Crítica | Elektra (2005)

estrelas 2

Spoilers!

A recente parceria da Netflix com a Marvel, é necessário reconhecer e valorizar, tem resultado em muitas alegrias, com títulos como Jessica Jones e, principalmente, Demolidor, a partir de uma abordagem mais realista e sombria, agradando não apenas fãs dos personagens originais, dos quadrinhos, mas também cativando até quem antes alimentava certo desgosto por histórias de heróis. É inegável, porém, que a Marvel também tem momentos especialmente negros em seu histórico audiovisual, tanto na TV quanto no cinema.

O filme Elektra certamente é um bom exemplo de um desses momentos. De fato, se não fosse por um apuro técnico satisfatório para padrões comerciais da época – mas que, ainda assim, deixa muito a desejar -, o longa seria um verdadeiro fiasco, tão má é a qualidade do roteiro que apresenta. Cronologicamente, a trama se passa após os eventos de Demolidor – O Homem Sem Medo (2003). Depois de ser morta pelo Mercenário, no filme anterior, Elektra (Jennifer Garner) é ressuscitada por Stick (Terence Stamp), personagem importante de uma ordem de assassinos, bem conhecido dos fãs dos quadrinhos. Ele tenta retomar o treinamento de Elektra nas artes marciais, mas, notando muito ódio no coração da moça, pede que ela se vá.

O roteiro, veja bem, não se preocupa em explicar claramente como ela morreu, nem por quais motivos. Por meio de flashbacks, temos um vislumbre ou outro de sua infância, regida pelo pai severo. Exilada, Elektra se torna uma matadora de aluguel – não que a produção invista muito tempo em nos convencer disso. Na verdade, apenas vemos Elektra nesse trabalho em um prólogo, por si só, totalmente desnecessário, que parece ter sido inserido de última hora só para que a protagonista não parecesse tão absurdamente açucarada quanto, no final das contas, continua a parecer. Logo somos apresentados a um tipo de assistente da moça, que o roteiro também não se preocupa em explicar como, nem por que entrou na vida dela, só para matá-lo, sem desenvolvimento algum, a certa altura da trama.

Não nos antecipemos, contudo: o rapaz alerta a matadora sobre um cliente misterioso, que deseja que ela elimine um alvo específico, também desconhecido. O cliente em questão pede que ela se dirija a certo endereço, junto à natureza, e espere alguns dias por lá. Elektra o faz e conhece a pré-adolescente Abby (Kirsten Prout) e seu pai, Mark (Goran Visnjic), que moram sozinhos após a morte da mãe da garota. Não demora, pois, para que Elektra, uma assassina impiedosa de aluguel, crie uma ligação com a menina, mal conhecendo-a, e para que o pai de Abby, malandrinho, tasque um beijo na moça, também mal sabendo quem ela é. Enfim, o roteiro faz tudo aos atropelos, não desenvolve devidamente um elo emocional convincente para o apego de Elektra a Abby – que, por sua vez, parece só mais uma garota mimada do que especial ou superdotada, como o texto quer nos fazer crer. Descobrimos, então, que o alvo do cliente misterioso é, adivinhe, a garota, e que a pré-adolescente é perseguida por uma organização do mal – só Deus sabe exatamente o porquê -, chamada Tentáculo. Ficamos sabendo, também, que a mãe de Abby fora morta pelo Tentáculo quando buscavam capturar a menina para si, de modo a usar seu potencial em benefício da organização. Por que o Tentáculo levou tanto tempo para reencontrar a menina, como ela conseguiu fugir no passado, são questões que cabem ao imaginário do expectador responder.

Elektra, claro, não só se recusa a matar Abby como se dispõe a protegê-la. Não dá para contar mais sem soltar spoilers, mas basta dizer que a coisa segue daí para pior, com antagonistas que muito poderiam fazer pelo filme, mas não o fazem, em absoluto, com um desenrolar cheio de conveniências e pouca coerência e com o expectador tendo de aguentar frases do tipo: “Vá lá, minha guerreira!”. O que levou a Marvel a ser condizente com um projeto desses, não se sabe, mas espera-se que casos do tipo fiquem, assim como a primeira morte de Elektra, em um passado negro cada vez mais distante.

Elektra (Idem), EUA – 2005
Direção: Rob Bowman
Roteiro: Mark Steven Johnson, Zak Penn, Stu Zicherman, Raven Metzner (baseado em obra de Frank Miller)
Elenco: Jennifer Garner, Goran Visnjic, Kirsten Prout, Will Yun Lee, Cary-Hiroyuki Tagawa, Terence Stamp, Natassia Malthe, Bob Sapp, Chris Ackerman, Edson T. Ribeiro
Duração: 97 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.