Crítica | Elysium

estrelas 3

De certa forma, Elysium é o que Distrito 9, longa anterior do mesmo diretor, seria se tivesse sido bancado por um grande estúdio. Ao passo que Distrito 9 é um filme inovador, desafiador e, sim, perturbador, Elysium é uma versão mais cara, mais bonita, mas mais aguada, diluída, do mesmo filme. Mas é claro: um custou 30 milhões, o outro 115. O controle mais rígido do estúdio para criar algo mais palatável para as massas era inevitável e compreensível.

Mas isso faz de Elysium um filme ruim?

A resposta é um enfático não.

Elysium tem visuais deslumbrantes, com efeitos de computação gráfica de fazer o queixo cair que são jogados na tela para deleite do espectador logo nos primeiros segundos de projeção, quando aprendemos que a Terra de 2154 é uma gigantesca favela, com superpopulação e extrema pobreza e que os mais abastados construíram (ou mandaram construir, claro) uma estação espacial onde vivem em órbita. Lá, não há doenças nem mortes devido à alta tecnologia, além de todo mundo viver em conforto total, com mansões, piscinas e gramados verdejantes. Blomkamp nos conta toda essa história e também a do protagonista, Max (Matt Damon), cujo único desejo é um dia conhecer Elysium, de forma muito orgânica, bem inserida na projeção que nos mesmeriza com a dicotomia entre o Inferno na Terra e o Paraíso no céu sem que as comparações bíblicas nos sejam empurradas goela abaixo como em Homem de Aço.

Elysium é comandada com mão de ferro pela Ministra de Defesa Delacourt, vivida com vilania por Jodie Foster, que tem como uma de suas principais funções evitar que imigrantes ilegais invadam a estação espacial. Esses imigrantes desesperados são enviados por Spider (Wagner Moura) que vive disso, em sua fortaleza improvisada. Alice Braga é Frey, enfermeira e amiga de infância de Max e Sharlto Copley faz o capanga de Delacourt na Terra, um maníaco assassino biônico chamado Kruger (que outro nome poderia ser, não é mesmo?).

Os papéis de Wagner Moura e Alice Braga no filme são essenciais, peças-chave no filme, não apenas pontas glorificadas (Santoro, estou olhando para você!) e os dois estão muito bem, convincentes em seus respectivos personagens. Arriscaria dizer que Wagner Moura consegue, em todos os momentos que divide a tela com Damon, ser muito superior ao já estabelecido ator de ação, mas isso talvez se deva muito mais ao papel limitado que foi dado a Damon do que qualquer outra coisa.

E é aí que os problemas de Elysium, seu alto orçamento e maior controle do estúdio começam a ser verdadeiramente sentidos. Passado o primeiro terço da fita e estabelecida a premissa, o espectador, já acostumado com o – repito – deslumbrante visual, passa a procurar algo mais, inevitavelmente esperando um “novo Distrito 9“. No entanto, o que se vê desenrolando na tela é muito mais um filme de ação e pancadaria do que uma ficção científica madura. Blomkamp, que também escreveu o roteiro, meio que como uma versão maior e mais ousada de seu filme anterior, foi obrigado a emburrecer conceitos, a rarear os lampejos de brilhantismo. Sai a crítica social pesada, entram os exoesqueletos para intensificar a briga. Saem as possibilidades infinitas de ultrapassar as barreiras da convenção do sci-fi básico, entram a amor de infância, a criança doente, a cama milagrosa e vilões unidimensionais.

Sim, é muito interessante ver a intensidade da atuação de Copley como o Homem de 6 Milhões de Dólares do futuro, mas ele é só “mau como o pica-pau”, sem nuances. O mesmo vale para Jodie Foster e, principalmente para William Fichtner, que vive John Carlyle, um magnata que explora a mão de obra barata na Terra e tem laços estreitos com Delacourt.

Além disso, tudo é muito explicado no roteiro de Blomkamp, tornando-o, por vezes, risivelmente didático, certamente porque o estúdio deve ter achado Distrito 9 um filme hermético e difícil demais (se não conseguem perceber, estou revirando meus olhos nesse momento). Sai a sutileza, entra o pé na porta.

Mas é possível ver além dos problemas e vislumbrar o potencial de Elysium. É verdade que, em muitos aspectos, a trama de segregação lembra Distrito 9, mas em outros, ele vai além, tratando da superpopulação, da vida eterna, de sacrifícios e outros aspectos que estão lá presentes, mas que não são explorados como talvez alguns esperassem. Blomkamp tenta compensar os problemas com um excelente controle de câmera com tomadas de tirar o fôlego como a queda de uma nave em Elysium e parte da luta final (digo parte, pois ela é longa demais para o meu gosto), mas o resultado final não chega a impressionar de verdade, apesar do começo promissor.

O potencial está lá, ou estava. Mesmo assim, Elysium é um bom exemplar de ficção científica que só precisava um pouco mais de ousadia e menos didatismo.

Elysium (Idem – EUA, 2013)
Direção: Neill Blomkamp
Roteiro: Neill Blomkamp
Elenco: Matt Damon, Jodie Foster, Charlto Copley, Alice Braga, Diego Luna, Wagner Moura, William Fichtner, Brandon Auret, Josh Blacker, Emma Tremblay
Duração: 109 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.