Crítica | Eles Vivem

estrelas 3,5

Sátira política em forma de ficção científica, Eles Vivem é mais um dos interessantes filmes que John Carpenter dirigiu nos anos 1980. Após nos mostrar pelo menos duas extremas abordagens para alienígenas na Terra, uma mais trágica em O Enigma de Outro Mundo e outra mais familiar e romântica em Starman – O Homem das Estrelas, o diretor tinha ainda um débito com alguma abordagem descaradamente social para o tema, exatamente como ele fizera com a violência em Fuga de Nova York. E foi sob esse parâmetro de procurar pensar sobre as implicações sociais de uma dominação que Eles Vivem começou a ser produzido.

Baseado no conto Eight O’Clock in the Morning, de Ray Nelson, o filme nos mostra como um homem desempregado acidentalmente descobre que o planeta é habitado e controlado por uma raça alienígena que está completamente integrada à sociedade. Disfarçados como humanos e trabalhando para escravizar a humanidade e tornar a nossa atmosfera a atmosfera deles, esses aliens, assim como suas mensagens subliminares, são descobertos quando vistos através de lentes especiais. É nesse momento que, lembrando o Mito da Caverna de Platão e o clássico Vampiros de Almas (1956), o protagonista tenta sobreviver e descobrir um jeito de livrar a humanidade da escravidão para a qual está completamente adormecida.

Eles vivem, nós dormimos.

John Carpenter mergulha fundo na crítica para a atuação dominadora das várias mídias, da propaganda e dos discursos políticos ou moralistas na televisão, mostrando-nos de forma ao mesmo tempo amedrontadora e divertida como o consumo extremo, o enriquecimento desenfreado de alguns grupos e o crescimento da pobreza em outros é algo que, a partir de certo ponto do século XX (final dos anos 1970, para definir melhor) se tornou muito mais do que simples consequência do capitalismo. O discurso de aparência esquerdista do diretor é na verdade um misto de “uma boa ideia para um filme” com uma crítica, sátira ou descontentamento frente a atitude de Ronald Reagan (1981 – 1989) para com a economia interna dos Estados Unidos.

Esse entrelaçamento do Estado com o cotidiano é visto de forma constante no decorrer do filme, embora a atuação dessa “mão invisível” esteja melhor representada pelos jornais, telejornais e força policial. Derivam daí a exposição do crescente desemprego, o crescimento dos guetos, da violência urbana, do medo em todas as camadas da sociedade e, curiosamente, de uma aparência de normalidade que incomoda e impressiona em igual medida. O fato do filme não ter uma fotografia de cores muito fortes, nem para o frio nem para o quente, ajuda a criar uma falsa sensação de conforto. A mesma coisa podemos dizer da composição dos planos, sempre destacando quebras internas — a abertura é particularmente precisa nisso, com o personagem de Roddy Piper caminhando em uma rodovia ao lado de um trilho, onde podemos ver um vagão abandonado — e, a pesar de algumas tomadas em grande plano geral, optando majoritariamente pela simplicidade.

Carpenter e Alan Howarth tomaram um riff em linha do baixo como motor para a trilha sonora blues, com várias adições ou destaques de instrumentos ao longo do filme (gaita e percussão, por exemplo), criando uma outra dualidade emocional, mescla de melancolia e felicidade, dependendo do ângulo ou condição social da pessoa/alien que vemos. Essa sensação pode ser igualmente vista nos espaços visitados, já que a música de tons médios e menores se ajusta bem em qualquer lugar, ganhando imediatamente significados diferentes.

Parcialmente filmado em preto e branco e com truques simples mas muito bem executados na montagem, Eles Vivem permanece atual e demorará muito tempo até que sua mensagem não reflita a sociedade em que vivemos. Apesar de tropeços de roteiro como uma longa cena de luta sem muito significado para a trama e um final feliz que recebe um corte abrupto, cínico e dramaticamente insosso, a obra se mantém muito acima da média e deveria ser revista pelos que a odiaram em uma primeira sessão. Há muita coisa boa em Eles Vivem. Basta colocar os óculos certos e ver com cuidado.

Eles Vivem (They Live)  — EUA, 1988
Direção: John Carpenter
Roteiro: John Carpenter (sob o pseudônimo de Frank Armitage), baseado no conto Eight O’Clock in the Morning, de Ray Nelson.
Elenco: Roddy Piper, Keith David, Meg Foster, George ‘Buck’ Flower, Peter Jason, Raymond St. Jacques, Jason Robards III, John Lawrence, Susan Barnes, Sy Richardson, Wendy Brainard
Duração: 93 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.