Crítica | Elegia Moscovita

estrelas 4

Esse documentário de tom elegíaco — algo muito comum na filmografia de Aleksandr Sokúrov — foi realizado no ano seguinte à morte de Andrei Trakóvski e configura-se uma homenagem explícita de Sokúrov ao amigo diretor, um mestre do cinema metafísico, área pela qual o próprio Sokúrov iria se enveredar em seus filmes, nos anos seguintes.

Elegia Moscovita (1987) é um longa-metragem bastante emotivo que percorre os últimos passos de Tarkóvski, desde a sua saída da União Soviética para filmar na Itália, até a sua morte em Paris, vítima de câncer. Entendemos alguns detalhes do exílio de Tarkóvski, que começou com uma simples viagem à Nápoles para a realização de Nostalgia (1983), ao lado de Tonino Guerra, pareceria que iria gerar o documentário Tempo de Viagem (1983), do qual Sokúrov usa muitas cenas, chateando um pouco o espectador que já conhece aquela obra.

Sokúrov analisa a recusa do governo soviético em dar um trabalho para Tarkóvski na URSS, forçando a sua permanência no Ocidente, caso quisesse sustentar sua família. Alguns de seus amigos da VGIK (a Universidade de Cinema da Rússia, a mais antiga do mundo), por inveja, acabaram não ajudando muito nesse processo. Os outros tentaram o que puderam, mas não foram bem sucedidos. Elegia Moscovita aborda de maneira distanciada esse período difícil da carreira do diretor, marcando fortemente o tema de suas duas obras finais.

O lado historiador de Sokúrov (ele de fato é historiador, graduação que concluiu antes de cursar cinema) fica muito evidente no filme quando a colocação da morte de Leonid Brejnev aparece como uma possível quebra do grilhão de recrudescimento do regime, o que supostamente deveria ter dado à URSS um caminho mais livre, inclusive para artistas como Tarkóvski seguirem trabalhando. É pena que Sokúrov se perde um pouco ao contextualizar esse evento na linha narrativa central do documentário, o que deixa a colocação nebulosa para alguns espectadores que não dominam bem esse período da história.

Se Sokúrov não foi muito feliz na representação do primeiro filme de Tarkóvski fora de seu país de origem — porque apresenta um material vindo de outro documentário e com poucas imagens novas –, na segunda parte, quando nos apresenta as filmagens de O Sacrifício (1986), a coisa ganha uma outra figura. Não apenas trazendo um rico material de bastidor, mas discutindo de maneira mais ampla os caminhos de Tarkóvski, da sua infância ao momento de sua morte. Temos uma espécie de grande retrato da vida do cineasta russo homenageado no documentário. Ao se aproximar do final da película, Sokúrov escolhe imagens que dão conta da luta de Tarkóvski contra a doença (uma segunda escolha impulsionada por muitos pedidos da esposa, já que o diretor inicialmente recusara qualquer tipo de tratamento) e também a finalização de O Sacrifício, com direto a uma discussão sobre a montagem do filme feita num leito de hospital, com parte da equipe de produção no quarto.

O valor de Elegia Moscovita é muito grande, embora seja-o apenas por uma parte. Trata-se de um documentário fraterno, uma franca homenagem de um cineasta a outro, trazendo imagens de diversos momentos da vida de Tarkóvski e perpassando não só a sua vida profissional de sucesso mas também a sua vida pessoal cheia de percalços e algumas dificuldades, inclusive financeiras. É uma elegia convidativa para entrar no universo pessoal de um genial mestre do cinema.

Elegia Moscovita (Moskovskaya elegiya) — URSS, 1987
Direção: Aleksandr Sokúrov
Roteiro: Aleksandr Sokúrov, Tonino Guerra, Andrei Trakóvski
Elenco: Aleksandr Sokúrov, Tonino Guerra, Andrei Trakóvski
Duração: 88 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.