Crítica | Elefante

estrelas 5,0

Em seus filmes mais experimentais como Gerry, Últimos Dias e este Elefante, Gus Van Sant procura ilustrar para o espectador uma experiência puramente subjetiva: olhamos com os olhos dos seus personagens, vivemos como eles e, conseqüentemente, nos sentimos como eles. Essa característica muito peculiar do cinema do diretor norte-americano é o que faz de suas narrativas aparentemente simples, instigantes. A abordagem de Van Sant em termos de movimentação de câmera e composição da mise-en-scène é muito bem cuidada, principalmente em Elefante, que lhe rendeu o prêmio de melhor direção em Cannes, além da tão cobiçada Palma de Ouro, em 2003.

A obra retrata o massacre de Columbine através da visão de seu diretor, que obviamente distorce os fatos para se prender apenas aos seus personagens, construídos em parceria com os atores – todos amadores – que participam do projeto. Numa estratégia que revela toda sua perspicácia na manipulação do tempo, Van Sant decidiu por utilizar a dinâmica das relações entre os alunos da escola como um artifício para mostrar uma pequena parcela de um dia fatídico através dos olhos de cada um. Dessa forma, o filme foi montado em espécies de “capítulos”. Em cada “capítulo” acompanhamos um personagem diferente, caminhamos com este personagem; vivenciamos uma parte dolorosa do seu cotidiano: ultrapassar os corredores da escola. Sim, ultrapassar. Estar acima, à frente do gigante intimidante. E, para isso, é preciso passar por ele.

Em se tratando de um filme de Gus Van Sant, seria muita ingenuidade de nossa parte se pensássemos que sabemos de tudo o que se passa – por mais que estejamos envoltos psicologicamente por esta incansável caminhada junto dos alunos da escola. Em cada olhar, em cada expressão contida de seus personagens há muita coisa que não nos foi explicitada em nenhum momento. No entanto, tampouco eles próprios são capazes de desvendar seus sentimentos conflitantes. Essa é uma das características que tornam o filme a experiência única que é: através do profundo silêncio, do “não entender” e do “reagir a tudo com um olhar incapacitado”, a adolescência é ilustrada em “Elefante” como um lugar onde não gostaríamos de estar. É aquela escola.

Qualquer escola é um lugar terrível, de competitividade extrema, onde sentimentos dos mais variados entram em conflito. Para o jovem, é uma batalha que está sendo travada, todo dia em que este põe os pés na entrada da instituição de ensino e inicia suas longas caminhadas por aqueles corredores vazios – que parecem representar seu próprio estado de espírito. O querer ser alguém; se descobrir e ser o melhor, é um aspecto da natureza humana que parece eclodir durante a juventude, e Van Sant nos mostra tudo isso de forma crua, e por isso mesmo, cruel, com acurácia e a calmaria necessária para que se possa refletir.

Há pouquíssimos diálogos no filme. No entanto (justamente pela escassez de diálogos e a soberania do silêncio), somos condicionados a deduzir que os personagens que estão na tela gastam o seu tempo a pensar, e muito. O tempo todo. Estão sempre cheios de dúvidas, angustiados, curiosos… Sempre pensam em alguma coisa. Enquanto os acompanhamos pelos corredores fantasmas da escola, sabemos que suas cabeças estão repletas de questionamentos, porém jamais somos convidados a adentrar nas entranhas de suas mentes. Isso acontece porque se trata de um filme pautado pela extrema incerteza. É nela que Elefante busca forças para desafiar o espectador. Não há um mergulho no psicológico dos personagens, no entanto estamos com eles o tempo inteiro: somos camaleões, trocamos de pele a todo o momento. Somos quem acompanhamos pelos corredores. Proximidade intensa, perturbadora.

A narrativa em si é simples, no entanto, a forma com que é conduzida tem certa complexidade – uma complexidade necessária, mais do que apropriada para o tema em questão. Primeiramente, somos apresentados a John, um rapaz loiro, que está sendo conduzido à escola pelo seu pai, totalmente bêbado. John pede para seu pai sair do carro e toma o seu lugar na direção. Depois, conhecemos Elias, no campus da escola, fotografando um casal. Corta. Acompanhamos agora, num plano aberto, meninos e meninas em seus exercícios durante a aula de educação física, num vasto gramado. A câmera se mantém estática por um bom momento. No primeiro plano, surge uma menina de cabelos cacheados. Mais tarde descobrimos que se chama Michelle. Olha para os lados, para cima e continua sua caminhada, saindo de quadro. Um garoto de porte atlético se aproxima da câmera; veste seu casaco vermelho – e então finalmente saímos da posição de contempladores de um só panorama e passamos a acompanhá-lo pelas costas. Na parte de trás do casaco, vemos que está escrito “Salva-Vidas”, que mais tarde pode ser atestado como uma espécie de ironia premeditada. É um longo plano-sequência. Ao fundo, ouvimos Beethoven. Enquanto isso, o garoto caminha e caminha e caminha. Vemos um casal se beijando num canto. Num outro, um jovem toca violão sentado na grama. Não há cortes, até o momento em que o garoto entra no prédio. No corredor da escola, ele vai caminhar mais, esbarrar com um grupo de três garotas que o encaram de maneira sedutora, até que passamos a acompanhá-lo de frente e, numa grande sacada (utilizada com inteligência em outras cenas também) Gus Van Sant desfoca o que está atrás do personagem, tornando-o o centro daquele universo que, afinal, é o seu próprio. O garoto finalmente encontra sua namorada e os dois vão até a secretaria. Lá está John.

Gus Van Sant monta um grande tabuleiro dos encontros e desencontros dos jovens e desta forma, dilata o tempo. Assim, vemos situações que se repetem, às vezes mais de uma vez, porém acompanhamos o ponto de vista de personagens distintos para cada uma dessas situações. Em certo momento, seguimos John pelo corredor. Ele encontra Elias, o fotógrafo. Elias pergunta se pode tirar uma foto de John. O garoto responde que sim e aproveita para fazer uma pose esnobe. Enquanto a foto está sendo tirada, percebemos no canto, discretamente, passar Michelle, a garota de cabelos cacheados, reclusa e misteriosa, que aparecia anteriormente – durante a seqüência da aula de educação física – olhando para o nada. Continuamos a acompanhar John, que sai ao ar livre para conferir se seu irmão já havia buscado seu pai bêbado e o levado de volta para casa. Dois garotos, Eric e Alex, com roupas de camuflagem e aparência perturbada, se dirigem ao prédio da escola e avisam para John: “algo ruim vai acontecer”. Mais tarde, vemos Eli se encontrando com John no corredor, pedindo para tirar foto. Resposta positiva. Pose de John. Elias tira a foto, Michelle passa no canto. No entanto, seguimos agora Eli, que vai até a biblioteca. Nesse momento, já sabemos que John sai e encontra os dois garotos que o avisam que “algo ruim vai acontecer”, o que nos causa uma antecipação de nervosismo quando vemos Eli indo descontraidamente à biblioteca. Sabemos mais que Eli, porém, sabemos o mesmo que John. Um tempo depois, quem acompanhamos nessa mesma situação é Michelle. À sua frente, John e Eli estão desfocados, no entanto, ouvimos aquele mesmo diálogo despretensioso dos dois. Michelle também vai à biblioteca. Começa a mexer nos livros, está de costas para a câmera, até o momento em que ouvimos uma arma sendo engatilhada. Michelle se vira. Corta.

Através de um enredo simples, sem desnecessários floreios narrativos, Van Sant consegue externar para o espectador o que é ser jovem e se sentir impotente e acuado, através de ótimas metáforas e associações – que só enriquecem a obra: é provocativo, com uma espécie de ironia ácida quando coloca pendurado no carro, entre Eric e Alex, um boneco vermelho de aparência diabólica; cria significados a partir de diálogos ultrajantes como aquele em que Eric diz para Alex: “atirei no diretor e em algumas outras pessoas”, com a maior naturalidade e até certa inocência, fazendo o outro “responder” com um simples tiro que mata o amigo; e une o aspecto infantil ao grotesco dos jovens na própria cena final que revela um Alex transtornado, prestes a matar Nathan (o garoto atlético do casaco de “Salva-Vidas”) e Carrie, o casal perfeito, que representa a beleza e a popularidade, duas coisas extremamente cobiçadas pela juventude. Enquanto ameaça os dois com sua arma, o garoto começa a pronunciar um antigo provérbio, extremamente inocente e lúdico, de modo provocativo, e lhe confere uma aura sinistra: “minha mãe mandou eu escolher esse daqui, mas como eu sou teimoso eu escolhi esse daqui”. A câmera de Gus se afasta lentamente. Corta. O que vemos agora são nuvens e o que ouvimos é, novamente, Beethoven. A calmaria retorna. E, assim, o cineasta põe fim à sua peregrinação pelos meandros da juventude perdida.

Elefante (Elephant) – Estados Unidos, 2003
Direção: Gus Van Sant
Roteiro: Gus Van Sant
Elenco: John Robinson, Alex Frost, Elias McConnell, Eric Deulen, Nathan Tyson, Carrie Finklea, Kristen Hicks, Alicia Miles
Duração: 81 min.

KARAM . . . Desde 1992, o ano em que foi apresentado ao mundo por duas admiráveis criaturas que logo se identificaram como "pais", Karam vem se aventurando pelos caminhos da Arte, da maneira que pode. Na música, Aretha Franklin é a sua pastora. Na Literatura, andou se entendendo muito bem com Clarice Lispector e Oscar Wilde. Embora faça faculdade de Cinema, não esconde que seu filme preferido – ao contrário do que muitos poderiam presumir – não é nenhum cult de Bergman ou Fellini, mas sim O Rei Leão; é!, aquele lá mesmo, da Disney. Um dia leu, em Leminski, que "isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além" e, assim, resolveu investir na ideia proposta pelo poeta para, quem sabe um dia, chegar ao além sem precisar passar pelo infinito – que é a pra não ter a infelicidade de esbarrar com o Buzz Lightyear no meio do caminho (fora, concorrência!).