Crítica | “Ella Fitzgerald Sings the Cole Porter Songbook” – Ella Fitzgerald

ellacole

estrelas 3,5

A criação do selo Verve Records nos Estados Unidos, em 1956, trouxe junto um tesouro pronto para ser explorado. Ella Fitzgerald, então contratada pela Decca, recebeu a irrecusável proposta de renovação de seu repertório feita por Norman Granz, seu agente, produtor e criador da Verve. Em um cenário onde a cantora teria liberdade para explorar sua voz em arranjos que a favoreciam grandemente (não que isso não acontecesse na Decca, mas lá a cantora estava, de certa forma, estagnada) e a possibilidade de trabalhar com uma grande equipe de músicos e produtores, era impossível resistir ao convite.

O contrato foi assinado e o primeiro resultado dessa transação foi o álbum Ella Fitzgerald Sings the Cole Porter Songbook, o primeiro de uma série de obras de grandes compositores americanos que Ella gravaria, impulsionada pelo estrondoso sucesso deste e do álbum seguinte, Ella Fitzgerald Sings the Rodgers & Hart Songbook.

Se comparados aos outros álbuns da série — ao todo são 8 songbooks, lançados entre 1956 e 1964 –, este com o repertório de Cole Porter é o mais “questionável” em termos de arranjamentos e, em menor grau, de produção musical. Para não ser completamente injusto com o disco, devo dizer que também há certa estranheza em um álbum fora da série original mas que segue o mesmo modelo, Ella Fitzgerald Sings the Antonio Carlos Jobim Songbook (também chamado de Ella Abraça Jobim), lançado em 1981 pela Pablo Records e já em um estágio maduro e com voz cansada da cantora. Mas no caso do álbum com as canções de Cole Porter, não há muitas desculpas aceitáveis.

A pergunta inicial que fazemos é: por quê mudar a essência de canções clássicas? O produtor Norman Granz parece ter aprendido a lição nos discos seguintes, mas neste aqui, talvez na linha de fazer com que tudo parecesse novo sob os auspícios da Verve, ele e o arranjador Buddy Bregman exageraram ou recuaram demais, pecando tanto por excesso quanto pela falta. Em defesa deles, temos o fato de que era o primeiro álbum de uma nova gravadora. Mas ainda assim…

Com um projeto grande como este — são 32 canções, 16 em cada disco –, é preciso tempo para ouvir tudo com calma e avaliar a essência de cada um dos “lados” e o projeto como um todo. No segundo quesito, o pecado é maior por dois motivos; primeiro, pela descaracterização ou fracos arranjos de muitas composições famosas de Cole Porter; e o segundo, pela inevitável comparação com a altíssima qualidade dos songbooks posteriores. Mas não se engane, ainda estamos falando de um álbum muito bom.

O primeiro disco, que começa com a simpática All Through the Night, tem uma levada mais melancólica, mais orquestral e menos interessante no todo. A coisa começa a ficar realmente boa na terceira música, Miss Otis Regrets, uma notável versão em voz e piano, que lembra um pouco a versão clássica de Ethel Waters (1934), mas com uma docilidade que faz a gente querer perdoar Miss Otis de imediato por ter “dado um bolo” no tão esperado almoço. A mesma delicadeza segue na latinizada In the Still of the Night e vai assim até as coisas ficarem mais aceleradas, no meio do disco, com a deliciosa I’m Always True to You in My Fashion (preste atenção na dicção fora de série de Fitzgerald nessa canção). O ponto alto dessa primeira parte de 16 canções do songbook é, obviamente, Let’s do It – Let’s Fall in Love, até porque precisa de muita coisa para estragar uma canção dessas, convenhamos. Mesmo que o ouvinte esteja acostumado com versões em compasso mais acelerado, sopros e tudo o mais, o piano, a bateria e a voz são o bastante para esta interpretação, que funciona muitíssimo bem. Definitivamente, uma das melhores versões dessa da canção.

Just One of Those Things começa tímida demais para o porte irônico da canção mas vai ficando cada vez melhor, chegando a um excelente estágio ao final, com a entrada da banda e a exploração dos agudos da cantora. O último grande momento é Ev’ry Time We Say Goodbye, esta sim, uma versão definitiva da canção, pelo sentimentalismo sinfônico que lhe caiu como uma luva e, mais uma vez, pela identidade única da interpretação. Em Cheek to Cheek, Lady Gaga tentou mas falhou miseravelmente em revisar este clássico.

Ao contrário do primeiro disco, o segundo possui as melhores versões e melhores interpretações de todo o songbook. As releituras aqui são mais interessantes, mais imaginativas e, mesmo com a delineada melancolia (isto não é uma reclamação, que fique claro), há uma atmosfera acolhedora no todo das canções que é simplesmente apaixonante, a começar por I Love Paris, que parece um pequeno concerto cheio de elementos musicais de chanson e tons menores o bastante para mesclar desejo e realização numa canção só. Pérolas como You’re the Top, So in Love (minha favorita desse dico dois), I Concentrate on You e It’s All Right With Me são grandes destaques, muito embora seja difícil encontrar canções ou versões que não sejam boas deste lado do disco. Talvez a mescla maior de elementos dentro do jazz (que a partir do álbum Rodgers & Hart viraria uma lei) fez dessa segunda parte a mais interessante do álbum inteiro, até na performance vocal da cantora.

Mesmo com equívocos, Ella Fitzgerald Sings the Cole Porter Songbook é um disco delicioso, cheio de canções clássicas e alguns momentos inesquecíveis. Apesar de ser o mais fraco da série de oito songbooks, o álbum traz faixas que são verdadeiras surpresas e garante a qualquer um 118 minutos de uma grande viagem pela música de um dos maiores compositores da história.

Aumenta!: Let’s do It – Let’s Fall in Love (Disco 1) e You’re the Top (Disco 2)
Diminui!: —-
Canções favoritas do álbum: Ev’ry Time We Say Goodbye (Disco 1) e So in Love (Disco 2)

Ella Fitzgerald Sings the Cole Porter Songbook
Artista: Ella Fitzgerald
País: Estados Unidos
Lançamento: 1º semestre de 1956
Gravadora: Verve Records
Estilo: Jazz, Vocal Jazz, Swing

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.