Crítica | Em Busca de Fellini

A metalinguagem é um artifício discursivo que já foi brilhantemente utilizado quando cineastas resolveram olhar para seu próprio fazer artístico. O drama açucarado de Cinema Paradiso alcançou um resultado improvavelmente profundo, com direito a uma cena final apoteótica e capaz de arrancar lágrimas de uma estátua. A Invenção de Hugo Cabret, filme sui generis dentro da filmografia de Martin Scorsese, transportou para a modernidade do 3D a mágica cena em que um trem chega à sua estação, em Chegada de Um Trem à Estação de Ciotat, dos irmãos Lumière. Conta-se que a plateia deste, que foi o primeiro filme de todos os tempos, assustou-se com a cena, quando o trem se aproxima da tela. Ali nascia o cinema, com sua linguagem, sua magia e sua capacidade tão única de causar comoção.

Esses são bons exemplos do cinema face a face com a sua história. Outros filmes, contudo, se debruçam sobre fases específicas da Sétima Arte ou, ainda, sobre a obra de cineastas importantes. Um deles, que frequentemente inspira seus colegas mais novos a revisitar seus filmes e seu estilo quimérico, é o italiano Federico Fellini. Daniel Day-Lewis capitaneou o razoável Nine – um musical em tom de pastiche do clássico felliniano Oito e Meio. Quando me deparei com o primeiro longa-metragem de Taron Lexton, intitulado Em Busca de Fellini, tive sinceras esperanças de se tratar enfim de uma homenagem verdadeiramente digna ao diretor italiano. Mas a história da menina Lucy (Ksenia Solo), que descobre o amor pelo cinema de Fellini e vai para Roma encontrá-lo, entrega muito pouco do que promete.

A construção técnica do filme até tenta. A direção de arte é maravilhosa, de fato. O trabalho de iluminação e de cenografia é impecável. As luzes que penetram as janelas do quarto de Lucy constroem uma atmosfera riquíssima de sonho, na fronteira entre a realidade melancólica que ela vive e a fantasia que encontra nos filmes de seu ídolo. Há inclusive alguns flares durante o desenvolvimento do filme, esteticamente muito bonitos e bem realizados. A fotografia de Kevin Garrison culmina nas cores saturadas com que Roma é oniricamente apresentada. A fotografia é um dos pilares do cinema de Fellini e a homenagem de Lexton, ao menos nesse quesito, está à altura do material original. É uma pena notar que praticamente tudo o que funciona em Em Busca de Fellini se resume a seu acabamento estético.

A premissa do roteiro já é bastante problemática. Buscar Fellini como escapismo de uma realidade infeliz me parece evocar o antigo problema de enxergar a arte como um afastamento do real. Na verdade, a arte é muitas vezes o oposto disso. Os roteiros espicaçados e repletos de devaneios de Fellini não são uma fuga, mas um mergulho profundo e peculiar no real. Em Amarcord, os sonhos de infância com mulheres cheias de curvas e seios fartos (o filme até tenta brincar com esse tipo felliniano) estão entremeados por temas da maior seriedade, como a ascensão do fascismo na Itália. Criar uma personagem tão ingênua, não só a respeito da vida, mas também do que é o próprio cinema de Fellini, é iniciar o filme de forma frustrante. Lucy é, com certa benevolência, uma Cabíria de baixíssimos teores. Sim, a atriz Ksenia Solo é bastante boa, mas muito mal aproveitada em uma personagem fraca.

Outros problemas de roteiro vão surgindo a seguir. Apresentar Roma com “O Sole Mio” é um clichê tão sem imaginação que chega a ser constrangedor. Absolutamente nada de errado com a música em si, mas usá-la e repeti-la, como se fosse necessário chamar a atenção tantas vezes para a mudança de localização do filme, chega a ser patético. Aliás, esse é o grande problema do roteiro de Em Busca de Fellini como um todo. E a montagem segue o erro. Lucy vive em Roma diversos momentos que são referências a cenas clássicas de A Estrada da Vida, Noites de Cabíria e A Doce Vida. Só não seria necessário picotá-las tantas vezes para inserir as cenas originais como explicações preguiçosas, que só vão quebrando o ritmo natural da obra. O filme não acredita em seu público, não demonstra segurança de que está transmitindo suas ideias a contento e fica a todo momento tropeçando em explicações desnecessárias e didatismos chatos. E de tanto tropeçar, acaba não chegando a lugar algum.

Apresentar tantos personagens da obra de Fellini, além de uma cena em que a protagonista acorda sobre o túmulo de Nino Rota (compositor de tantas trilhas sonoras do diretor italiano), não garante uma boa homenagem. Não forma uma obra coesa e muito menos com eloquência suficiente para comover seu público. O final, em tom de melodrama barato, ainda que a fotografia e a iluminação estejam lá, fazendo seu papel com brilhantismo, demonstra bem o que é o longa-metragem de Taron Lexton – um filme inseguro, que quer arrancar lágrimas de um público que não soube conquistar. Mais uma vez, Fellini merecia mais.

Em Busca de Fellini (In Search of Fellini – EUA, 2017)
Direção: Taron Lexton
Roteiro: Nancy Cartwright, Peter Kjenaas
Elenco: Andrea Osvárt, Angela Nordeng, April Martucci, Barbara Bouchet, Beth Riesgraf, Branislav R. Tatalovic, Dan van Husen, David O’Donnell, Emily Dahm, Isabel Gravitt, Katelyn Causey, Kim Evans, Ksenia Solo, Laura Allen, Lorenzo Balducci, Maria Bello, Mary Lynn Rajskub, Michael Wiseman, Mike Falkow, Morgan Wolk, Nancy Cartwright, Paolo Bernardini, Rod Fielder, Victoria Clare
Duração: 93 min.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.