Crítica | Elis

estrelas 3

Superficialidade é uma palavra que incomoda. Caso sejamos julgados de superficiais em um trabalho acadêmico, possivelmente deixamos de radiografar algum elemento importante para a confirmação da tese. Se alguém nos aponta como superficial em um discurso ou até mesmo em um relacionamento, provavelmente seremos convidados a reavaliar o nosso posicionamento diante da situação. Elis, cinebiografia de uma das maiores cantoras da história da música no Brasil tem sofrido estas acusações. E não são acusações sem fundamento. O cineasta Hugo Prata, tal como os exemplos citados, foi convocado pela crítica especializada a reavaliar o seu filme.

Alguns sucessos da artista para o público escutar, o resgate cênico caprichado e algumas tomadas interessantes não fazem de Elis um filme excepcional, tal como foi a cinebiografada Elis Regina, mulher de temperamento forte e desempenho formidável nos palcos. E quando faço esta acusação, não me refiro aos detalhes íntimos, pois eles pouco importam até certo ponto da narrativa. Os problemas estão mesmo é na superfície, nos acontecimentos corriqueiros, tratados de qualquer forma numa narrativa que empolga em alguns momentos, mas toma do espectador o interesse ao tratar de forma ligeira a maioria dos conflitos, sem espaço para amadurecimento das situações que se encena.

A narrativa oferece um bom panorama. Inicia-se em 1964, com a chegada de Elis Regina (Andreia Horta) no Rio de Janeiro e tem o seu desfecho com a morte da cantora em 1982. Didático, o panorama nos oferece parte da adolescência, a ascensão à fama, o casamento conflituoso com Ronaldo Bôscoli (Gustavo Machado), a redenção no amor com César Mariano (Caco Ciocler), a relação conflituosa com o regime militar e os momentos angustiantes do fim da vida, sendo estes dois tópicos, respectivamente, trabalhados com tanta covardia, numa provável intenção de não manchar a imagem canônica de Elis, que acaba ultrajando a memória do país. Afinal, qualquer elemento desta época que seja malbaratado não ficará por baixo, pois o período dual revelou efervescência cultural e bastante polêmica política.

O roteiro, assinado por Vera Egito e Luiz Bolognesi, em parceria com o cineasta Hugo Prata, reduz demais a vida da artista, uma estratégia arriscada, afinal, foram menos de duas horas para contar uma vida repleta de altos e baixos, crises emocionais, problemas de relacionamento, epifanias líricas, etc. Cheio de frases de efeito e diálogos explicativos, o longa-metragem não dá tempo suficiente para o amadurecimento dos conflitos. Quando uma situação começa a se estabelecer, logo surge outro dilema para nos tirar do foco dramático.

A cenografia está impecável, mas do que adianta se nem a fotografia belíssima de Adrian Teijido salva a obviedade de outros setores técnicos? Elis demonstra-se como mais um exemplar da “síndrome da Wikipédia”. Conservador demais, aprofunda pouco e acaba se tornando refém das numerosas elipses. O som, quase sempre sublinhando alguma situação em cena, revela-se dentro da obviedade, totalmente discrepante com a representação de Elis Regina para o campo da música brasileira.

Há Nelson Mota e Luiz Carlos Miele (Lúcio Mauro Filho) como personagens constantes, mas a omissão de dados para elevação do cânone não engana ninguém. É quando o filme se mostra desonesto com o público. A participação da Globo Filmes dá um ar novelístico ao produto, deixando claro a necessidade de intermediar a narrativa com o público consumidor da rede de TV de maior audiência (e programação questionável) do Brasil. Momentos marcantes como a dependência das drogas e o fiasco no show Olimpíadas do Exército, de 1972, são tratados com descaso, assim como o temperamento explosivo da cantora.

A “pimentinha”, aqui, apresenta-se como a pimenta biquinho, ótima para acompanhar um tira-gosto numa mesa de bar. Não é ardida, não causa sensação alguma, além de se revelar como um aperitivo musical que, por cerca de 90 minutos, nos faz crer que estamos diante do que se convencionou chamar de “música de qualidade”. E isto, caro leitor, não podemos negar.

Em tempos de cinebiografias inundando salas de cinema desde Cazuza – O Tempo Não Para, Elis demorou demais para ser biografada. Em um meticuloso ensaio, a pesquisadora da UFMG, Eneida Maria de Souza, alegou que “biografar é metaforizar o real”. No caso de Elis Regina, a metáfora deu espaço para a metonímia. E não foi para uma licença de linguagem que permitisse melhor adequação para o que foi narrado, ao contrário, a permuta entre as figuras deixou o projeto sem identidade.

Elis Brasil, 2016. 
Direção: Hugo Prata
Roteiro: Hugo Prata, Luiz Bolognesi e Vera Egito
Elenco: Andréia Horta, Caco Ciocler, Gustavo Machado, Júlio Andrade, Lúcio Mauro Filho, Zecarlos Machado.
Duração: 110 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.