Crítica | Elsa & Fred (2014)

estrelas 3,5

Hollywood desnaturaliza a espontaneidade de Elsa & Fred

Adaptações em geral acabam por perder o impacto do filme original, como se vê na versão estadunidense de Elsa & Fred. Esse resultado pode muito bem ser comparado a encenação de um momento para recriar uma fotografia que havia sido feita de maneira espontânea. As técnicas estão ali, talvez até com mais refinamento ou apuro visual que no que veio antes, mas o elemento da naturalidade e emoção ficam opacos e para o espectador se torna claro que há um problema.

Isso de certa forma resume a tentativa um tanto quanto desnecessária de Hollywood em fazer esse remake. Reunir atores reverenciados pelo cinema, um diretor e roteiristas famosos por criar uma das mais belas histórias do cinema mundial com O Carteiro e o Poeta (1994) – último filme do grande ator italiano Massimo Troisi – este filme conseguiu entregar uma história que tem alguma beleza, mas é inegavelmente previsível. Ele segue um formato padrão como se vestisse um uniforme, o que o diferencia do Elsa & Fred de 2005.

Na versão argentina Elsa encara a vida de forma corajosa e espontânea e costuma colorir as memórias dela por costume enquanto na estadunidense ela dá a impressão de inventar recursos como forma de válvula de escape para os problemas de saúde dela, que desta vez só é revelada mais para frente na fita. O Fred espanhol também é mais humano e demonstra mais abertura o que entrega condições para encarar as transformações da personagem dele sob influência da loucura libertadora de Elsa. Isso já não tem a mesma solução no filme de Radford, onde Fred sofre alterações de certa forma abruptas.

Com outro fôlego, a versão dirigida por Michael Radford entrega uma revisão quase literal das cenas com ajustes caricatos à personalidade dos personagens. O casal que estrela o filme é carismático, mas têm de concorrer contra uma série de clichês que sugam a naturalidade do relacionamento. Shirley MacLaine é espalhafatosa, vaidosa, calorosa e vive intensamente enquanto Christopher Plummer é ranzinza, seco e se desencantou da vida.

É bem provável que se não houvesse como comparar os dois longas a receptividade não seria maior porque todas as intenções continuam lá, mas não consegue convencer. O discurso do filme continua sendo o de que, com a idade, vem a pressa em acertar os erros. A maneira como os dois se aproximam e desenvolvem intimidade e reciprocidade por conta da honestidade mútua e segue a agilidade de um relacionamento que não precisa dar explicações ou abrir questionamentos, mas ocorre de maneira mais forçada no remake.

A referência ao clássico de Fellini é outro ponto que precisa ser citado. Dentro da cena imortalizada na Fontana de Trevi, a rebeldia e espontaneidade da personagem de Anita Ekberg são admiradas por Elsa e ela sonha em recriar essa sensação. A cena em que ela dá um berro de felicidade em Roma, quando ele adula a beleza dela, é uma cena que carrega bastante emoção. O momento de catarse acontece na Fontana quando Elsa encarna a persona ao lado de Fred.

O que dá para extrair dessa produção é que o mercado cinematográfico está pouco a pouco mais aberto às histórias com casais sexagenários e assim por diante. Idade não limita tanto os roteiros de filmes. Existem alguns grandes marcos dos últimos anos com produções baseadas em histórias de amor entre pessoas mais maduras e é interessante analisar que a interação, a reação e a questão temporal funcionam de maneira diferente na construção desses roteiros. Entre eles é possível destacar os sucessos nas categorias comédia romântica e drama: Alguém tem que Ceder (2002) e Amor (2012).

Título original: Elsa & Fred (2014, EUA)
Direção: Michael Radford
Roteiro: Anna Pavignano, Michael Radford
Elenco: Shirley MacLaine, Christopher Plummer, Marcia Gay Harden, Scott Bakula, Chris Noth, George Segal, James Brolin, Erika Alexander, Wendell Pierce, Osvaldo Ríos, Jaime Camil
Duração: 94 min.

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.