostrar aos outros que se tem o melhor, sem pensar absolutamente em mais nada. Obsolescência é a palavra-chave e ela é, posso garantir, muito, mas MUITO mais presente hoje do que na década de 50, quando o conto foi escrito, ainda que tenha sido essa década a “responsável” por essa, digamos, tendência mundial.

Nesse mundo, vemos o jovem Mike Foster, na escola, sendo ridicularizado por seus colegas e até professor por sua família não ter um abrigo nuclear (nem mesmo um modelo ultrapassado!) e por seu pai ser um anti-P, o único na cidade e um dos poucos nos EUA que se recusa a se “preparar” para a guerra, por simplesmente acreditar que ela não é mais do que uma loucura paranóica criada pelo governo para girar uma economia baseada no belicismo.

Esse perturbador – por se tão próximo ao nosso – universo criado por PKD é abordado, então, mais uma vez, pelo microcosmo da relação pai e filho. Cada um tem um ponto de vista oposto ao outro e eles são absolutamente inconciliáveis. Mike, em tenra idade, compreensivelmente precisa integrar-se à sociedade em que vive, ao passo que o pai enxerga com clareza todo o estratagema consumista e se recusa a dobrar-se. É uma fascinante queda de braço psicológica que o autor desenvolve com maestria e, principalmente, pitadas de melancolia que ecoam fundo, tenho certeza, em cada um de nós.

Foster, You’re Dead é um daqueles contos que, quando acaba, deixa o leitor cabisbaixo e com vergonha de si próprio. É um serviço de despertador para a nossa realidade que merece ser lido, relido e propagado.

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Human Is

Data original de publicação: inverno de 1955
Título do episódio da série: Human Is
Páginas: 15

O que é ser humano?” PKD já fez essa pergunta várias vezes em suas obras e não seria errado afirmar que ela é a pedra de toque de sua bibliografia. Human Is abraça essa temática em uma narrativa clichê, mas extasiaste, de “corpos trocados”, só que sem a pegada de horror de, por exemplo, The Father-Thing. E o autor, de maneira singela e bastante direta, responde à pergunta que faz, deixando o leitor com um inevitável sorriso no rosto.

O ambiente é futurista, em que, depois que um homem volta de uma viagem interplanetária para fins de pesquisa, sua esposa passa a desconfiar que há algo muito errado com ele. Sua postura antes estóica e verbalmente violenta com a mulher muda da água para o vinho, com sua estada fora de Terra transformando-o em um marido atencioso e amoroso.

PKD, como de costume, não esconde o mistério. Ao contrário, ele é apenas um trampolim para um breve estudo da natureza humana e o que efetivamente importa para que ela seja estabelecida.

Talvez o autor descambe um pouco para o maniqueísmo ao caracterizar de maneira tão opostas às duas personalidades do marido, mas o espaço era curto, o que dita o ritmo e a escolha narrativa na apresentação de completos opostos. Afinal, o que importa, na história, é o pano de fundo, é a pergunta eterna que pode ser respondida de várias maneiras, mas que o autor escolhe seu belo caminho.

Human Is encanta e aquece corações, em uma visão diferente de futuro do que o autor costuma apresentar em suas obras. Um pouco de otimismo não faz mal a ninguém, não é mesmo?

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Autofac

Data original de publicação: novembro de 1955
Título do episódio da série: Real Life
Páginas: 30

O mais longo conto de PKD da presente compilação é, também, talvez, o que apresenta um futuro distópico pós-guerra nuclear mais completo e vasto em sua bibliografia. Como costuma fazer, o autor, em Autofac, já nos joga nesse momento e constrói seu universo vagarosamente, oferecendo-nos uma visão diferente sobre a função das máquinas nesse cenário hipotético.

Afinal de contas, se olharmos em retrospecto para as obras de ficção científica do final do século XIX em diante, lembraremos que os seres metálicos, sejam da forma que forem, normalmente são vilões, por várias vezes até os grandes causadores da dizimação da humanidade. No entanto, aqui, PKD inverte a lógica é coloca as máquinas como os últimos bastiões da manutenção da vida humana sobre a Terra, depois da destruição do planeta alguns anos antes.

Mas calma que a coisa não é tão simples assim, logicamente. As Autofacs, acrônimo de automatic factories ou “fábricas automatizadas” tomaram o planeta de assalto, a partir de programação humana parte de um complexo plano de contingência para situações extremas. Usando o que conseguem retirar do planeta, as máquinas fabricam aquilo que os grupos humanos remanescentes precisam, de roupas a alimentos, distribuídos metodicamente de acordo com a jurisdição de cada uma das provavelmente milhares de fábricas.

Esse trabalho que não para por um lado cumpre sua função de manter vivos os humanos, mas, por outro, retira da humanidade qualquer semblante de controle sobre seu futuro. A ironia não escapa à PKD: os humanos criaram as fábricas automatizadas para impedir seu fim, mas, agora, não têm mais escolha a não ser sentar e esperar que uma máquina descarregue produtos de subsistência. É o velho “dando o peixe no lugar de ensinar quem precisa a pescar” em um ciclo vicioso perverso que, ao mesmo tempo, tem o potencial de acabar com as reservas naturais do planeta.

Nesse fascinante mundo futurista, vemos um grupo de humanos tentando reverter esse cenário em um complicado jogo que arrisca suas vidas e, potencialmente, de todos os demais sobreviventes. É brilhante ver a evolução da história pela caneta de PKD, já que, aqui, ele usa as páginas extras para criar uma passagem de tempo bem maior em uma escolha incomum para o autor, mas que funciona perfeitamente bem para passar ao leitor a complexidade desse seu angustiante e kafkiano futuro distópico.

Autofac é tão assustador quanto excitante. Tão complexo quanto objetivo  e tão pessimista quanto reflexivo. É PKD em sua melhor forma em um conto que, sozinho, teria potencial de ser convertido em uma minissérie televisiva.

Editora (da compilação): Gollancz, selo da Orion Publishing Group 
Data de publicação (da compilação): 2017
Autor: Philip K. Dick

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.