Crítica | Elstree 1976

estrelas 4

Resultado de uma campanha bem sucedida de crowdfunding no Kickstarter, Elstree 1976 é um documentário que explora os figurantes e atores de papeis menores – às vezes minúsculos e invisíveis – no primeiro filme da saga Star Wars. É mais um exemplo de como a franquia embrenhou-se profundamente no imaginário popular, sendo explorada nos mais variados ângulos sejam em obras sancionadas pela Lucasfilm, sejam em obras como esta, independentes e que não levam o selo da produtora.

Os fãs, porém, não devem esperar um filme sobre os bastidores da produção. Não é esse o objetivo de Jon Spira aqui. Muito ao contrário, o diretor e roteirista quase principiante dá o tom de sua narrativa logo nos primeiros minutos, escolhendo um olhar acridoce, quase melancólico daquelas pessoas que, em sua maioria, sem falar uma palavra e com os rostos cobertos por maquiagem ou capacetes, apareceram de maneira fugaz em uma obra tão icônica e tão importante para a cultura pop, que mesmo esses pequenos momentos de suas vidas tornaram-se marcantes e, em alguns casos, definidores para seus respectivos futuros.

A estrutura do documentário é clássica, sem grandes invencionices. Vemos os entrevistados falando em resposta à perguntas que não ouvimos (não há narrador ou interferência “de trás da câmera”) lembrando da experiência e dando detalhes do antes, durante e depois, especialmente sobre como ela os afetou, intercaladas por brevíssimas e belas dramatizações que servem de transições (assim com a tela branca com o close-ups extremos dos “bonequinhos” dos personagens que os entrevistados viveram) e algumas sequências do filme que mostram o exato momento em que apareceram. O ar melancólico que mencionei está presente a todo momento, notadamente na trilha sonora e também na cronologia básica que o filme segue, lidando primeiro com quem são eles, seguido de seus primeiros contatos com o cinema, da experiência em si, do pós-experiência e, finalmente, de uma olhadela para trás sobre o que poderia ter sido e jamais foi.

O anedotário também é alimentado, claro, com algumas historietas contadas jocosamente por alguns e de forma amarga por outros. Ouvimos como aconteceu a famosa sequência em que o Stormtrooper bate com a cabeça em uma porta na Estrela da Morte, como o personagem Fixer foi cortado da também famosa sequência integralmente cortada da obra e jamais reinserida em que Luke e Biggs se encontram em Tatooine e descobrimos que o mesmo figurante que fez Fixer também viveu o Sandtrooper que é mentalmente controlado por Obi-Wan Kenobi ao chegar em Mos Esley (“Move along, move along“). E também conhecemos o homem por trás da máscara de Greedo e outros que não tiveram a sorte de terem diálogos ou mesmo uma sequência em que aparecessem por mais de uma fração de segundo, em segundo ou terceiro plano, cercados de diversos outros personagens desconhecidos. Por outro lado, conhecemos “quase estrelas” como Garrick Hagon, que viveu Biggs Darklighter e participou de mais de 150 produções televisivas e cinematográficas, Jeremy Bulloch, que teve a sorte de viver Boba Fett, um dos mais icônicos personagens da franquia (que teve sua participação limada do corte cinematográfico original, mas que repetiu a dose em O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi) e, claro, o mais famoso de todos os mascarados, o gigante David Prowse, um  dos três atores que compuseram Darth Vader.

No entanto, apesar dos momentos divertidos que vemos no longa, é na amargura e sinceridade de alguns comentários que o documentário realmente se destaca. O sentimento que de certa forma perpassa os depoimentos é de oportunidade perdida, de não terem conseguido seguir, de forma relevante, pela carreira no cinema ou televisão. E, mesmo reconhecendo a importância de Star Wars em suas vidas, com Prowse mesmo, que famosamente brigou com a Lucasfilm que ele reputa tê-lo enganado ao tirar sua voz e sua única oportunidade de aparecer com seu rosto na saga, admitindo que sua verdadeira renda vem de sua conexão com a franquia e as consequentes participações em convenções das mais variadas vendendo autógrafos e fotos para os fãs. O próprio enfoque nas convenções, das quais todos já participaram, mais ou menos vezes, é motivo ao mesmo tempo de um orgulho acanhado e de rixas em que os figurantes sem crédito são considerados inferiores aos que receberam crédito na fita, mesmo sem seu rosto aparecer. A revelação de uma hierarquia mesmo nesse nível de “estrelato” é ao mesmo tempo fascinante e perturbadora, tamanha é a aparente mesquinhez de uns em relação aos outros.

E há os que se acham mais importantes e relevantes do que talvez sejam. Há os que acreditam piamente que Star Wars teve mais sorte de tê-los do que o contrário (ninguém fala isso, mas alguns tem essa postura) e, com isso, devagarinho, o documentário vai ganhando vida, vai representando uma fatia pouco ou nada explorada dos recônditos de uma produção cinematográfica. Mas, acima de tudo, o filme pode ser visto como um pequeno recorte da Humanidade. Ambições, frustrações, arrependimentos, lembranças, mesquinharia, inveja: tudo está presente aqui como está presente no dia-a-dia de cada um de nós e que talvez nem percebamos.

Mais do que apenas uma curiosidade sobre Star Wars, Elstree 1976 é a visão franca sobre um grupo de pessoas que teve um pequeno grande momento de glória ao fazer parte desse universo de muito tempo atrás e muito, muito distante.

Elstree 1976 (Reino Unido, 2015)
Direção: Jon Spira
Roteiro: Jon Spira
Com: David Prowse, Angus MacInnes, Pam Rose, Derek Lyons, Garrick Hagon, Laurie Goode, Anthony Forrest, John Chapman,  Jeremy Bulloch, Paul Blake
Duração: 97 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.